2006/09/27

E o nome da força unificadora é Jesus!

Evangelical Scientists Refute Gravity With New Intelligent Falling Theory

The Onion

Evangelical Scientists Refute Gravity With New 'Intelligent Falling' Theory

TOPEKA, KS-Evangelical physicists are now asserting that objects fall because a higher power is pushing them down.


Sugiro a leitura completa. Deixo aqui alguns destaques:

"According to the ECFR paper published simultaneously this week in the International Journal Of Science and the adolescent magazine God's Word For Teens!, there are many phenomena that cannot be explained by secular gravity alone, including such mysteries as how angels fly, how Jesus ascended into Heaven, and how Satan fell when cast out of Paradise.

The ECFR, in conjunction with the Christian Coalition and other Christian conservative action groups, is calling for public-school curriculums to give equal time to the Intelligent Falling theory. They insist they are not asking that the theory of gravity be banned from schools, but only that students be offered both sides of the issue "so they can make an informed decision."

"We just want the best possible education for Kansas' kids," Burdett said.

Proponents of Intelligent Falling assert that the different theories used by secular physicists to explain gravity are not internally consistent. Even critics of Intelligent Falling admit that Einstein's ideas about gravity are mathematically irreconcilable with quantum mechanics. This fact, Intelligent Falling proponents say, proves that gravity is a theory in crisis.

"Let's take a look at the evidence," said ECFR senior fellow Gregory Lunsden."In Matthew 15:14, Jesus says, 'And if the blind lead the blind, both shall fall into the ditch.' He says nothing about some gravity making them fall—just that they will fall. Then, in Job 5:7, we read, 'But mankind is born to trouble, as surely as sparks fly upwards.' If gravity is pulling everything down, why do the sparks fly upwards with great surety? This clearly indicates that a conscious intelligence governs all falling."

Critics of Intelligent Falling point out that gravity is a provable law based on empirical observations of natural phenomena. Evangelical physicists, however, insist that there is no conflict between Newton's mathematics and Holy Scripture.

"Closed-minded gravitists cannot find a way to make Einstein's general relativity match up with the subatomic quantum world," said Dr. Ellen Carson, a leading Intelligent Falling expert known for her work with the Kansan Youth Ministry. "They've been trying to do it for the better part of a century now, and despite all their empirical observation and carefully compiled data, they still don't know how." (...)

Anti-falling physicists have been theorizing for decades about the 'electromagnetic force,' the 'weak nuclear force,' the 'strong nuclear force,' and so-called 'force of gravity,'" Burdett said. "And they tilt their findings toward trying to unite them into one force. But readers of the Bible have already known for millennia what this one, unified force is: His name is Jesus."

(Agradeço a dica ao Agreste Avena.)

2006/09/26

Onde estava o Professor Pedro Arroja no 25 de Abril?

A resposta a esta e a muitas outras perguntas na entrevista que Pedro Arroja deu (ou terá vendido?) a Fernanda Câncio, em 1994. É o Blasfémias condensado num texto. Vale a pena ler. Obrigado ao zèd pela sugestão. Alguns destaques:
«Mas é precisamente a pensar nos pobres que eu punha a questão da transacção do voto. Se uma pessoa tem direito a um voto mas não quer usá-lo, tem de o deitar fora. Noutro sistema, poderá vendê-lo a alguém que queira votar várias vezes. Já viu quantos pobrezinhos ficavam beneficiados?»

Ou ainda:
«Por isso é que eu acho que a Constituição devia seguir o exemplo da americana, que diz o que o Estado não deve fazer, ao invés de dizer, como a nossa, o que ele deve fazer. A ideia é limitar os poderes do Estado, que é para prestar serviços gerais à população, como a defesa. Não é para andar a tratar da vida de toda a gente, a dar saúde, emprego, etc. Isso cada um trata da sua vida.»

Ou melhor (destaques meus):
«Posso-lhe dizer que não há país do mundo onde os negros vivam tão bem como na América. (...) Repare, eu acho que eles têm todo o direito à liberdade, é a terra deles. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra. (...) Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo. (...) Alguns foram levados como escravos. Mas ainda hoje há gente a emigrar para lá, negros. E deixe-me dizer-lhe uma coisa. O homem que ganhou o prémio Nobel, este ano, Robert Fogel, provou que se o sistema da escravatura era politicamente inaceitável, em termos económicos, para os negros, era um sistema muito eficaz. Mais: que o trabalhador negro da época, escravo, vivia melhor que o trabalhador médio branco. Certamente que a conclusão é surpreendente, é por isso que ganhou um prémio nobel. Mas documentou extraordinariamente bem (...) Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico. (...) Sabe, não há nenhum prémio Nobel da economia a sair dos países católicos do sul da Europa, e é porque a pretensão é chocante. Estou aqui a falar de estudos documentados, prémios Nobel, e as pessoas riem-se, porque não é aceitável. Eu acho admirável a capacidade de levar a razão humana a este ponto.»

É de morrer a rir. E isto é só uma pequena amostra. Passem por e leiam tudo. A vantagem de se viver na Europa é esta: na Europa lemos uma entrevista destas e rimo-nos.

2006/09/25

Para os portugueses com mais de 55 anos, um verdadeiro combatente pela liberdade é necessariamente um antifascista

É claro que “combatente pela liberdade” e “antifascista” não são em geral sinónimos. E é igualmente claro que nas últimas três décadas não houve (felizmente) necessidade de combater o fascismo em Portugal. Uma vez vencida a ditadura, e só então, puderam surgir livremente os tais “combatentes” da “liberdade” de que fala o Blasfémias, e onde se inclui o Professor Pedro Arroja. Quem defende essa “liberdade” tem de facto um combate a travar (pelo menos cultural), pois não é esse o meu conceito de liberdade e nem o do comum cidadão. Mas sobre a diferença entre os conceitos de liberdade de liberais como os membros do Blasfémias e o comum cidadão escreverei noutra altura. O que parece indiscutível é que, para os portugueses da geração do Professor Pedro Arroja, não havia liberdade. Pedro Arroja não será da geração de Badaró ou Raul Solnado, mas tem idade para ter sentido a falta de liberdade do salazarismo. Para merecer a classificação de “um dos grandes combatentes pela liberdade das últimas décadas”, e no caso de ter vivido o fascismo como jovem adulto, tem de ter algum passado antifascista. Confesso que não sei – desconheço a sua idade e a sua biografia: esteve o Professor Pedro Arroja na Universidade em Portugal antes de 1974? Se esteve, o que fez para merecer ser caracterizado como um grande “combatente pela liberdade”? Agradeço que me esclareçam. Cabe então perguntar: onde estava o Professor Pedro Arroja no 25 de Abril?

2006/09/22

Força Ronny!


Não partilho de todo a posição do presidente do Sporting de defender um novo jogo Sporting-Paços de Ferreira. Só a defenderia se esse passasse a ser um procedimento comum para cada jogo em que o árbitro influenciasse o resultado com erros escandalosos em prejuízo de uma das equipas, o que de facto aconteceu em Alvalade no fim de semana passado. Só que a sugestão de Soares Franco seria somente a de um acto isolado. Poderia corrigir a injustiça do jogo do Sporting, mas há que corrigir as injustiças todas. Ainda na semana anterior o Beira Mar foi roubado em Leiria (tendo perdido dois pontos, enquanto o Sporting, à custa do árbitro, só perdeu um). Não vi Soares Franco ou ninguém a pedir a repetição desse jogo. Os erros (voluntários ou não) acontecem a todos. Mais contra o Sporting do que contra os seus adversários directos, é verdade. Mas aguentar este facto faz parte da condição de sportinguista. Para mantermos a nossa superioridade moral, para pedirmos o fim dos erros temos de pedir o fim dos erros todos.
Acresce a isto que quer José Mota, o técnico do Paços de Ferreira, quer o jogador infractor (Ronny) foram de uma grande humildade (ao contrário de outros que no passado ganharam ao Sporting com a ajuda do árbitro). O Ronny reconheceu mesmo que marcar o golo com a mão tinha sido “instintivo”, não inventando desculpas ou procurando negar o inegável. A um jogador assim eu só posso desejar as maiores felicidades pessoais. E que continue a marcar muitos golos, com o pé ou com a mão. De preferência já no próximo jogo, hoje à noite.

2006/09/21

Eça, as letras e os jornalistas

O Diário de Notícias oferece agora uma colecção de medalhas de portugueses famosos. Na edição impressa (mas não na edição electrónica), é incluída uma pequena nota biográfica sobre o homenageado. Na semana passada (creio que na sexta feira), calhou ser Eça de Queirós. O grande mestre da prosa novecentista era descrito como uma das figuras de proa do romantismo, o que já de si é um erro crasso, como qualquer aluno do 9º ano reconhecerá. Românticos eram Almeida Garrett ou Camilo Castelo Branco; Eça era um realista, como Balzac, Zola, Flaubert e outros.
Mas nem era este o único erro num texto de menos de dois mil caracteres. Numa passagem elogiavam a “riqueza” do vocabulário do Eça de Queirós. Ora se há crítica que é feita ao Eça de Queirós pelos seus detractores é a de ter um vocabulário algo limitado, recorrendo frequentemente aos galicismos (“chaminé” em vez de “lareira” e assim por diante). Mesmo admitindo que isso possa ser verdade, este facto realça no entanto a qualidade de Eça de Queirós que eu mais admiro: como consegue ser tão extraordinariamente sugestivo com uma tamanha economia de recursos. O uso por parte de Eça dos adjectivos e advérbios é o mais bonito que eu já vi. Mais do que nenhum outro romancista que eu conheça, a prosa queirosiana é uma obra de arte. E tudo isto com o referido vocabulário “limitado” e económico, características que eu aprecio num escritor. A escrita de Eça vale por si mesma, não necessita de adornos vocabulares pedantes e dispensa a consulta do dicionário. Eu nunca gostei de ir ao dicionário.
Assim encontramos, num texto simples de um jornal, dois erros de palmatória. Escritos provavelmente por um jornalista que teve muitas cadeiras de literatura (mais do que eu, que só tive o português do ensino secundário). No entanto, um bom aluno do 11º ano notará estes erros. Mas nem todos os alunos notarão. Esta biografia também será lida por estudantes da obra de Eça, que encontram assim no jornal de todos os dias uma contradição com aquilo que devem aprender na escola.
O editor de sociedade do Diário de Notícias, um rapaz que, calhando, até sabe calcular uns integrais e, se se esforçar, ainda inverte uma matriz, escreveu há tempos um artigo onde refere a falta que fazem melhores jornais. Tem razão, mas às vezes eu acho que também fazem falta melhores jornalistas.

