2006/10/02

Ainda mal saí

Ainda nem há uma hora saí da Rua Viriato pela última vez enquanto jornalista... E já estou com saudades daquela vida. Foi bom.

De volta à universidade

Pensou que eu não vinha mais, pensou?

Trilha incidental: De Volta ao Samba, de Chico Buarque.

2006/10/01

Voto no Lula

Falando no Chico Buarque, é altura para recordar uma entrevista com cinco meses. Subscrevo na íntegra o seu ponto de vista.

2006/09/30

Buarqueanos retardatários, apressem-se

Acrescentaram mais duas datas aos concertos do Chico Buarque, uma no Porto e outra em Lisboa (no dia dos meus anos). Eu já tenho bilhete (para a véspera – para passar o dia seguinte com o Chico no ouvido). As restantes datas já estão quase esgotadas e não me admiro que as novas datas esgotem num instante.

2006/09/29

Como identificar um Marujo numa redacção

(Não é este, mas se calhar também servia.)
Há três sintomas:
- na parede por trás da secretária, retratos do Papa;
- colados ao écran do computador, autocolantes da ATTAC;
- em cima da secretária, discreto mas sempre presente, um emblema do Beira Mar.

(Com um abraço ao António.)

Aforismo antes do plenário

Homens engravatados a passearem pela redacção são sinal de que se aproximam despedimentos.

2006/09/28

Ladrar é morder

Dentro dos amigos que fiz aqui no Público destaco o Renato, que se sentava na secretária ao lado da minha e com quem era um prazer conversar. O Renato começou há pouco tempo um blogue, Ladrar É Morder. Esquerda a doer.

Reflexões antes da partida

Por aqui vivo os meus últimos dias no Público. E com o ambiente que se vive aqui parece que são mesmo os últimos dias do Público como o conhecemos. Espero no entanto que a oportunidade que eu e mais três cientistas tivemos (e que para mim tem sido muitíssimo enriquecedora) se repita para o ano que vem. Aqui na redacção as pessoas olham umas para as outras à espera de uma convocatória para uma reunião com a administração. Os que já a tiveram discutem se aceitam a rescisão, se acertam a indemnização, como arranjar emprego...
Com isto, a produção e edição do jornal tem-se sentido, em particular a secção de ciência, afectada por férias de colaboradores. Da minha parte, não tendo directamente nada a ver com o assunto tenho feito o meu trabalho. Quando sair deixarei diversos artigos em agenda.
Se exceptuarmos casos de interesse mediático (ainda por cima este interesse é por vezes discutível) como o caso do “estatuto de Plutão”, o jornalismo científico não tem data de saída definida. E porquê? Porque é um tipo de jornalismo que não se esgota tão rapidamente. Não perde actualidade tão depressa como a política, a sociedade ou o desporto. Por isso mesmo – e não estou com isto a queixar-me do salário! – tem valor comercial: por não ser tão efémero.
A natureza da crise por que passam os jornais diários a nível mundial passa por aqui: desde que surgiu a internet, a informação efémera deixou de ter qualquer valor comercial. As pessoas não pagam para lerem hoje de manhã o mesmo que já leram de graça ontem à tarde na internet. O sucesso dos gratuitos deve-se a terem percebido isto muito bem. Por isso... são gratuitos, e estão aqui a demonstrar cabalmente a minha tese sobre a informação efémera.
Os jornais, para venderem, têm de conter informação que não seja só efémera: que não venha nos gratuitos. Precisamos de jornalismo que aprofunde os conteúdos; que não se limite a repetir o que vem nas agências noticiosas. Agora: será isso viável? Receio bem que não. E a culpa não é dos leitores: é mesmo da dimensão do mercado.
Em qualquer lugar do mundo um jornal de qualidade necessita de N colaboradores. Não sei quantos, mas contando com pequenas variações, pelo menos a ordem de grandeza de N deve ser bem definida e independente de especificidades locais (mercado, país, produtividade, ...). Agora, de certeza que N é muito maior do que o número de colaboradores de um jornal popular ou gratuito. O jornalismo de qualidade dá muito trabalho; o Público ou o Diário de Notícias têm de ter muito mais colaboradores que o 24 Horas ou o Correio da Manhã. É preciso perceber este ponto importante.
Para poder sustentar esse número de colaboradores, o jornal precisa vender T exemplares (supõe-se para efeitos de simplificação para T o mesmo que para N). Há mercados em que tal é viável; se o mercado (se o país...) não for grande o suficiente para esses T exemplares serem vendidos diariamente, a conclusão é que talvez um jornal diário de qualidade não seja viável.
Nos EUA o mercado é enorme, e por isso consegue-se fazer entre outros o The New York Times, o melhor e mais completo jornal do mundo e principal referência jornalística a nível mundial.
Na Grã Bretanha consegue fazer-se o The Guardian (um jornal de que eu não gosto, mas isso fica para outra ocasião); em Espanha, o El País. Em França o Libération tem problemas que, no entanto, talvez sejam específicos do jornal.
Em Portugal, se calhar, não há mercado para se ter jornais diários de qualidade. Havia, mas a internet veio roubá-lo. Presentemente se calhar não se consegue vender no mercado português T exemplares por dia e sustentar N colaboradores. Se calhar não é mesmo viável estar a tentar vender todos os dias jornalismo de referência. Haverá sempre mercado para ele, mas não todos os dias. Talvez só aos fins de semana. Por isso não prevejo grandes dificuldades aos semanários. Talvez no futuro só os diários gratuitos e os semanários sejam viáveis. Talvez por isso jornais como o Público e o DN, para sobreviverem, tenham de evoluir para um modelo misto, gratuito ou a preço simbólico durante a semana e com edições especiais pagas ao fim de semana. Não sei. Há que defender o jornalismo de qualidade, mas há que encarar as evidências.