2006/09/20

A definição de planeta e os “limites da ciência”

Pedro Correia é um jornalista e blóguer que costumo gostar muito de ler. Escreveu no mês passado no seu blogue um texto (que poderia ser subscrito por muitas outras pessoas) sobre a pífia questão do estatuto de Plutão. Já andava para o comentar há algum tempo, mas só agora pude.
O que é curioso no caso do Pedro Correia é que alguns dos comentários no seu texto revelam que ele ironicamente em certos aspectos está mais próximo das teses do Prof. Boaventura de Sousa Santos do que à partida poderia julgar.
Convém prestar um esclarecimento: a “definição” de planeta não passa disso: uma definição. Uma convenção. Nada mais que isso. Saber se Plutão é ou não um “planeta” é completamente irrelevante para entender a estrutura do Universo. Para entender isto melhor, nada como mais um dos deliciosos textos “para educar o povo” do João Miranda. É pura e simplesmente uma questão de semântica. Nem sequer é ciência.
Em que é que a nova definição de planeta é “uma clara demonstração dos limites da ciência contemporânea na interpretação e catalogação da realidade - incluindo a própria realidade "física", que muitos pensavam ser facilmente traduzível por fórmulas, equações e etiquetas”? Eu tenho a certeza de que Plutão era um planeta de acordo com a definição antiga, e não o é com a nova... E daí? Em que é que isso altera a nossa visão do Universo? Pode quanto muito ter de levar à alteração de muitos manuais escolares. O que é uma questão importante. Mas não é uma questão científica.
Muito mais importantes são acontecimentos como a descoberta da matéria escura, de que falei atrás. Só tenho a lamentar que esse facto (ele, sim, importante para a compreensão do Universo) tenha sido praticamente omitido das páginas da maioria dos jornais portugueses, em detrimento de mais não sei quantas críticas literárias, musicais ou cinematográficas ou da pífia questão do estatuto de Plutão.
(Esta é uma opinião pessoal e que não vincula o jornal onde escrevo até ao fim deste mês.)

Para ler mais: The Cash Value of Astronomical Ideas, no Cosmic Variance.

2006/09/19

As FARC, as petições e os blogues

Como referi anteriormente, o Tiago Barbosa Ribeiro tem o direito de organizar as petições que entender. No caso concreto da presente petição já não é de agora que o Tiago se refere às FARC e à situação de Ingrid Betancourt. Por isso eu respeito a sua posição.
Permanecendo somente nos blogues que leio, já relativamente ao Blasfémias eu não posso dizer o mesmo: que eu me lembre, nunca li no blogue nenhuma referência às FARC ou a Ingrid Betancourt, em mais de dois anos (não encontrei nada no Google). No entanto a petição e todos os textos sobre este assunto desde então são apresentados de uma forma séria e não panfletária (ou não fosse o blasfemo promotor da mesma o Gabriel Silva). Nada a apontar, portanto.
Há ainda o caso (costumeiro) de O Insurgente, apesar de ninguém neste blogue ser um dos promotores da petição. De acordo com o Google, também não encontrei nenhum material sobre Betancourt, antes de este caso da festa do Avante ter surgido. Será que a indignação só surgiu agora? Pelo contrário, encontrei foi vários textos em defesa do governo colombiano, que mantém prisioneiros políticos e apoia grupos paramilitares assassinos de extrema-direita, que actuam tal e qual como as FARC. A isto, no mesmo blogue, acrescentam-se textos elogiosos a Ann Coulter. Que terá Ann Coulter a ver com as FARC, para além de provavelmente achar que não são nada que não se resolvesse com uns bombardeamentos? Entre outras posições, Ann Coulter defende que as mulheres não deveriam poder votar. Fará sentido defender-se que as mulheres não podem votar e defender-se Ingrid Betancourt, candidata à eleição presidencial? Bem, se as mulheres não pudessem votar, Ingrid não se teria envolvido numa campanha eleitoral e nem teria sido capturada. Faz sentido. E é então por isso que no mesmo blogue surgiram do nada, desde que o assunto começou a dar o que falar, não um nem dois, mas dez textos sobre o assunto, e de certeza que só não surgiram mais porque o chefe entretanto esteve de férias. Sinceramente, ainda bem que O Insurgente não surge como um dos blogues promotores da petição.
Da minha parte, já conhecia a história de Ingrid Betancourt (embora nunca tivesse escrito sobre ela). A ninguém que tenha vivido recentemente em Paris, como eu, poderia escapar o retrato de Ingrid em frente ao Hotel de Ville, como se vê na fotografia que eu roubei ao Véu da Ignorância.
Mas nem por isso assinei a referida petição. Entre outras coisas, porque legitima o governo colombiano e os seus procedimentos. Faço no entanto aqui os meus votos para que as FARC libertem imediatamente Ingrid Betancourt e todos os seus prisioneiros políticos.

2006/09/18

A maior novidade mediática da semana

Não é o surgimento do semanário Sol, e nem Jura, a nova telenovela da SIC: é o Cinco Dias. Que não poderia começar melhor, com o Rui Tavares a falar-nos dos intelectuais e dos media nos dias de hoje. A não perder.

As FARC, o PCP e as petições

A minha posição sobre as FARC é bastante clara. Sobre a sua presença na “Festa do Avante”, o PCP já esclareceu: não foram convidadas. Quem foi convidado foi o Partido Comunista da Colômbia e uma revista que apoia a acção das FARC. É natural que surjam panfletos e cartazes menos felizes numa festa do cariz da Festa do Avante!, como também surgem em manifestações.
No entanto o PCP não se furtou a responder à questão: “apoiava” a sua luta. Na sua resposta o PCP referiu ter uma concepção de terrorismo “diferente”. Fez bem em demarcar-se da definição de terrorismo do governo americano, tal como referi no texto anterior. Infelizmente, o conceito de “terrorismo” do PCP é também bem diferente do meu, uma vez que o PCP referiu “não considerar” as FARC terroristas. Apesar de referir que “não os utilizaria”, o PCP não condenou os métodos das FARC. O que é pena e é lamentável, e confirma mais uma vez que, em termos de política internacional, o PCP não pode ser levado a sério. Não que essa posição seja surpreendente: afinal, e infelizmente, é coerente com muitas posições do PCP em política internacional. Não nos esqueçamos de Albano Nunes que, durante os bombardeamentos ao Afeganistão, desconfiava da ajuda humanitária americana: o seu objectivo era “habituar as populações às marcas americanas”.
Dito isto, ao contrário do Tiago Barbosa Ribeiro eu julgo que o PCP tem um papel muito importante na democracia portuguesa e não deve nunca ser marginalizado. Há alturas em que se têm de fazer demarcações claras, de traçar uma linha, mas nenhum partido que se diz de esquerda pode tratar os comunistas como se não contassem. E impressiona-me sempre que vejo uma pessoa que se diz de esquerda a fazer do PCP o seu adversário principal, algo que no caso do Tiago Barbosa Ribeiro é recorrente. Se fizermos uma estatística ao Kontratempos, os textos contra o PCP ultrapassam em número, de longe, os contra qualquer outro partido, se é que estes existem.
Não posso deixar de sorrir quando o Tiago, num assomo de ingenuidade juvenil, afirma esperar que o Bloco de Esquerda isole o PCP e se junte aos restantes partidos num eventual protesto contra a presença das FARC. A maior parte das demarcações que eu referi são válidas quer para o PCP quer para o Bloco de Esquerda, uma organização política com uma forte influência da IV Internacional (trotskista). Em termos de política internacional, eu não vejo grandes diferenças entre o Bloco de Esquerda e o PCP. Mais: nas matérias em que possa haver divergências teóricas (não na prática), como na política europeia, as posições do PCP, sendo retrógradas, são muito mais coerentes do que as do Bloco.
Mas o tema era o PCP e as FARC, e não o Bloco. O PCP não deveria falar como fala das FARC, e o Tiago tem o direito de protestar, se tal o incomoda tanto (embora eu também tenha o direito de achar que tal faz sobretudo parte de uma obsessão anti-PCP da sua parte). De resto, eu sempre achei o Kontratempos um blogue muito informativo e coerente, que não hesita em dizer algumas verdades inconvenientes (só para dar um exemplo refiro o texto A Diferença Toda de hoje). Quando eu discordo do que leio no Kontratempos (algo que nem sucede assim tantas vezes), é um prazer para mim: estar a discordar de uma posição bem fundamentada ajuda-me a organizar melhor os meus pontos de vista. Foi o caso da petição que o Tiago achou por bem fazer. Depois explicarei porquê.

2006/09/17

Talvez a descoberta científica mais importante deste Verão

Descobertos os primeiros sinais de matéria escura

A matéria visível e a matéria escura foram separadas por uma grande colisão de dois enxames de galáxias. A descoberta foi feita utilizando o observatório de raios X Chandra, da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), em conjunto com outros telescópios, e constitui a primeira observação directa deste fenómeno.
A matéria escura é um tipo de matéria que não emite nem absorve suficiente luz para ser detectada directamente, sendo a sua presença deduzida somente através dos seus efeitos na matéria visível. Esses efeitos podem ser a velocidade de rotação das galáxias e as velocidades orbitais das galáxias em enxames, ou os desvios de luz conhecidos por lentes gravitacionais.
A observação agora anunciada foi feita no enxame Bala, um dos mais quentes enxames de galáxias conhecido, situado na constelação Carina, a cerca de quatro milhares de milhões de anos-luz da Terra. Neste enxame, dois aglomerados de galáxias independentes colidiram recentemente, tendo sido observados pelo Chandra e ainda pelo telescópio Hubble e por outros telescópios do Observatório Europeu do Sul, no Chile. Cerca de 90 por cento da matéria destes aglomerados é constituída por gás quente intergaláctico emissor de raios X. Durante este processo o gás quente de cada um dos aglomerados colidiu com o do outro, enquanto as galáxias (individualmente) e a matéria escura não foram afectadas. Duas equipas de astrofísicos lideradas por Douglas Clowe (da Universidade do Arizona) e Maxim Markevitch (do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian), dos EUA, compararam imagens do gás obtidas pelos telescópios com gráficos de campos gravitacionais deduzidos a partir de observações dos efeitos das lentes gravitacionais: distorções pequenas mas coerentes na forma das galáxias de fundo, a partir das quais se pode reconstruir a distribuição de massa nos aglomerados de galáxias. Esta reconstrução não deixa lugar para dúvidas – a matéria escura tem de existir nos aglomerados observados.
De acordo com as estimativas, a maior parte da matéria que constitui o Universo é, de longe, matéria escura: apenas cinco por cento da matéria seria visível, contra 20 por cento de matéria escura e 75 por cento de energia escura. A matéria escura propriamente dita é sensível somente ao nível das galáxias, afectando os campos gravitacionais por elas sentidos. Já a energia escura está espalhada pelo Universo inteiro, sendo os seus efeitos sentidos principalmente na aceleração do Universo. Existem teorias alternativas, baseadas em alterações das leis da gravidade, que eram sugeridas como explicações alternativas dos fenómenos dos quais se infere a existência da matéria escura e da energia escura. Os resultados agora divulgados não podem ser explicados por nenhuma alteração razoável da lei da gravidade, mas só dizem respeito à matéria escura. Estes efeitos ainda podem ser utilizados como uma explicação alternativa à existência da energia escura, que se conhece muito mal e para a qual há muito poucas explicações.
Um dos principais problemas em aberto na Física de Partículas e na Cosmologia é a constituição da matéria escura. Durante muito tempo teorizou-se que esta poderia ser constituída por neutrinos, partículas muito leves e que quase não interagem com as outras, sendo neutras relativamente às interacções electromagnéticas (à luz) e nucleares fortes. Por isso estas partículas são muito difíceis de detectar. Apesar de só desde 1998 estar confirmado que estas partículas têm massa, existiam modelos para matéria escura constituída por neutrinos com massa muitos anos antes. No entanto, os dados mais recentes apontam para não existirem no Universo neutrinos em número suficiente para constituírem toda a matéria escura existente.
Estudos da formação de núcleos atómicos durante o Big Bang indicam que a matéria escura terá de ser na sua grande maioria de natureza não-bariónica (ou seja, não pode ser constituída por quarks). A grande maioria das explicações para a constituição da matéria escura assenta em partículas não conhecidas, cuja existência é prevista por teorias de unificação de todas as interacções. Uma hipótese que se encontra muito frequentemente para a matéria escura é a dos “parceiros supersimétricos”, partículas cuja existência é postulada pela supersimetria, simetria que está na base de muitos desses modelos de unificação, incluindo as teorias de supercordas. Não existe ainda no entanto nenhum sinal desta simetria, podendo a sua existência vir a ser confirmada ou desmentida no próximo acelerador de partículas do CERN.


Adaptação de um artigo do Público de 23 de Agosto de 2006

Para saber mais: aqui e aqui.

2006/09/16

2006/09/15

Debater o evolucionismo: com quem e para quê?

Curioso o repto do João Miranda (rapidamente secundado pela comissão obreira) para se iniciar um “debate” sobre a questão do criacionismo versus evolucionismo. Curioso vindo de quem vem, que escreve textos de Economia que nos tentam convencer de que o ultraliberalismo é uma “lei da Natureza”, que “não admite discussão”. “Discutir” o quê, e com quem? O João deveria saber – e sabe, apesar de não lhe dar jeito admitir – que a ciência não é (felizmente) democrática. Não se “discute” como se fosse futebol ou política. Democráticas são as condições-fronteira (conceito matemático) que impomos no mercado (escolhidas pelo Governo, escolhido por nós). Discutíveis são os textos do João Miranda.
Ainda mais curioso é o critério do João para nos convencer de que um professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e defensor do criacionismo “não tem nada de ignorante” no que diz respeito à teoria da Evolução de Darwin: o professor Jónatas Machado tem um currículo notável... a comentar livros que leu, na Amazon! Algo comparável a escrever um blogue ou comentar nele, que qualquer pessoa sem nenhum tipo de preparação científica pode fazer. Pelos vistos o João Miranda avaliaria o meu conhecimento em supersimetria e supergravidade por este comentário que escrevi enquanto principiante.
Embora tal não diga respeito à minha área política, é com tristeza que verifico que a pior direita encontra aqui um aliado, justamente quem mais a deveria renovar.
Sobre o assunto vale a pena ler quem sabe o que escreve: o Memória Inventada e o Conta Natura. Deste último texto destaco a frase
Eu, que sou cientista, digo-lhe de caras exactamente o oposto: "É um erro pensar que é preciso ensinar filosofia para ensinar ciência".

É curioso que uma opinião contrária parta do João Miranda, um defensor do sistema económico norte-americano, mas pelos vistos não do sistema educativo. Nos EUA estuda-se ciência a sério, e pouca gente que estuda ciência estuda ao mesmo tempo filosofia.

2006/09/14

Sobre as teorias de conspiração do 11 de Setembro

9/11 Conspiracy Theories: The 9/11 Truth Movement in Perspective por Phil Mole, via Esquerda Republicana.
As teorias da conspiração não vão no entanto "acabar", e espero que não acabem, desde que a discussão seja bem fundamentada com pressupostos científicos, como esta. É este tipo de discussões que fazem da América um país livre e avançado.

Cohen-Tannoudji, o bacalhau com natas e o cabritinho

Seguiu-se a segunda palestra de Claude Cohen-Tannoudji, hoje de manhã, num anfiteatro mais pequeno no Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa. Sendo esta palestra mais especializada, teve a vantagem de só ter gente interessada na assistência (e nenhum – nenhum – “engravatado”).
A anfitriã de Cohen-Tannoudji, que não tinha nada a ver com os episódios que relatei ontem, e que conhece a minha condição temporária de jornalista-científico-que-faz-física, teve a gentileza de me convidar a juntar-me ao almoço (informal, self-service) que a Universidade oferecia ao cientista e a outros 25 convidados, na cantina do Complexo. Não sei se estaria a violar alguma regra deontológica, e é quase de certeza verdade que tal convite se deveu à condição actual de jornalista (e ao interesse que sempre demonstrei em falar com o cientista). Aceitei com todo o gosto, e agradeço.
Cohen-Tannoudji nem tocou na morue à la creme. Experimentou antes um pouco de um estranhíssimo cabrito com ervilhas e laranja. Azar o seu, que estava muito bom.
Portugal tem muitos defeitos, mas tem esta característica intrínseca que é o nacional-porreirismo.

2006/09/13

Claude Cohen-Tannoudji e a feira das vaidades

Confesso que, após uns anos “lá fora”, eu já me tinha desabituado destas coisas. Aliás, como nunca estive muito por dentro do meio académico em Portugal, a bem dizer eu nunca me tinha habituado.
Então foi assim. Na conferência de Claude Cohen-Tannoudji, hoje de manhã, num grande anfiteatro da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, havia uma série de lugares “reservados” na primeira fila. Esses lugares eram destinados a convidados especiais, que à medida que iam chegando se iam cumprimentando, com beijinhos e apertos de mão efusivos. Já não se viam desde o último seminário que fosse também “evento social”, como este era.
Entre esses convidados, reitores, professores, gestores, directores, eu sei lá, estava o actual Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, um homem sério e que me parecia genuinamente interessado em conhecer o Prémio Nobel de Física de 1997 e saber um pouco do seu trabalho. Foi convidado... por ser o “homem do dinheiro”, e foi assim que foi apresentado a Cohen-Tannoudji. No dia em que deixar de ser presidente da FCT, já não será mais convidado de honra, o que não sucedia aos outros. Nitidamente, não era membro do “clube”.
Os membros do “clube” falavam entre si, e nenhum deles parecia minimamente interessado no trabalho de Cohen-Tannoudji. Mas só eles tinham acesso à conversa com o físico francês, que cumprimentavam e com quem tentavam manter uma conversa de circunstância. Distinguiam-se da restante audiência, para além dos lugares reservados, pelo porte: fato e gravata, imprescindível nos homens, ou um bom vestido nas mulheres.
Nas filas traseiras instalou-se quem realmente queria ouvir Cohen-Tannoudji: quem não tinha fato e gravata, fossem estudantes de licenciatura ou doutoramento, investigadores ou professores.
Após a conferência seguiu-se a sessão de perguntas. Uma senhora, membro do “clube”, colocou algumas questões num inglês pouco menos do que macarrónico. Numa ocasião, traduziu “êxito” por “exit”. Levou como resposta do Prémio Nobel um “sorry, I do not understand your question”.
Seguiram-se as questões relevantes, colocadas a partir das filas traseiras (ninguém usava gravata ou traje académico). A anfitriã, uma professora da Faculdade, dava por encerrada a sessão, a que se seguiram umas fotografias. Entretanto, dois gestores grisalhos e barrigudos recordavam-se que também já tinham estudado Física em tempos e discutiam o conceito de arrefecimento dos átomos. O que era ali a temperatura? A anfitriã tentava recordar-lhes a distribuição de Maxwell e Boltzmann.
Seguia-se o almoço com o Prémio Nobel, para o qual tinham sido convidados pelo menos alguns dos membros do “clube”. Antes havia uma rápida conferência de imprensa, onde o Prémio Nobel ia responder a algumas questões dos dois jornalistas (eu e um colega da revista 2010) que tinham aparecido no evento. Um dos engravatados, à minha frente, perguntava a outro se a conferência de imprensa ainda ia demorar muito tempo (deveria ter pressa para voltar à sua “investigação”, talvez a jogar na bolsa). Outro engravatado respondeu-lhe que não, que não deveria haver muitas perguntas a fazer: “estes jornalistas científicos não percebem nada de Física!”

A reportagem sobre as conferências de Cohen-Tannoudji – há mais amanhã – e as suas respostas a algumas das minhas perguntas surgirão em breve no Público.

Sporting Clube dos Putos


Da esquerda para a direita: Miguel Veloso (18 anos), João Moutinho (20 anos), o velho Marco Caneira (27 anos), Nani (19 anos). Ganharam ao Inter de Milão, de Figo, Crespo & cia.

2006/09/12

Claude Cohen-Tannoudji em Lisboa

Amanhã e depois (ver informações). É entrar, senhoras e senhores, meninas e meninos, é entrar.

"Milhares de pessoas têm de desistir do carro para Portugal cumprir Quioto"

Aguardo legislação nesse sentido, como há noutros países. E não são as pessoas que "têm de desistir do carro" que são umas pobres vítimas. Vítimas somos todos das pessoas que egoística e irresponsavelmente usam o carro nas cidades todos os dias.

Extracto da entrevista de Ana Paula Vitorino ao Público:

A secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, não tem dúvidas: para aumentar o número de pessoas que andam nos transportes públicos, não basta apenas melhorar a oferta, mas é preciso também criar dificuldades a quem prefere andar de carro. "Temos de penalizar o transporte individual", disse Ana Paula Vitorino ao PÚBLICO.
A secretária de Estado justifica com o seu próprio exemplo. Ana Vitorino mora em frente a uma estação do metro, em Lisboa. Mas muitas vezes vai à Baixa de carro, porque há um parque de estacionamento com tarifas baratas - o do Martim Moniz. "Não se devem construir mais parques de estacionamento no centro", afirma.
Ana Vitorino tem outras críticas às facilidades concedidas aos automóveis particulares, como a construção de infra-estruturas que melhoram o acesso aos grandes aglomerados. "Não existem razões para facilitar as entradas nas cidades", afirma.
Enquanto estava na oposição, durante o anterior Governo, Ana Vitorino criticou a construção do polémico túnel do Marquês, que pretende aliviar o trânsito numa das principais entradas de Lisboa. Agora, a secretária de Estado diz que não se pronuncia sobre o assunto.
"Se utilizássemos todos o carro, Lisboa ficava parada, ninguém podia ir a lado nenhum", acrescenta a governante. "Temos de penalizar os circuitos, para que as pessoas sintam o desconforto do transporte individual e optem pelo transporte colectivo."

2006/09/11

Haverá terrorismo aceitável?