Para ler mais: o João Pedro Henriques, de quem fui colega por uns dias antes de ele se mudar para a Av. da Liberdade, há muito escreve sobre este assunto.

2006/09/27

Fé e Ciência, Opus Dei e Insurgente

Aleluia! O Opus Dei aparentemente deixou de ser tabu e até já aparecem no Insurgente (onde mais?) ligações explícitas às páginas da organização católica. "Fé e Ciência", é o título do texto. Dedico por isso a minha entrada anterior aos doutores Guanghua Yang e André Azevedo Alves. Espero que os exemplos de Gabriel Burdett, Ellen Carlson e outros cientistas evangélicos os inspire e lhes dê forças para a sua causa: Ciência - sempre ao serviço da Fé!

E o nome da força unificadora é Jesus!

Evangelical Scientists Refute Gravity With New Intelligent Falling Theory

The Onion

Evangelical Scientists Refute Gravity With New 'Intelligent Falling' Theory

TOPEKA, KS-Evangelical physicists are now asserting that objects fall because a higher power is pushing them down.


Sugiro a leitura completa. Deixo aqui alguns destaques:

"According to the ECFR paper published simultaneously this week in the International Journal Of Science and the adolescent magazine God's Word For Teens!, there are many phenomena that cannot be explained by secular gravity alone, including such mysteries as how angels fly, how Jesus ascended into Heaven, and how Satan fell when cast out of Paradise.

The ECFR, in conjunction with the Christian Coalition and other Christian conservative action groups, is calling for public-school curriculums to give equal time to the Intelligent Falling theory. They insist they are not asking that the theory of gravity be banned from schools, but only that students be offered both sides of the issue "so they can make an informed decision."

"We just want the best possible education for Kansas' kids," Burdett said.

Proponents of Intelligent Falling assert that the different theories used by secular physicists to explain gravity are not internally consistent. Even critics of Intelligent Falling admit that Einstein's ideas about gravity are mathematically irreconcilable with quantum mechanics. This fact, Intelligent Falling proponents say, proves that gravity is a theory in crisis.

"Let's take a look at the evidence," said ECFR senior fellow Gregory Lunsden."In Matthew 15:14, Jesus says, 'And if the blind lead the blind, both shall fall into the ditch.' He says nothing about some gravity making them fall—just that they will fall. Then, in Job 5:7, we read, 'But mankind is born to trouble, as surely as sparks fly upwards.' If gravity is pulling everything down, why do the sparks fly upwards with great surety? This clearly indicates that a conscious intelligence governs all falling."

Critics of Intelligent Falling point out that gravity is a provable law based on empirical observations of natural phenomena. Evangelical physicists, however, insist that there is no conflict between Newton's mathematics and Holy Scripture.

"Closed-minded gravitists cannot find a way to make Einstein's general relativity match up with the subatomic quantum world," said Dr. Ellen Carson, a leading Intelligent Falling expert known for her work with the Kansan Youth Ministry. "They've been trying to do it for the better part of a century now, and despite all their empirical observation and carefully compiled data, they still don't know how." (...)

Anti-falling physicists have been theorizing for decades about the 'electromagnetic force,' the 'weak nuclear force,' the 'strong nuclear force,' and so-called 'force of gravity,'" Burdett said. "And they tilt their findings toward trying to unite them into one force. But readers of the Bible have already known for millennia what this one, unified force is: His name is Jesus."

(Agradeço a dica ao Agreste Avena.)

2006/09/26

Onde estava o Professor Pedro Arroja no 25 de Abril?

A resposta a esta e a muitas outras perguntas na entrevista que Pedro Arroja deu (ou terá vendido?) a Fernanda Câncio, em 1994. É o Blasfémias condensado num texto. Vale a pena ler. Obrigado ao zèd pela sugestão. Alguns destaques:
«Mas é precisamente a pensar nos pobres que eu punha a questão da transacção do voto. Se uma pessoa tem direito a um voto mas não quer usá-lo, tem de o deitar fora. Noutro sistema, poderá vendê-lo a alguém que queira votar várias vezes. Já viu quantos pobrezinhos ficavam beneficiados?»

Ou ainda:
«Por isso é que eu acho que a Constituição devia seguir o exemplo da americana, que diz o que o Estado não deve fazer, ao invés de dizer, como a nossa, o que ele deve fazer. A ideia é limitar os poderes do Estado, que é para prestar serviços gerais à população, como a defesa. Não é para andar a tratar da vida de toda a gente, a dar saúde, emprego, etc. Isso cada um trata da sua vida.»

Ou melhor (destaques meus):
«Posso-lhe dizer que não há país do mundo onde os negros vivam tão bem como na América. (...) Repare, eu acho que eles têm todo o direito à liberdade, é a terra deles. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra. (...) Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo. (...) Alguns foram levados como escravos. Mas ainda hoje há gente a emigrar para lá, negros. E deixe-me dizer-lhe uma coisa. O homem que ganhou o prémio Nobel, este ano, Robert Fogel, provou que se o sistema da escravatura era politicamente inaceitável, em termos económicos, para os negros, era um sistema muito eficaz. Mais: que o trabalhador negro da época, escravo, vivia melhor que o trabalhador médio branco. Certamente que a conclusão é surpreendente, é por isso que ganhou um prémio nobel. Mas documentou extraordinariamente bem (...) Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico. (...) Sabe, não há nenhum prémio Nobel da economia a sair dos países católicos do sul da Europa, e é porque a pretensão é chocante. Estou aqui a falar de estudos documentados, prémios Nobel, e as pessoas riem-se, porque não é aceitável. Eu acho admirável a capacidade de levar a razão humana a este ponto.»

É de morrer a rir. E isto é só uma pequena amostra. Passem por e leiam tudo. A vantagem de se viver na Europa é esta: na Europa lemos uma entrevista destas e rimo-nos.

2006/09/25

Para os portugueses com mais de 55 anos, um verdadeiro combatente pela liberdade é necessariamente um antifascista

É claro que “combatente pela liberdade” e “antifascista” não são em geral sinónimos. E é igualmente claro que nas últimas três décadas não houve (felizmente) necessidade de combater o fascismo em Portugal. Uma vez vencida a ditadura, e só então, puderam surgir livremente os tais “combatentes” da “liberdade” de que fala o Blasfémias, e onde se inclui o Professor Pedro Arroja. Quem defende essa “liberdade” tem de facto um combate a travar (pelo menos cultural), pois não é esse o meu conceito de liberdade e nem o do comum cidadão. Mas sobre a diferença entre os conceitos de liberdade de liberais como os membros do Blasfémias e o comum cidadão escreverei noutra altura. O que parece indiscutível é que, para os portugueses da geração do Professor Pedro Arroja, não havia liberdade. Pedro Arroja não será da geração de Badaró ou Raul Solnado, mas tem idade para ter sentido a falta de liberdade do salazarismo. Para merecer a classificação de “um dos grandes combatentes pela liberdade das últimas décadas”, e no caso de ter vivido o fascismo como jovem adulto, tem de ter algum passado antifascista. Confesso que não sei – desconheço a sua idade e a sua biografia: esteve o Professor Pedro Arroja na Universidade em Portugal antes de 1974? Se esteve, o que fez para merecer ser caracterizado como um grande “combatente pela liberdade”? Agradeço que me esclareçam. Cabe então perguntar: onde estava o Professor Pedro Arroja no 25 de Abril?