Cinco anos depois do dia que mudou a História, vale a pena reflectir sobre a questão do título.
A meu ver, uma das grandes falácias que se seguiram ao 11 de Setembro de 2001 foi esta: passou a colocar-se todo o tipo de terrorismo no mesmo saco, e a condená-lo indiscriminadamente. Será este procedimento honesto e aceitável? Julgo que não. Visa somente satisfazer os objectivos da direita e extrema direita no poder nos EUA. Lamentavelmente este tipo de raciocínio tende por vezes a ser adoptado mesmo por pessoas que eu respeito e gosto muito de ler.
A meu ver, o terrorismo não é aceitável em Estados de Direito. Os métodos usados por organizações como a ETA ou o IRA não são, portanto, aceitáveis (vamos deixar Israel e a Palestina de fora da discussão por agora). O que não significa que sejam indefensáveis os objectivos destas organizações; só o são os seus métodos. A partir do 11 de Setembro de 2001 passou a considerar-se “ilegítima” e “indefensável” qualquer causa que fosse defendida por um grupo terrorista, e impensável sequer tentar compreender os motivos por trás do surgimento deste terrorismo. Quem o tentar fazer é logo acusado de “conivência” com o terrorismo (este ponto da discussão já se aplica perfeitamente ao conflito israelo-palestiniano).
Há no entanto a meu ver casos em que uma resistência armada (que pode ser chamada “terrorista”) é inevitável: é quando a autoridade não é um Estado de Direito e pratica ela mesma o terrorismo. Foi o caso do ANC de Nelson Mandela (sim, Nelson Mandela, a meu ver o Homem do séc. XX, também foi considerado “terrorista”), a resistir ao apartheid da África do Sul, e de muitos movimentos anticolonialistas. Foi também esse o caso de muitos movimentos de luta contra as ditaduras da América Latina entre os anos 60 e 80. Em qualquer um desses casos a luta armada parece-me aceitável e, em alguns casos, provavelmente inevitável.
O que não é aceitável é o uso de violência contra inocentes. Os casos que eu anteriormente foquei usavam a violência contra agentes da autoridade. Agentes corruptos e ditatoriais.
Na Colômbia vigora um regime corrupto de extrema-direita dominado por militares e barões da droga, que aterrorizam quem se lhes opuser. A resistência armada a um regime destes é aceitável e legítima.
Lamentavelmente, não é só isto que fazem as FARC. As FARC raptam e matam indiscriminadamente. O exemplo mais conhecido e mediático é o de Ingrid Betancourt, candidata pelo Partido Ecologista às eleições presidenciais de 2002, sem nenhuma ligação ao governo colombiano, e raptada e mantida em cativeiro pelas FARC desde essa altura. Por isso as FARC são um movimento terrorista, tal como o é o Sendero Luminoso no Peru. Quando os actos terroristas são ilegítimos, uma resposta armada é legítima.
Queria terminar referindo que os terríveis acontecimentos de há cinco anos foram um atentado terrorista ilegítimo, e como tal, na mesma ordem de ideias do que tenho vindo a escrever (e sempre defendi), a resposta dos Estados Unidos da América foi legítima.

2006/09/10

E agora, Ferrari?


Para quem tiver dúvidas: Michael Schumacher ultrapassou e dominou com facilidade o seu sucessor, dando a entender que para o ano, se continuase a correr, seria um candidato mais forte do que ele. Filipe Massa nem vê-lo. Teve azar com o carro de Alonso à frente, mas tinha sido ultrapassado sem apelo nem agravo nas mudanças de pneus.
A Fórmula 1 para o ano vai ser muito aborrecida. Valham-nos pilotos como o Robert Kubica (pódio à terceira corrida).

Agora até sou o "Professor Chanfrado"!

Caros visitantes ocasionais:
Sei que estais aqui de passagem, motivados pelas ligações a este blogue por parte do Insurgente, de A Causa Foi Modificada e do Franco Atirador. Queria aproveitar para vos agradecer – para mim é uma enorme honra ter-vos aqui. Eu sei que o que escrevo a seguir pode parecer abuso da minha parte, e desculpai-me se eu vos parecer inconveniente. A verdade é que eu só tenho é que vos agradecer as visitas. Afinal dia após dia eu contorço-me a imaginar esquemas para vos trazer cá. Ora provoco este, ora chateio aquele, a ver se alguém me liga e me linca, para ver os contadores de visitas dispararem. Dia após dia, é essa a minha luta. É essa a razão por que eu estou na blogosfera, e diria mesmo que é só para isso que eu vivo. Preciso de vós como do ar que eu respiro. Por isso mesmo eu só tenho que vos agradecer, e é preciso ter uma grande lata para ainda vos vir pedir alguma coisa por cima. Ora lata é o que menos me falta. Por isso, já que aqui estão, eu queria pedir-vos um favor.
Existe um blóguer muito simpático, chamado Rui Castro, que escreve nos Incontinentes Verbais. O senhor dedicou-me primeiro o texto chamado "Pecados Mortais", que eu achei que não tinha comentário possível a não ser o que eu lá deixei – o autor deveria comprar uma fralda... para a boca (para os incontinentes verbais, estais a ver a chalaça?). Pois bem: o referido texto foi lamentavelmente omitido da colectânea organizada pelo André Azevedo Alves. O comentário da fralda para a boca até foi lá deixado primeiro, como a minha forma de protesto por esta omissão tão pouco católica. Afinal, o Rui dispara que se farta, e em todas as direcções. Bem: mais até naquelas em que o André Azevedo Alves costuma disparar, o que torna a sua omissão ainda mais injusta.
Até que, nisto... o Rui Castro dedicou-me outro texto! Intitulado, notai bem, “Filipe Moura, o professor chanfrado!” Cheio de considerações que eu também me abstenho de comentar, mas que me fazem verificar, como um bom cientista, que o Rui ainda não comprou a fralda. Mas o título e, sobretudo, aquela fotografia... Sim, porque o Rui não fez a coisa por menos: ilustrou o texto – reparai – com a célebre fotografia do Einstein com a língua de fora! Tanta simpatia e tanta originalidade deixaram-me verdadeiramente comovido.
Por este motivo, eu queria aproveitar a vossa presença aqui, agora nestes dias que faltam antes de regressar a um número de visitantes semelhante ao do Rui Castro, para vos endereçar o seguinte pedido, e corrigir a omissão do André Azevedo Alves: já que aqui estais, não deixeis de visitar igualmente os Incontinentes Verbais, o blogue do Rui Castro. Muito agradecido. Deus vos pague.

2006/09/09

Universo Particular

Marisa Monte conquistou o Coliseu com músicas antigas, dos Tribalistas e dos dois álbuns mais recentes, num espectáculo cuidado e profissional.


Ninguém como Marisa combina a música moderna com a música tradicional.


Perfeito o concerto de ontem à noite da maior cantora brasileira da actualidade.

2006/09/08

A Festa do Avante! anda muito mal frequentada



Camaradas, acho que vou lançar uma petição blogosférica. Quiçá até pedir um voto no
plenário da Assembleia da República.

2006/09/07

As mexidas na Câmara de Setúbal

Sobre o caso da Câmara de Setúbal: que fique bem claro que eu lamento profundamente a saída de Carlos de Sousa. Se o PCP está a procurar simplesmente “limpar a cara” por causa do caso das aposentações compulsivas ou não, é algo que não fica claro. Agora uma coisa é certa: nas eleições autárquicas há uma hierarquia clara dos candidatos, pelo que na saída do presidente os eleitores sabem quem é o vice-presidente. Votam numa lista. Já nas legislativas não é assim, pois só conhecem o nome do candidato a Primeiro Ministro. Santana Lopes não participou sequer nas eleições legislativas de 2002, ao contrário da Presidente indigitada da Câmara de Setúbal. A substituição de Carlos de Sousa, sendo sempre lamentável (pelo autarca que é), é muito mais comparável à “rotação” de deputados anteriormente praticada pelo Bloco de Esquerda. É esta a minha resposta a esta entrada do velho Daniel Oliveira que, com o seu costumeiro moralismo, lança acusações aos outros sem antes olhar bem para a sua própria “casa”.
Também não concordo com João Pedro Henriques quando, ao comparar este caso com o de Fátima Felgueiras, fala em "dois pesos e duas medidas". Primeiro, não creio que este caso seja comparável ao de Fátima Felgueiras (ou os de Gondomar, Oeiras ou Marco de Canavezes), onde as acusações de corrupção aos autarcas visam crimes de peculato e um enriquecimento ilícito pessoal. Já em Setúbal, se houve alguma ilegalidade (ninguém confirmou ainda), foi em proveito... da autarquia (que está na bancarrota, já desde a anterior gestão) e de alguns trabalhadores (e à custa do Estado). Finalmente, não me parece que as atitudes dos partidos (o PS, ao preservar Fátima Felgueiras para ganhar eleições; o PCP, ao substituir Carlos Sousa para evitar a dissolução da Câmara e eleições antecipadas) sejam assim tão diferentes: ambas visam simplesmente a preservação do poder.
O assunto não é simples e nem permite uma interpretação única, mas do que foi dito concordo plenamente com Vital Moreira.

2006/09/06

Agora explico eu

Não há dúvida de que o Miguel Esteves Cardoso é um assunto tabu, e quem ousar meter-se com ele tem de levar com os seus amiguinhos, de direita ou supostamente de esquerda. Quem se meter com os amiguinhos dele também, que eles funcionam todos em bloco (salvo seja). Todos eles consideram-se muito especiais por pertencerem ao grupinho, influência provável do líder intelectual. Esta gente julga-se eleita, e não me refiro ao “povo eleito” no sentido judaico, apesar de uma regra essencial para pertencer ao grupo ser apoiar-se incondicionalmente as políticas do estado de Israel, mesmo as mais criminosas.
A melhor demonstração do tipo de pessoas que é esta gente (os amiguinhos do Miguel Esteves Cardoso) ocorreu há mais de três anos, no episódio que originou o fim da Coluna Infame. Está certo que a provocação do Daniel Oliveira ao chamar de “extrema direita” ao João Pereira Coutinho surge do nada, é completamente infundada e desnecessária. Mas e a reacção do João Pereira Coutinho? Não se deve à “extrema direita” propriamente dita – deve-se a um membro da “ralé” ter-se atrevido (é mesmo a palavra) a insultar o “Pereira Coutinho”. Provavelmente João Pereira Coutinho gostaria de ter resolvido a questão com um duelo! João Pereira Coutinho tem uma formação oxfordiana, e para ele ter sido abordado assim por um qualquer Oliveira é como se um estudante se atrevesse a frequentar as áreas reservadas a professores. O cavalheirismo é importante, mas mais importante é o “respeitinho”. Toda a sua reacção é de quem foi mimado a vida toda.
Daí que não espante que se diga que o cavalheiro é talentosíssimo, genial e escreve muito bem, mas ninguém do referido grupo se tenha sequer dignado a criticar-lhe os modos. O mesmo pode ser dito relativamente ao seu companheiro de armas, no que diz respeito a textos tão dignificantes como este. A Bomba ainda se dá ao luxo de o destacar. E o bobo da corte, mais preocupado com o Hamlet e o Rei Lear, ainda faz reparos ao penteado de Vital Moreira. Qual é a reacção dos amiguinhos do MEC e das pessoas “cool-tas”? «Ah, o maradona (com minúscula!) é tão engraçado! Ah, o maradona (com minúscula!) escreve tão bem, ele e a Charlotte! E o João e o Alberto! São tão talentosos! São mesmo uns geniozinhos, uns queridíssimos!» Para o que esta gente escreve ou diz, a impunidade é total. Nesse aspecto estão muito bem para o Estado de Israel. Não admira que apoiem as suas acções criminosas incondicionalmente.
Queria ainda fazer um esclarecimento aos muitos visitantes que apareceram aqui ontem a julgar que eu sou “professor”: eu não sou “professor”, embora gostasse de o vir a ser um dia, quem sabe. Dei aulas em Portugal e nos EUA, sempre enquanto estudava. A última vez que dei aulas em Portugal foi há nove anos, quando ainda ninguém sabia o que era um blogue. Os visitantes que aqui vêm não são meus “alunos”. São pessoas livres e que pensam pela sua cabeça – se aqui vêm é porque tomam essa decisão livremente. Não pertencem a nenhuma “seita”, como a dos amigos do MEC e da Bomba, que se lincam mutuamente e são todos lincados pela Bomba, e tratados por “queridíssimos”. Basta entrar no referido Bomba Inteligente para verificar – todos os dias há entradas que são respostas directas e descontextualizadas aos amigos da Bomba (e do MEC), de forma a que quem não pertença ao “grupo” não saiba do que se está a falar, e tenha de ir visitar os outros amiguinhos (que assim partilham os visitantes dos seus blogues). Isto se (há gente para tudo…) alguém estiver interessado no que a Bomba quer dizer. Aquilo é um verdadeiro “chá das tias”. Não me incomoda o sucesso do blogue em si, tal como nunca me incomodou o sucesso da revista Caras; há leitores para tudo. Eu não pactuo é com falta de vergonha na cara, e isso aquela gente não sabe o que é. Em particular, não me incomoda nada ter uma média de cento e poucas visitas por dia, enquanto a Charlotte tem 863 (incluindo os que só lá vão via Google Image Search à procura das muitas imagens que o blogue tem), como o maradona faz questão de recordar. Os meus visitantes, por poucos que sejam, são cidadãos livres que escolhem aqui vir; não são membros de nenhum clube privado nem seguidores de nenhum guru.
Dito isto, eu não quero ter mais nada a ver com esta elite muito orgulhosa de si mesma, apesar de não fazer nada de palpável, mas que supostamente é muito “talentosa”, embora os seus talentos até hoje só tenham sido aferidos em comparação uns com os dos outros. Não quero perder mais tempo com gente (de esquerda e de direita) cujos valores são completamente diferentes dos meus – e aqui é mesmo uma questão de valores de que se trata -, a verdadeira negação da “ética protestante”. Gente que não quer que o país passe da cepa torta. A atenção e o poder mediático que esta gente tem explicam e muito o nosso atraso – só em Portugal estes indivíduos alcançariam o destaque que têm.

No chá sem a Bomba

Ironicamente (tendo em conta o assunto que se segue e o título do texto que lhe deu motivo) passei o dia de ontem a beber chá e a comer torradas. Motivo: indisposição e sérios transtornos gástricos. Nada a ver com a blogosfera.

2006/09/04

Apenas um homem vulgar


Pela primeira vez na vida entrei no Casino Estoril, na passada quinta feira. Para o concerto do Jorge Palma. Para o concerto de um cantor que já começou algo “tocado” – notava-se na forma como esbarrava no microfone, que lhe fugia enquanto cantava (por vezes nem dava para o ouvir bem), e quando tropeçou -, mas que nem por isso, no meio de um calor infernal de uma sala sem grandes condições, deixou de ir bebendo cerveja ao longo da noite. Que não teve problemas em acender um cigarro e ir fumando enquanto tocava piano.
O Jorge Palma é um grande compositor e eu gosto muito de o ouvir. Por um lado eu gosto de ver um homem livre que não cede aos ditames do politicamente correcto. Por outro lado, pelo menos enquanto actuava ao vivo, o Jorge Palma não demonstrou ser muito profissional. Não tem autocontrolo. Exagerou. Gostei de ter ido ao concerto, mas porque era à borla. Conforme eu já desconfiava, não gostaria de ter pago um bilhete para o ver actuar como na passada quinta.

2006/09/03

Força camarada!



Fidel Castro (ou era o Che Guevara?) plantou canas de açúcar (ou era milho?) no meio dos agricultores cubanos. Nesta semana, Jerónimo de Sousa ajudou a montar a Festa do Avante!, dando uma mãozinha aos militantes de base anónimos. "Isto descontrai", disse ele. Assim se constroem os mitos.

2006/09/02

O mundo de Bush

Subscrevo na íntegra este editorial de João Morgado Fernandes:

A seguir ao 11 de Setembro, a América reagiu da melhor maneira. A invasão do ninho de terroristas do Afeganistão e o reforço das medidas de segurança interna, mesmo com sacrifícios das liberdades, mereceram aplauso geral e, passados cinco anos, o balanço é francamente positivo.

A aventura do Iraque, pela desmesura de meios despendidos tendo em conta os resultados, as fundas divisões que criou na comunidade internacional e a descredibilização da própria América, fragilizou irremediavelmente o lado "dos bons".

Agora que o mundo está, de facto, perante a ameaça real de um Irão radical, apoiante de terroristas, a trabalhar para a bomba atómica, pouco mais podemos fazer que aguardar estupefactos por um improvável assomo de bom senso. Porque, seja o que for que a América ou "nós" fizermos para conter os fanáticos de Teerão, teremos sempre de contar com a resposta do vespeiro de terroristas que Bush criou ali ao lado, no Iraque.

2006/09/01

O fim de "O Independente" e a velha direita

Contam-se pelos dedos de um pé as vezes que li "O Independente", sempre na fase considerada “áurea”, de Paulo Portas & Miguel Esteves Cardoso. Não vou mentir – não gostava, e o meu balanço do jornal está longe de ser tão favorável como se lê genericamente pela blogosfera fora. E a razão é uma – e nisso estou de acordo com os leitores de "O Independente" – a marca de Miguel Esteves Cardoso no jornal. Só que ao contrário da maioria das pessoas “cool-tas” da minha geração, eu abomino o Miguel Esteves Cardoso e mais o seu insuportável elitismo sem ter onde cair morto. Já o afirmei aqui, onde afirmava não compreender o fascínio de uma esquerda por este autor. Mas, embora não diga respeito às minhas ideias políticas, igualmente não compreendo o mesmo fascínio por parte de quem deveria ser uma “nova direita”, como é o caso do André Abrantes Amaral, um meu amigo que eu não conheço. O André foi o colaborador de O Insurgente a quem coube a tarefa de escrever esta semana na opinião da Dia D – um texto muito interessante, e que embora seja aparentemente dirigido à direita poderia ser dirigido ao país todo. No fundo o que o André advoga é um pouco mais daquilo que se chama “ética protestante”, algo que está indesmentivelmente presente nos países mais desenvolvidos e de que a mentalidade das elites portuguesas – de esquerda e de direita – foge como o diabo da cruz. Em grande medida aquilo que o André defende passa por aí. Como pode o André então defender o Miguel Esteves Cardoso, defensor dos privilégios e tradições e a maior negação da “ética protestante”, e ao mesmo tempo pedir uma “nova direita”? E genericamente como se pode falar de "O Independente" como “nova direita”? Para mim “O Independente” representava uma direita portuguesa bem velha. Tenho cá para mim que uma “nova direita” deve muito mais a certos autores do Blasfémias – onde nunca vi ninguém elogiar o Miguel Esteves Cardoso - do que a “O Independente”.

Relativamente a "O Independente", de que tenho pena? Como em todos os projectos, há profissionais sérios que ficam sem trabalho, e é isso que eu mais lamento. Particularmente quando um deles é outro amigo que eu não conheço, o Leonardo Ralha, um tipo que pensa muito pela sua cabeça e a quem desejo que esta situação passe depressa. Sou jornalista até ao fim deste mês – quem sabe ainda o encontro aqui pela Rua Viriato?

2006/08/31

A alcoolemia e a falta de preparação científica

Não posso deixar de assinalar que todo o regabofe à volta das multas para a taxa de alcoolemia “a 0,57 g/l” só revela falta de preparação científica básica (para além do jornalismo que só procura “criar casos”). Com efeito, dadas as condicionantes dos aparelhos usados, só assim se pode garantir que não se está a multar pessoas com uma taxa de alcoolemia de 0,43 g/l. É um princípio básico do direito – só punir quando se tem a certeza da culpabilidade. Mesmo que isso implique não punir alguns prevaricadores com sorte.

Para ler mais: o infalível João Miranda e o Nélson, que diz tudo.

2006/08/30

No chá com a Bomba

Já nada me espanta ou admira na Bomba Inteligente. É um blogue muito lido e muito referido e merece sê-lo, de facto: só na blogosfera é que se vê direita tão desavergonhada, e disso a Charlotte é mesmo um dos melhores exemplos. Eu não leio o referido blogue – o que conheço é de comentários e referências de outros blogues – a Charlotte é sobejamente conhecida por não aceitar comentários no seu blogue, mas ser presença frequente nas caixas de comentários de outros blogues, geralmente para deixar comentários de um nível não muito alto… O que eu não percebo é: se o blogue é tão fraco de ideias como dizem que é, por que razão há tanta gente a perder tempo com o que a senhora escreve? Principalmente malta de esquerda? Por que lhe dão tanta importância? Por que a lincam? Por que não fazem como Vital Moreira, vítima dos ataques mais baixos – não passa cartão, e também não linca? Haverá assim tanta gente interessada em ter os textos do seu blogue publicados pela Oficina do Livro? Este poderá ser o motivo por que tanta gente linca a senhora que, como alguém lhe chamou, é sobretudo uma “relações públicas” da blogosfera (eu diria antes da direita blogosférica). Mas… e estes cavalheiros? Que são amigos de um dos sócios de uma editora chamada “Má Criação” (pessoalmente julgo que um nome mais adequado seria “Mau Feitio”)? Não creio que tenham tantas dificuldades para publicarem, se acaso o entenderem – já têm acesso a uma editora. Mas então por que fará a Bomba Inteligente parte de uma lista tão selecta de blogues lincados? Garanto que não percebo como se fala assim de um blogue que se tem na lista de ligações permanentes. Ó cavalheiros: que falta de chá. Depois admiram-se de a Charlotte não vos convidar para o bridge!

2006/08/29

Uma raridade – uma foto de Grisha Perelman!

É provavelmente a única foto disponível do misantropo matemático russo sem se pagar direitos de autor. Foi tirada na State University of New York, em Stony Brook, durante uma série de conferências sobre o seu trabalho que Perelman deu na Primavera de 2003.
Na altura estudava na mesma universidade e assisti à primeira dessa série de aulas, e a uma aula preliminar que o meu orientador deu sobre as relações entre o trabalho de Perelman e a teoria de supercordas.
Ou seja: estive em frente ao Perelman. Eu e mais umas poucas dezenas de tansos. Ninguém lhe tirou uma fotografia. Perguntei ao meu orientador (que tira fotografias a tudo) se ele não teria uma. Não tinha – “he does not like cameras”. Se soubesse então a dificuldade que seria, anos mais tarde, obter uma foto do senhor, talvez tivesse à socapa tirado eu uma, mesmo sendo com a minha pobre máquina digital pioneira de menos de um milhão de pixeis.