2006/09/22

Força Ronny!


Não partilho de todo a posição do presidente do Sporting de defender um novo jogo Sporting-Paços de Ferreira. Só a defenderia se esse passasse a ser um procedimento comum para cada jogo em que o árbitro influenciasse o resultado com erros escandalosos em prejuízo de uma das equipas, o que de facto aconteceu em Alvalade no fim de semana passado. Só que a sugestão de Soares Franco seria somente a de um acto isolado. Poderia corrigir a injustiça do jogo do Sporting, mas há que corrigir as injustiças todas. Ainda na semana anterior o Beira Mar foi roubado em Leiria (tendo perdido dois pontos, enquanto o Sporting, à custa do árbitro, só perdeu um). Não vi Soares Franco ou ninguém a pedir a repetição desse jogo. Os erros (voluntários ou não) acontecem a todos. Mais contra o Sporting do que contra os seus adversários directos, é verdade. Mas aguentar este facto faz parte da condição de sportinguista. Para mantermos a nossa superioridade moral, para pedirmos o fim dos erros temos de pedir o fim dos erros todos.
Acresce a isto que quer José Mota, o técnico do Paços de Ferreira, quer o jogador infractor (Ronny) foram de uma grande humildade (ao contrário de outros que no passado ganharam ao Sporting com a ajuda do árbitro). O Ronny reconheceu mesmo que marcar o golo com a mão tinha sido “instintivo”, não inventando desculpas ou procurando negar o inegável. A um jogador assim eu só posso desejar as maiores felicidades pessoais. E que continue a marcar muitos golos, com o pé ou com a mão. De preferência já no próximo jogo, hoje à noite.

2006/09/21

Eça, as letras e os jornalistas

O Diário de Notícias oferece agora uma colecção de medalhas de portugueses famosos. Na edição impressa (mas não na edição electrónica), é incluída uma pequena nota biográfica sobre o homenageado. Na semana passada (creio que na sexta feira), calhou ser Eça de Queirós. O grande mestre da prosa novecentista era descrito como uma das figuras de proa do romantismo, o que já de si é um erro crasso, como qualquer aluno do 9º ano reconhecerá. Românticos eram Almeida Garrett ou Camilo Castelo Branco; Eça era um realista, como Balzac, Zola, Flaubert e outros.
Mas nem era este o único erro num texto de menos de dois mil caracteres. Numa passagem elogiavam a “riqueza” do vocabulário do Eça de Queirós. Ora se há crítica que é feita ao Eça de Queirós pelos seus detractores é a de ter um vocabulário algo limitado, recorrendo frequentemente aos galicismos (“chaminé” em vez de “lareira” e assim por diante). Mesmo admitindo que isso possa ser verdade, este facto realça no entanto a qualidade de Eça de Queirós que eu mais admiro: como consegue ser tão extraordinariamente sugestivo com uma tamanha economia de recursos. O uso por parte de Eça dos adjectivos e advérbios é o mais bonito que eu já vi. Mais do que nenhum outro romancista que eu conheça, a prosa queirosiana é uma obra de arte. E tudo isto com o referido vocabulário “limitado” e económico, características que eu aprecio num escritor. A escrita de Eça vale por si mesma, não necessita de adornos vocabulares pedantes e dispensa a consulta do dicionário. Eu nunca gostei de ir ao dicionário.
Assim encontramos, num texto simples de um jornal, dois erros de palmatória. Escritos provavelmente por um jornalista que teve muitas cadeiras de literatura (mais do que eu, que só tive o português do ensino secundário). No entanto, um bom aluno do 11º ano notará estes erros. Mas nem todos os alunos notarão. Esta biografia também será lida por estudantes da obra de Eça, que encontram assim no jornal de todos os dias uma contradição com aquilo que devem aprender na escola.
O editor de sociedade do Diário de Notícias, um rapaz que, calhando, até sabe calcular uns integrais e, se se esforçar, ainda inverte uma matriz, escreveu há tempos um artigo onde refere a falta que fazem melhores jornais. Tem razão, mas às vezes eu acho que também fazem falta melhores jornalistas.