Grisha Perelman, o matemático antivedeta

Adaptação de um artigo do Público de 20 de Agosto de 2006

Ainda não é oficial e nem está confirmado, mas o mais esperado por todos os matemáticos é que na próxima terça-feira seja anunciado o nome de Grigory Perelman como um dos vencedores da Medalha Fields. A atribuição do prémio decorrerá na cerimónia de abertura do Congresso Internacional de Matemática, no Palácio Municipal de Congressos de Madrid, na próxima terça-feira, e será presidida pelo rei Juan Carlos. Só não se sabe se o favorito à vitória estará sequer presente.
Nascido em São Petersburgo em 1966, Perelman começa cedo a revelar um talento excepcional para a Matemática, tendo ganho, ainda na escola secundária, uma medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática de 1982. Depois de se doutorar, na Universidade Estatal de São Petersburgo, Perelman mudou-se para os Estados Unidos da América, tendo sido investigador de pós-doutoramento no Instituto Courant e nas Universidades do Estado de Nova Iorque (Stony Brook) e da Califórnia (Berkeley). Já na altura o seu trabalho era considerado de alto nível. Em 1995 tinha convites de outras universidades americanas como Princeton e Stanford, mas decidiu regressar à sua São Petersburgo e tornar-se membro do Instituto de Matemática Steklov, posição que mantém até hoje.
A sua reputação de cientista isolado começou em 1996, quando recusou um prémio da Sociedade Europeia de Matemática para jovens talentos. Nos anos que se seguiram manteve-se isolado em São Petersburgo, sem publicar nenhum artigo nem contactar com nenhum colega de outra universidade. Muita gente pensou então que Perelman simplesmente abandonara a investigação em Matemática. “Ninguém sabia que ele estava a trabalhar na conjectura de Poincaré”, garante Michael Anderson da Universidade de Stony Brook. Mas em Novembro de 2002 Perelman revelou finalmente aquilo em que andara a trabalhar nos últimos oito anos, quando publicou em www.arxiv.org um “esboço” de uma prova completa. Imediatamente o artigo chamou a atenção nos EUA, tendo o autor sido convidado para dar minicursos em Stony Brook e no Instituto de Tecnologia do Massachussets (MIT) na Primavera de 2003. Nessa altura Perelman publicou mais dois artigos na internet com os pormenores da demonstração. Ainda hoje Perelman não os enviou para publicação em nenhum jornal, e não consta que pretenda fazê-lo.
Em 2000 o Instituto Clay, uma instituição privada de investigação em Matemática, estabeleceu os sete “problemas do milénio”, oferendo pela resolução de cada um deles um prémio de 1 milhão de dólares. A conjectura de Poincaré é um desses problemas. O prémio ainda não lhe foi atribuído; antes, um júri tem de considerar a sua prova oficialmente válida, algo que poderá estar eminente. Mas Perelman já anunciou não estar interessado no dinheiro.
Desde que regressou a São Petersburgo, Peterman não voltou a dar sinal de vida. Nenhum dos e-mails enviados quer a ele quer ao Instituto Steklov teve resposta. Nem mesmo os mais recentes, da organização do Congresso Internacional de Matemática, a convidá-lo para dar uma palestra principal (o que pode ser um sinal de que lhe pretendem mesmo atribuir a Medalha Fields). Na terça-feira acaba-se a expectativa.

(Nota: Como eu aqui anunciei no dia, Perelman faltou à cerimónia e recusou a medalha.)

2006/08/28

Conjectura de Poincaré

Extracto de um artigo do Público de 20 de Agosto de 2006

A conjectura de Poincaré é fundamental na topologia, também chamada “geometria sem pormenores”, o ramo da Matemática que lida com as formas. Assim, em topologia dois objectos são considerados idênticos se puderem ser transformados um no outro sem dobrar ou rasgar, como se fossem feitos com uma massa elástica. Desta forma uma superfície esférica é, para um topólogo, equivalente à superfície de um copo, mas diferente de uma chávena com uma pega. Da mesma forma um toro (“donut”) é equivalente a uma chávena com uma pega, mas diferente de uma chávena com duas pegas. E assim sucessivamente, de forma que qualquer superfície finita com duas dimensões é equivalente a uma superfície esférica com um número finito (que pode ser zero, um, dois…) de pegas (ou “buracos”). Este resultado já era conhecido desde o século XIX.
A classificação de superfícies de dimensão superior (que não podem ser visualizadas em três dimensões) revelou-se bastante mais complicada. Poincaré conjecturou que todas as superfícies finitas de dimensão maior que dois sem nenhum tipo de “buracos” são topologicamente equivalentes a esferas da mesma dimensão, mas não foi capaz de provar. A conjectura de Poincaré já tinha sido provada para esferas de dimensões superiores a 4 por Stephen Smale (Medalha Fields em 1966) e para quatro dimensões por Michael Freedman (Medalha Fields em 1986). Restava somente o caso tridimensional, para o qual o matemático William Thurston, no final dos anos 70, propôs uma generalização. Tal como todas as superfícies fechadas bidimensionais podem ser construídas combinando somente duas formas, a esfera e o toro (a “pega”), também algo semelhante se passaria com as superfícies tridimensionais, que poderiam ser todas construídas a partir não de duas, mas de oito formas fundamentais. Só por ter proposto esta conjectura de geometrização, que automaticamente inclui a conjectura de Poincaré em três dimensões, Thurston, neste momento na Universidade de Cornell, foi igualmente agraciado com a Medalha Fields em 1986.
Richard Hamilton, da Universidade de Columbia, propôs no início dos anos 80 a aplicação ao estudo das formas de superfícies de uma técnica, chamada fluxo de Ricci, baseada nas equações de geometria diferencial como as que se utilizam na Teoria da Relatividade Geral. Este processo transforma uma superfície numa forma mais homogénea, redistribuindo a sua curvatura. Hamilton teve sucesso a aplicar este processo a objectos simples, mas os problemas surgiriam em objectos mais complicados que incluíssem pontos, chamados singularidades, cuja curvatura fosse infinita. Os topólogos poderiam removê-las, mas não havia garantias de que com este processo não se formassem singularidades novas. Seria Perelman a resolver este problema em 2002, ao demonstrar uma série de desigualdades que evidenciam que as singularidades acabam por se transformar todas em esferas ou tubos, num tempo finito após o fluxo de Ricci ter começado. Os topólogos poderiam assim removê-las e levar o fluxo de Ricci até ao fim, revelando a essência topológica dos espaços em questão e demonstrando as conjecturas de Poincaré e Thurston.
O grande entusiasmo causado pela prova de Perelman deve-se nem tanto ao resultado em si, que pelo menos no caso da conjectura de Poincaré era bastante intuitivo e que toda a gente dava como verdadeiro, mas mais ao método usado, tendo-se revelado ligações profundas até então desconhecidas entre diferentes ramos da Matemática.

De regresso

Consulta-se o arxiv, algo negligenciado nos últimos dias, e verifica-se que a Física ainda não acabou.
Entretanto, como é costume, após uma ausência "cai-nos tudo em cima". Por agora deixo-vos com dois textos com uma semana.

2006/08/22

A matéria escura existe!

O Grisha Perelman recusou a Medalha Fields, como era esperado (nem sequer lá apareceu) e entretanto foi descoberta a matéria escura (a melhor explicação que eu li sobre o assunto, e que me foi bastante útil, encontra-se aqui). Como eu disse para colegas da secção política: isto é como se tivesse havido um golpe de estado. Consegui acabar estas matérias (sem falar nas polémicas com a definição de planeta). Não fiz mais nada hoje. E agora vou para férias até domingo. Só então devo voltar a aparecer por aqui. Considerando o ritmo dos últimos dias, espero que nessa altura ainda restem alguma matemática e alguma física para eu falar!

Medalha Fields: conjectura de Poincaré

É hoje atribuída a Medalha Fields, e toda a gente espera que seja à prova da conjectura de Poincaré. No Público de domingo tentei explicar o assunto aos leitores, dentro das possibilidades minhas e do jornal. Fiz o melhor que pude, e é possível que ponha aqui o texto mais tarde. Entretanto vejam por que razões o The New York Times é o melhor jornal do mundo. Apreciem e comparem com o The Guardian, que adora tratar os cientistas como tipos excêntricos e meio malucos, dando sempre a ideia de que só por isso é que vale a pena dar notícias de ciência. E comparem também com o do Le Monde, que intitula "Un génie russe face à une énigme française". A conjectura de Poincaré é "francesa". Lembram-se da história de a ciência não ter nacionalidade? Mesmo assim o Le Monde traz a notícia para a primeira página da edição de domingo. Quando veremos uma notícia destas na primeira página de um jornal em Portugal?
De qualquer maneira, destes jornais o único que explica a conjectura (agora teorema) aos leitores é o The New York Times. E, modéstia à parte, o Público, claro.

Elusive Proof, Elusive Prover: A New Mathematical Mystery
By DENNIS OVERBYE
Grisha Perelman, where are you?

Three years ago, a Russian mathematician by the name of Grigory Perelman, a k a Grisha, in St. Petersburg, announced that he had solved a famous and intractable mathematical problem, known as the Poincaré conjecture, about the nature of space.

After posting a few short papers on the Internet and making a whirlwind lecture tour of the United States, Dr. Perelman disappeared back into the Russian woods in the spring of 2003, leaving the world’s mathematicians to pick up the pieces and decide if he was right.

Now they say they have finished his work, and the evidence is circulating among scholars in the form of three book-length papers with about 1,000 pages of dense mathematics and prose between them.

As a result there is a growing feeling, a cautious optimism that they have finally achieved a landmark not just of mathematics, but of human thought.

“It’s really a great moment in mathematics,” said Bruce Kleiner of Yale, who has spent the last three years helping to explicate Dr. Perelman’s work. “It could have happened 100 years from now, or never.”

In a speech at a conference in Beijing this summer, Shing-Tung Yau of Harvard said the understanding of three-dimensional space brought about by Poincaré’s conjecture could be one of the major pillars of math in the 21st century.

Quoting Poincaré himself, Dr.Yau said, “Thought is only a flash in the middle of a long night, but the flash that means everything.”

But at the moment of his putative triumph, Dr. Perelman is nowhere in sight. He is an odds-on favorite to win a Fields Medal, math’s version of the Nobel Prize, when the International Mathematics Union convenes in Madrid next Tuesday. But there is no indication whether he will show up.

Also left hanging, for now, is $1 million offered by the Clay Mathematics Institute in Cambridge, Mass., for the first published proof of the conjecture, one of seven outstanding questions for which they offered a ransom back at the beginning of the millennium.

“It’s very unusual in math that somebody announces a result this big and leaves it hanging,” said John Morgan of Columbia, one of the scholars who has also been filling in the details of Dr. Perelman’s work.

Mathematicians have been waiting for this result for more than 100 years, ever since the French polymath Henri Poincaré posed the problem in 1904. And they acknowledge that it may be another 100 years before its full implications for math and physics are understood. For now, they say, it is just beautiful, like art or a challenging new opera.

Dr. Morgan said the excitement came not from the final proof of the conjecture, which everybody felt was true, but the method, “finding deep connections between what were unrelated fields of mathematics.”