2006/09/20

A definição de planeta e os “limites da ciência”

Pedro Correia é um jornalista e blóguer que costumo gostar muito de ler. Escreveu no mês passado no seu blogue um texto (que poderia ser subscrito por muitas outras pessoas) sobre a pífia questão do estatuto de Plutão. Já andava para o comentar há algum tempo, mas só agora pude.
O que é curioso no caso do Pedro Correia é que alguns dos comentários no seu texto revelam que ele ironicamente em certos aspectos está mais próximo das teses do Prof. Boaventura de Sousa Santos do que à partida poderia julgar.
Convém prestar um esclarecimento: a “definição” de planeta não passa disso: uma definição. Uma convenção. Nada mais que isso. Saber se Plutão é ou não um “planeta” é completamente irrelevante para entender a estrutura do Universo. Para entender isto melhor, nada como mais um dos deliciosos textos “para educar o povo” do João Miranda. É pura e simplesmente uma questão de semântica. Nem sequer é ciência.
Em que é que a nova definição de planeta é “uma clara demonstração dos limites da ciência contemporânea na interpretação e catalogação da realidade - incluindo a própria realidade "física", que muitos pensavam ser facilmente traduzível por fórmulas, equações e etiquetas”? Eu tenho a certeza de que Plutão era um planeta de acordo com a definição antiga, e não o é com a nova... E daí? Em que é que isso altera a nossa visão do Universo? Pode quanto muito ter de levar à alteração de muitos manuais escolares. O que é uma questão importante. Mas não é uma questão científica.
Muito mais importantes são acontecimentos como a descoberta da matéria escura, de que falei atrás. Só tenho a lamentar que esse facto (ele, sim, importante para a compreensão do Universo) tenha sido praticamente omitido das páginas da maioria dos jornais portugueses, em detrimento de mais não sei quantas críticas literárias, musicais ou cinematográficas ou da pífia questão do estatuto de Plutão.
(Esta é uma opinião pessoal e que não vincula o jornal onde escrevo até ao fim deste mês.)

Para ler mais: The Cash Value of Astronomical Ideas, no Cosmic Variance.

2006/09/19

As FARC, as petições e os blogues

Como referi anteriormente, o Tiago Barbosa Ribeiro tem o direito de organizar as petições que entender. No caso concreto da presente petição já não é de agora que o Tiago se refere às FARC e à situação de Ingrid Betancourt. Por isso eu respeito a sua posição.
Permanecendo somente nos blogues que leio, já relativamente ao Blasfémias eu não posso dizer o mesmo: que eu me lembre, nunca li no blogue nenhuma referência às FARC ou a Ingrid Betancourt, em mais de dois anos (não encontrei nada no Google). No entanto a petição e todos os textos sobre este assunto desde então são apresentados de uma forma séria e não panfletária (ou não fosse o blasfemo promotor da mesma o Gabriel Silva). Nada a apontar, portanto.
Há ainda o caso (costumeiro) de O Insurgente, apesar de ninguém neste blogue ser um dos promotores da petição. De acordo com o Google, também não encontrei nenhum material sobre Betancourt, antes de este caso da festa do Avante ter surgido. Será que a indignação só surgiu agora? Pelo contrário, encontrei foi vários textos em defesa do governo colombiano, que mantém prisioneiros políticos e apoia grupos paramilitares assassinos de extrema-direita, que actuam tal e qual como as FARC. A isto, no mesmo blogue, acrescentam-se textos elogiosos a Ann Coulter. Que terá Ann Coulter a ver com as FARC, para além de provavelmente achar que não são nada que não se resolvesse com uns bombardeamentos? Entre outras posições, Ann Coulter defende que as mulheres não deveriam poder votar. Fará sentido defender-se que as mulheres não podem votar e defender-se Ingrid Betancourt, candidata à eleição presidencial? Bem, se as mulheres não pudessem votar, Ingrid não se teria envolvido numa campanha eleitoral e nem teria sido capturada. Faz sentido. E é então por isso que no mesmo blogue surgiram do nada, desde que o assunto começou a dar o que falar, não um nem dois, mas dez textos sobre o assunto, e de certeza que só não surgiram mais porque o chefe entretanto esteve de férias. Sinceramente, ainda bem que O Insurgente não surge como um dos blogues promotores da petição.
Da minha parte, já conhecia a história de Ingrid Betancourt (embora nunca tivesse escrito sobre ela). A ninguém que tenha vivido recentemente em Paris, como eu, poderia escapar o retrato de Ingrid em frente ao Hotel de Ville, como se vê na fotografia que eu roubei ao Véu da Ignorância.
Mas nem por isso assinei a referida petição. Entre outras coisas, porque legitima o governo colombiano e os seus procedimentos. Faço no entanto aqui os meus votos para que as FARC libertem imediatamente Ingrid Betancourt e todos os seus prisioneiros políticos.

2006/09/18

A maior novidade mediática da semana

Não é o surgimento do semanário Sol, e nem Jura, a nova telenovela da SIC: é o Cinco Dias. Que não poderia começar melhor, com o Rui Tavares a falar-nos dos intelectuais e dos media nos dias de hoje. A não perder.

As FARC, o PCP e as petições

A minha posição sobre as FARC é bastante clara. Sobre a sua presença na “Festa do Avante”, o PCP já esclareceu: não foram convidadas. Quem foi convidado foi o Partido Comunista da Colômbia e uma revista que apoia a acção das FARC. É natural que surjam panfletos e cartazes menos felizes numa festa do cariz da Festa do Avante!, como também surgem em manifestações.
No entanto o PCP não se furtou a responder à questão: “apoiava” a sua luta. Na sua resposta o PCP referiu ter uma concepção de terrorismo “diferente”. Fez bem em demarcar-se da definição de terrorismo do governo americano, tal como referi no texto anterior. Infelizmente, o conceito de “terrorismo” do PCP é também bem diferente do meu, uma vez que o PCP referiu “não considerar” as FARC terroristas. Apesar de referir que “não os utilizaria”, o PCP não condenou os métodos das FARC. O que é pena e é lamentável, e confirma mais uma vez que, em termos de política internacional, o PCP não pode ser levado a sério. Não que essa posição seja surpreendente: afinal, e infelizmente, é coerente com muitas posições do PCP em política internacional. Não nos esqueçamos de Albano Nunes que, durante os bombardeamentos ao Afeganistão, desconfiava da ajuda humanitária americana: o seu objectivo era “habituar as populações às marcas americanas”.
Dito isto, ao contrário do Tiago Barbosa Ribeiro eu julgo que o PCP tem um papel muito importante na democracia portuguesa e não deve nunca ser marginalizado. Há alturas em que se têm de fazer demarcações claras, de traçar uma linha, mas nenhum partido que se diz de esquerda pode tratar os comunistas como se não contassem. E impressiona-me sempre que vejo uma pessoa que se diz de esquerda a fazer do PCP o seu adversário principal, algo que no caso do Tiago Barbosa Ribeiro é recorrente. Se fizermos uma estatística ao Kontratempos, os textos contra o PCP ultrapassam em número, de longe, os contra qualquer outro partido, se é que estes existem.
Não posso deixar de sorrir quando o Tiago, num assomo de ingenuidade juvenil, afirma esperar que o Bloco de Esquerda isole o PCP e se junte aos restantes partidos num eventual protesto contra a presença das FARC. A maior parte das demarcações que eu referi são válidas quer para o PCP quer para o Bloco de Esquerda, uma organização política com uma forte influência da IV Internacional (trotskista). Em termos de política internacional, eu não vejo grandes diferenças entre o Bloco de Esquerda e o PCP. Mais: nas matérias em que possa haver divergências teóricas (não na prática), como na política europeia, as posições do PCP, sendo retrógradas, são muito mais coerentes do que as do Bloco.
Mas o tema era o PCP e as FARC, e não o Bloco. O PCP não deveria falar como fala das FARC, e o Tiago tem o direito de protestar, se tal o incomoda tanto (embora eu também tenha o direito de achar que tal faz sobretudo parte de uma obsessão anti-PCP da sua parte). De resto, eu sempre achei o Kontratempos um blogue muito informativo e coerente, que não hesita em dizer algumas verdades inconvenientes (só para dar um exemplo refiro o texto A Diferença Toda de hoje). Quando eu discordo do que leio no Kontratempos (algo que nem sucede assim tantas vezes), é um prazer para mim: estar a discordar de uma posição bem fundamentada ajuda-me a organizar melhor os meus pontos de vista. Foi o caso da petição que o Tiago achou por bem fazer. Depois explicarei porquê.