William Thurston of Cornell, the author of a deeper conjecture that includes Poincaré’s and that is now apparently proved, said, “Math is really about the human mind, about how people can think effectively, and why curiosity is quite a good guide,” explaining that curiosity is tied in some way with intuition.

“You don’t see what you’re seeing until you see it,” Dr. Thurston said, “but when you do see it, it lets you see many other things.”

Depending on who is talking, Poincaré’s conjecture can sound either daunting or deceptively simple. It asserts that if any loop in a certain kind of three-dimensional space can be shrunk to a point without ripping or tearing either the loop or the space, the space is equivalent to a sphere.

The conjecture is fundamental to topology, the branch of math that deals with shapes, sometimes described as geometry without the details. To a topologist, a sphere, a cigar and a rabbit’s head are all the same because they can be deformed into one another. Likewise, a coffee mug and a doughnut are also the same because each has one hole, but they are not equivalent to a sphere.

In effect, what Poincaré suggested was that anything without holes has to be a sphere. The one qualification was that this “anything” had to be what mathematicians call compact, or closed, meaning that it has a finite extent: no matter how far you strike out in one direction or another, you can get only so far away before you start coming back, the way you can never get more than 12,500 miles from home on the Earth.

In the case of two dimensions, like the surface of a sphere or a doughnut, it is easy to see what Poincaré was talking about: imagine a rubber band stretched around an apple or a doughnut; on the apple, the rubber band can be shrunk without limit, but on the doughnut it is stopped by the hole.

With three dimensions, it is harder to discern the overall shape of something; we cannot see where the holes might be. “We can’t draw pictures of 3-D spaces,” Dr. Morgan said, explaining that when we envision the surface of a sphere or an apple, we are really seeing a two-dimensional object embedded in three dimensions. Indeed, astronomers are still arguing about the overall shape of the universe, wondering if its topology resembles a sphere, a bagel or something even more complicated.

Poincaré’s conjecture was subsequently generalized to any number of dimensions, but in fact the three-dimensional version has turned out to be the most difficult of all cases to prove. In 1960 Stephen Smale, now at the Toyota Technological Institute at Chicago, proved that it is true in five or more dimensions and was awarded a Fields Medal. In 1983, Michael Freedman, now at Microsoft, proved that it is true in four dimensions and also won a Fields.

“You get a Fields Medal for just getting close to this conjecture,” Dr. Morgan said.

In the late 1970’s, Dr. Thurston extended Poincaré’s conjecture, showing that it was only a special case of a more powerful and general conjecture about three-dimensional geometry, namely that any space can be decomposed into a few basic shapes.

Mathematicians had known since the time of Georg Friedrich Bernhard Riemann, in the 19th century, that in two dimensions there are only three possible shapes: flat like a sheet of paper, closed like a sphere, or curved uniformly in two opposite directions like a saddle or the flare of a trumpet. Dr. Thurston suggested that eight different shapes could be used to make up any three-dimensional space.

“Thurston’s conjecture almost leads to a list,” Dr. Morgan said. “If it is true,” he added, “Poincaré’s conjecture falls out immediately.” Dr. Thurston won a Fields in 1986.

Topologists have developed an elaborate set of tools to study and dissect shapes, including imaginary cutting and pasting, which they refer to as “surgery,” but they were not getting anywhere for a long time.

In the early 1980’s Richard Hamilton of Columbia suggested a new technique, called the Ricci flow, borrowed from the kind of mathematics that underlies Einstein’s general theory of relativity and string theory, to investigate the shapes of spaces.

Dr. Hamilton’s technique makes use of the fact that for any kind of geometric space there is a formula called the metric, which determines the distance between any pair of nearby points. Applied mathematically to this metric, the Ricci flow acts like heat, flowing through the space in question, smoothing and straightening all its bumps and curves to reveal its essential shape, the way a hair dryer shrink-wraps plastic.

Dr. Hamilton succeeded in showing that certain generally round objects, like a head, would evolve into spheres under this process, but the fates of more complicated objects were problematic. As the Ricci flow progressed, kinks and neck pinches, places of infinite density known as singularities, could appear, pinch off and even shrink away. Topologists could cut them away, but there was no guarantee that new ones would not keep popping up forever.

“All sorts of things can potentially happen in the Ricci flow,” said Robert Greene, a mathematician at the University of California, Los Angeles. Nobody knew what to do with these things, so the result was a logjam.

It was Dr. Perelman who broke the logjam. He was able to show that the singularities were all friendly. They turned into spheres or tubes. Moreover, they did it in a finite time once the Ricci flow started. That meant topologists could, in their fashion, cut them off, and allow the Ricci process to continue to its end, revealing the topologically spherical essence of the space in question, and thus proving the conjectures of both Poincaré and Thurston.

Dr. Perelman’s first paper, promising “a sketch of an eclectic proof,” came as a bolt from the blue when it was posted on the Internet in November 2002. “Nobody knew he was working on the Poincaré conjecture,” said Michael T. Anderson of the State University of New York in Stony Brook.

Dr. Perelman had already established himself as a master of differential geometry, the study of curves and surfaces, which is essential to, among other things, relativity and string theory Born in St. Petersburg in 1966, he distinguished himself as a high school student by winning a gold medal with a perfect score in the International Mathematical Olympiad in 1982. After getting a Ph.D. from St. Petersburg State, he joined the Steklov Institute of Mathematics at St. Petersburg.

In a series of postdoctoral fellowships in the United States in the early 1990’s, Dr. Perelman impressed his colleagues as “a kind of unworldly person,” in the words of Dr. Greene of U.C.L.A. — friendly, but shy and not interested in material wealth.

“He looked like Rasputin, with long hair and fingernails,” Dr. Greene said.

Asked about Dr. Perelman’s pleasures, Dr. Anderson said that he talked a lot about hiking in the woods near St. Petersburg looking for mushrooms.

Dr. Perelman returned to those woods, and the Steklov Institute, in 1995, spurning offers from Stanford and Princeton, among others. In 1996 he added to his legend by turning down a prize for young mathematicians from the European Mathematics Society.

Until his papers on Poincaré started appearing, some friends thought Dr. Perelman had left mathematics. Although they were so technical and abbreviated that few mathematicians could read them, they quickly attracted interest among experts. In the spring of 2003, Dr. Perelman came back to the United States to give a series of lectures at Stony Brook and the Massachusetts Institute of Technology, and also spoke at Columbia, New York University and Princeton.

But once he was back in St. Petersburg, he did not respond to further invitations. The e-mail gradually ceased.

“He came once, he explained things, and that was it,” Dr. Anderson said. “Anything else was superfluous.”

Recently, Dr. Perelman is said to have resigned from Steklov. E-mail messages addressed to him and to the Steklov Institute went unanswered.

In his absence, others have taken the lead in trying to verify and disseminate his work. Dr. Kleiner of Yale and John Lott of the University of Michigan have assembled a monograph annotating and explicating Dr. Perelman’s proof of the two conjectures.

Dr. Morgan of Columbia and Gang Tian of Princeton have followed Dr. Perelman’s prescription to produce a more detailed 473-page step-by-step proof only of Poincaré’s Conjecture. “Perelman did all the work,” Dr. Morgan said. “This is just explaining it.”

Both works were supported by the Clay institute, which has posted them on its Web site, claymath.org. Meanwhile, Huai-Dong Cao of Lehigh University and Xi-Ping Zhu of Zhongshan University in Guangzhou, China, have published their own 318-page proof of both conjectures in The Asian Journal of Mathematics (www.ims.cuhk.edu.hk/).

Although these works were all hammered out in the midst of discussion and argument by experts, in workshops and lectures, they are about to receive even stricter scrutiny and perhaps crossfire. “Caution is appropriate,” said Dr. Kleiner, because the Poincaré conjecture is not just famous, but important.

James Carlson, president of the Clay Institute, said the appearance of these papers had started the clock ticking on a two-year waiting period mandated by the rules of the Clay Millennium Prize. After two years, he said, a committee will be appointed to recommend a winner or winners if it decides the proof has stood the test of time.

“There is nothing in the rules to prevent Perelman from receiving all or part of the prize,” Dr. Carlson said, saying that Dr. Perelman and Dr. Hamilton had obviously made the main contributions to the proof.

In a lecture at M.I.T. in 2003, Dr. Perelman described himself “in a way” as Dr. Hamilton’s disciple, although they had never worked together. Dr. Hamilton, who got his Ph.D. from Princeton in 1966, is too old to win the Fields medal, which is given only up to the age of 40, but he is slated to give the major address about the Poincaré conjecture in Madrid next week. He did not respond to requests for an interview.

Allowing that Dr. Perelman, should he win the Clay Prize, might refuse the honor, Dr. Carlson said the institute could decide instead to use award money to support Russian mathematicians, the Steklov Institute or even the Math Olympiad.

Dr. Anderson said that to some extent the new round of papers already represented a kind of peer review of Dr. Perelman’s work. “All these together make the case pretty clear,” he said. “The community accepts the validity of his work. It’s commendable that the community has gotten together.”

2006/08/21

Parabéns, Bill Clinton


Já este ano George W. Bush fizera 60 anos, e o impacto mediático foi incomparavelmente menor. O mundo sabe reconhecer como era muito mais seguro quando a nação mais poderosa estava sob a liderança deste rapaz pobre do Arkansas. Aquele a quem Toni Morrisson chamou "o primeiro presidente preto". O primeiro presidente pop. Embora atrasados, desejo dar ao (espero eu) futuro Secretário Geral da ONU os meus sinceros parabéns.