2006/09/17

Talvez a descoberta científica mais importante deste Verão

Descobertos os primeiros sinais de matéria escura

A matéria visível e a matéria escura foram separadas por uma grande colisão de dois enxames de galáxias. A descoberta foi feita utilizando o observatório de raios X Chandra, da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), em conjunto com outros telescópios, e constitui a primeira observação directa deste fenómeno.
A matéria escura é um tipo de matéria que não emite nem absorve suficiente luz para ser detectada directamente, sendo a sua presença deduzida somente através dos seus efeitos na matéria visível. Esses efeitos podem ser a velocidade de rotação das galáxias e as velocidades orbitais das galáxias em enxames, ou os desvios de luz conhecidos por lentes gravitacionais.
A observação agora anunciada foi feita no enxame Bala, um dos mais quentes enxames de galáxias conhecido, situado na constelação Carina, a cerca de quatro milhares de milhões de anos-luz da Terra. Neste enxame, dois aglomerados de galáxias independentes colidiram recentemente, tendo sido observados pelo Chandra e ainda pelo telescópio Hubble e por outros telescópios do Observatório Europeu do Sul, no Chile. Cerca de 90 por cento da matéria destes aglomerados é constituída por gás quente intergaláctico emissor de raios X. Durante este processo o gás quente de cada um dos aglomerados colidiu com o do outro, enquanto as galáxias (individualmente) e a matéria escura não foram afectadas. Duas equipas de astrofísicos lideradas por Douglas Clowe (da Universidade do Arizona) e Maxim Markevitch (do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian), dos EUA, compararam imagens do gás obtidas pelos telescópios com gráficos de campos gravitacionais deduzidos a partir de observações dos efeitos das lentes gravitacionais: distorções pequenas mas coerentes na forma das galáxias de fundo, a partir das quais se pode reconstruir a distribuição de massa nos aglomerados de galáxias. Esta reconstrução não deixa lugar para dúvidas – a matéria escura tem de existir nos aglomerados observados.
De acordo com as estimativas, a maior parte da matéria que constitui o Universo é, de longe, matéria escura: apenas cinco por cento da matéria seria visível, contra 20 por cento de matéria escura e 75 por cento de energia escura. A matéria escura propriamente dita é sensível somente ao nível das galáxias, afectando os campos gravitacionais por elas sentidos. Já a energia escura está espalhada pelo Universo inteiro, sendo os seus efeitos sentidos principalmente na aceleração do Universo. Existem teorias alternativas, baseadas em alterações das leis da gravidade, que eram sugeridas como explicações alternativas dos fenómenos dos quais se infere a existência da matéria escura e da energia escura. Os resultados agora divulgados não podem ser explicados por nenhuma alteração razoável da lei da gravidade, mas só dizem respeito à matéria escura. Estes efeitos ainda podem ser utilizados como uma explicação alternativa à existência da energia escura, que se conhece muito mal e para a qual há muito poucas explicações.
Um dos principais problemas em aberto na Física de Partículas e na Cosmologia é a constituição da matéria escura. Durante muito tempo teorizou-se que esta poderia ser constituída por neutrinos, partículas muito leves e que quase não interagem com as outras, sendo neutras relativamente às interacções electromagnéticas (à luz) e nucleares fortes. Por isso estas partículas são muito difíceis de detectar. Apesar de só desde 1998 estar confirmado que estas partículas têm massa, existiam modelos para matéria escura constituída por neutrinos com massa muitos anos antes. No entanto, os dados mais recentes apontam para não existirem no Universo neutrinos em número suficiente para constituírem toda a matéria escura existente.
Estudos da formação de núcleos atómicos durante o Big Bang indicam que a matéria escura terá de ser na sua grande maioria de natureza não-bariónica (ou seja, não pode ser constituída por quarks). A grande maioria das explicações para a constituição da matéria escura assenta em partículas não conhecidas, cuja existência é prevista por teorias de unificação de todas as interacções. Uma hipótese que se encontra muito frequentemente para a matéria escura é a dos “parceiros supersimétricos”, partículas cuja existência é postulada pela supersimetria, simetria que está na base de muitos desses modelos de unificação, incluindo as teorias de supercordas. Não existe ainda no entanto nenhum sinal desta simetria, podendo a sua existência vir a ser confirmada ou desmentida no próximo acelerador de partículas do CERN.


Adaptação de um artigo do Público de 23 de Agosto de 2006

Para saber mais: aqui e aqui.