Marcelo Caetano

«Recebido "cortesmente" por um general à paisana, Marcelo assistiu inerme à passividade da GNR, enquanto o MFA tomava conta de Lisboa e o povo vinha espontaneamente para a rua. Chamou o ministro do Interior, César Moreira Baptista. Pediu pateticamente à Legião que combatesse. Tentou encontrar, e não encontrou, o Presidente da República. E, no fim, quando milhares de manifestantes se juntaram no Largo do Carmo concebeu mesmo o plano de os massacrar, fazendo descer uma unidade da GNR da Pedro V e subir outra do Camões para os "colher entre dois fogos". Lisboa inteira ouviu, em aberto, pela rádio os comandantes da GNR decidirem desobedecer a essa ordem criminosa. Curiosamente, Marcelo continuava no Brasil orgulhoso com a matança inútil que tentara perpetrar, muito indignado com o recuo da Guarda e sem a mais vaga consciência de que escapara por pouco à condenação e infâmia universal. (...)
O secretário de Estado da Informação, que observava no Grémio Literário a agonia do regime, pediu ao chefe de gabinete, Pedro Feytor Pinto, para persuadir Marcelo a negociar com Spínola, o putativo chefe do pronunciamento. Feytor Pinto conseguiu sem dificuldade a concordância de Marcelo. A seguir a uma complicada troca de recados, Marcelo telefonou pessoalmente a Spínola e apresentou a rendição do regime, para o poder "não cair na rua". Spínola, com a autorização do comando do Movimento, que "escutara" a conversa, partiu para o Carmo.
Entretanto, no Carmo, Salgueiro Maia parlamentava com o general comandante da GNR. Informado, Marcelo desconfiou que a GNR se preparava para o abandonar "ingloriamente" ao MFA (e ao povo), uma hipótese que o horrorizava para lá de tudo, e, como presidente do Conselho, exigiu conduzir ele próprio as conversações. Não se enganava. Salgueiro Maia apresentou um ultimato: ou ele, Marcelo, se constituía imediatamente prisioneiro do MFA ou o MFA "arrasava o quartel a tiros de canhão". Marcelo não se impressionou. Com a pose de autoridade que nunca lhe falhava, interrogou Salgueiro Maia, sem qualquer resultado, sobre a chefia do Movimento. No fim, Salgueiro Maia repetiu o ultimato: "arrasava o quartel". "Não arrasa coisa nenhuma", respondeu Marcelo. E comunicou ao capitão que pedira a Spínola para ir ao Carmo e que dentro de meia hora lhe tencionava "transmitir o poder". O capitão que fosse "acalmar" a "populaça" e que "aguardasse". Com uma "continência correcta", Salgueiro Maia obedeceu.
Logo a seguir, no meio de grande entusiasmo, Spínola entrou no quartel e encontrou o presidente do Conselho sentado num sofá, numa "atitude serena e digna". Na sala ao lado, César Moreira Baptista e Rui Patrício pareceriam "desmoralizados". Segundo Marcelo, antes mesmo de o cumprimentar, Spínola desabafou: "A que estado estes gajos [o MFA] deixaram chegar isto!" "Isto" era a multidão do Carmo e o povo na rua. Num livro de memórias (de 1978), Spínola transformou esta frase de general de cavalaria numa declaração histórica: "O estado em que Vossa Excelência me entrega o país." E acrescentou: "É tarde para Vossa Excelência reconhecer a razão que me assistia." Esta pequena diferença, acrimoniosamente discutida no futuro, escondia uma querela maior. Marcelo queria demonstrar a inconsciência de Spínola e a fraca autoridade que ele tinha sobre o MFA. Spínola queria passar a Marcelo a culpa da queda do regime e do desastre de África. De qualquer maneira, no Carmo, Marcelo cortou os devaneios de Spínola. Não era altura de "recriminações". Metido numa "viatura blindada", com Moreira Baptista e Rui Patrício, seguiu para a Pontinha sob os "vitupérios" da multidão. (...)
O próprio Marcelo, já no Brasil, agradeceu a Spínola o relativo privilégio do exílio, longe do PREC e da "festa" da esquerda. Nem Silva Cunha, nem Marcelo perceberam Spínola. Aferrolhados numa cadeia qualquer, a insignificância de Silva Cunha e Moreira Baptista não excitava ninguém em Portugal. Mas na Madeira, em Lisboa ou na Trafaria, Marcelo e Tomás seriam uma provocação constante.
Nenhuma das forças dominantes depois de Abril, e principalmente os militares, queria julgar Marcelo perante a Europa inteira. Lavar a roupa suja da guerra de África e, pior ainda, da "descolonização" que se preparava não convinha a ninguém. Toda a gente preferia não ver e não ouvir e esquecer depressa. Como preferia não falar na colaboração com o antigo regime, que ia de Spínola e do MFA a muita esquerda dura e pura. A presença de Marcelo e Tomás não permitia a grande lavagem e absolvição colectiva em que o PREC e a seguir a democracia assentaram. (...)
Convencido da sua razão e da virtude absoluta do antigo regime, Marcelo não se interessava e quase não comentava o que ia acontecendo em Portugal. Quando deixava cair a sua opinião, era em geral com um desprezo militante e um ressentimento mal escondido. O PREC ainda o "angustiou" e o levou a falar em finis patriae. Mas já não "partilhou" o "optimismo" da emigração política no Brasil com o 25 de Novembro: "Receio que a terapêutica em curso não vá por diante e que dentro de um a dois meses ocorra um novo golpe e de maior violência. Tudo resulta do equívoco que se criou na vida nacional com o 25 de Abril, na onda de falsa liberdade em que uns destroem a pátria e os outros, mesmo quando se opõem, colaboram nessa destruição."
Em Portugal nada podia correr bem, porque, se corresse, ficava em causa a presuntiva excelência da ditadura. Na véspera da primeira eleição para a Assembleia da República, Marcelo escrevia: "Pela via aritmética, clamando que são eleitos pelo voto popular, vemos alçados ao poder analfabetos, traidores e desonestos que conhecemos de longa data. Alguns nem serviam para criados de quarto e chegam a presidentes da câmara, a deputados, a governadores civis e mesmo, quando não querem, a ministros." A democracia portuguesa era necessariamente uma farsa.
E farsantes por definição as personagens que a representavam. Quando Soares foi ao Brasil, Marcelo escreveu: "O tal Soares aqui deu o espectáculo da sua mediocridade, da sua demagogia parva, e andou no meio da praticamente total abstenção dos portugueses, a fazer gestos vãos e gaffes valentes." Apareceu Eanes, numa visita oficial, e o ódio voltou: "Anda por cá agora o Generalíssimo (graduado) dessas bandas. Seco, cara de pau, com ar permanentemente zangado neste país de cordialidade e bom humor, é um desastre diplomático, mas representa bem a má consciência de um exército fujão e de regime que arruinou Portugal."
Nem a direita (da democracia, claro) lhe merecia mais benevolência. Continuava a acreditar em Diogo Freitas do Amaral, apesar do seu "complexo de esquerda", como "o único arrimo" da oposição ao PS e ao PC e achava que, se ele se entendesse com Sá Carneiro numa "frente antimarxista", "haveria talvez uma réstia de esperança". Mas tratava invariavelmente Sá Carneiro com uma certa desconfiança e desdém. Quando se fundou a Aliança Democrática (cuja "vitória" ele, de resto, desejava) mostrou logo o seu cepticismo: "O Sá Carneiro chefe de Governo? Não tem estofo, nem envergadura para isso e os seus colaboradores imediatos também pouco valem para governar o país. O Diogo tem muito mais categoria mas ainda está mais desamparado de figuras de segunda linha."
O professor de Direito e o discípulo de Salazar persistia em julgar políticos como assistentes. Na ordem, na regularidade e na obediência de Freitas reconhecia o seu mundo, em Sá Carneiro não. Mesmo depois de a AD ter ganho, continuou com "apreensões". A uma amiga, confessava: "o Francisco Sá Carneiro é certamente o menino Jesus para a Mãe, a minha amiga Francisca Lumbrales, mas é duvidoso que possa sê-lo ou parecê-lo para o país inteiro."
A opinião de Marcelo sobre Sá Carneiro, embora professoral e pouco lúcida, era temperada por um certo respeito. Com o resto da direita não se coibia. Ridicularizava a puerilidade de Francisco Balsemão, o "Francisquinho", com o seu Expresso e o seu lume no olho" e, numa altura em que o "Francisquinho" passou pelo Brasil, observou que "bem pobre" devia ser a "matéria-prima em Portugal", para "se recorrer a tão medíocre mensageiro". Jaime Nogueira Pinto não se saiu melhor: "No meu governo", explicava Marcelo, "publicava um jornalzinho subsidiado pelo SNI (com ordenado para ele)."
De qualquer maneira, com a sua fúria e o seu rancor, Marcelo Caetano percebeu do Rio o que muito boa gente não percebeu em Lisboa: a inevitabilidade da derrota de Sá Carneiro num confronto directo com Eanes. Considerava o general Soares Carneiro "excelente" e até "óptimo". A "manobra" de Sá Carneiro é que lhe parecia "mal conduzida". Marcelo suspeitava, e com razão, que Sá Carneiro ("nessas coisas mais autoritário do que o próprio Salazar") impusera a candidatura do general ao grosso da AD e que subestimava largamente a força de Eanes. Pior: Marcelo também previu, e acertou, que a recusa de Sá Carneiro e Freitas de governar com Eanes só os prejudicava a eles e acabaria por entregar Portugal a uma personagem de recurso. Aquela "aventura" era "imprudente". Infelizmente, na cabeça de Marcelo, esta clara análise política andava misturada com a ideia peregrina de que Adriano Moreira, uma bête noire, planeava aproveitar a confusão para se alçar a primeiro-ministro. E, se isso acontecesse, dizia ele a sério, preferia o socialismo. O passado nunca o largava. (...)
Começou também a ficar progressivamente sozinho. A emigração política do PREC voltou quase toda a Portugal e a que não voltou preferiu ignorar os meios do exílio. Morreram alguns fiéis e a própria família o ia ver com menos regularidade. Insistiram com ele para que viesse à Europa, ao Sul de França, ou a Paris. Recusou. Não queria que pensassem que ele passeava pela Europa, como um turista vulgar. O Brasil era o seu lugar: um lugar de martírio.»

(Vasco Pulido Valente, Marcelo Caetano - A queda e o Exílio, Público, 17 de Agosto de 2006)

2006/08/20

Quem é fixe, quem é?

Embrenhado da melhor filosofia católica (refiro-me à Universidade, faculdade de Economia) de que “não há almoços grátis” (no Brasil chama-se antes a filosofia do “portuga do botequim”), o André Azevedo Alves, em comentário, não deixou de lembrar que o meu agradecimento era “plenamente justificado”. (Entretanto o AAA vai citando a seu bel-prazer frases descontextualizadas, mas eu já nem estou para me chatear.) De facto eu sou adepto da gratidão, mas o meu objectivo quando falo de O Insurgente, blogue de que sou leitor desde o princípio, não é “fazer subir os contadores de visitas”: é antes expressar a minha opinião (e tratando-se do blogue em questão, a minha discordância). De qualquer maneira eu não deixei de agradecer, da mesma maneira que o Miguel, um gajo fixe do mesmo blogue, já havia feito antes. E só espero que ele me perdoe o “soarismo” do adjectivo. Na altura nem me passou pela cabeça notar que aquele era um “agradecimento plenamente justificado”. Lá está – modéstia à parte, eu sou mesmo um gajo fixe.

2006/08/18

Quotas de mulheres

O Presidente da República finalmente promulgou a lei que prevê quotas mínimas de mulheres nas listas dos partidos. A questão não é unânime à esquerda, tendo dado origem a uma interessante discussão no Caderno de Verão. Aqui eu não concordo com a posição do António Figueira, que em geral eu gosto tanto de ler.
A maior falácia usada contra as quotas é mesmo a questão do “mérito”, conforme já discuti aqui. Genericamente os deputados não têm mérito nenhum! É evidente que seria melhor fazer uma reforma em que os deputados passassem a ter mérito. É muito mais difícil, claro. Mas isso não invalida que não se avance com outras reformas necessárias. Muito cinicamente: o que é que a lei das quotas pode trazer de mau? Creio que haverá sempre lugar para os poucos deputados e deputadas competentes, pelo que o pior caso possível seria substituir-se uns quantos homens incompetentes por umas mulheres incompetentes. Ou seja, deixar tudo na mesma. Na mesma, não: uma das principais funções do Parlamento (mais do que juntar “os mais competentes”) é ser representativo. O Parlamento assim torna-se mais representativo, pelo que ficamos melhor com a lei das quotas. Queria ainda dizer ao António Figueira que, embora estas não sejam nenhuma panaceia, a esquerda não deve deixar cair de todo as engenharias sociais.