2006/07/17

Para encerrar o Mundial

A prestação da equipa portuguesa e do seu treinador calam muitas bocas, como a de Miguel Sousa Tavares. Mas nem era esse aspecto, já muito discutido, que eu venho aqui abordar. É mesmo a grande festa que constituiu (e constitui sempre) o Mundial, principalmente para os países que nele participam. Eu fico feliz por ter amigos de muitas nacionalidades, australianos, mexicanos, italianos, alemães, brasileiros, espanhóis, argentinos, holandeses e franceses, claro, e verificar como todos eles comungam do mesmo entusiasmo por este torneio (menos os americanos...). Este campeonato é uma ocasião única para pôr a jogar entre si países de localizações muito diferentes, é o maior evento de massas à escala mundial e, por isso, eu não lamento nada o grande número de jogos ao princípio. Pelo contrário. E acho que preferir a sardinha assada aos jogos do Mundial é uma opinião respeitável (embora para quem diz que gosta de futebol revele um grande provincianismo), mas quem tem essa preferência poderia abster-se de emitir opiniões... sobre o Mundial. Até porque Miguel Sousa Tavares teve de engolir grande parte das opiniões que emitiu sobre o assunto.
É tudo. Daqui a quatro anos há mais.

2006/07/16

Leiden e Delft

Delft

Na passagem dos 400 anos de Rembrandt lembrei-me de Leiden, a sua cidade natal. E de Delft.
Leiden e Delft são antigas como Amesterdão mas bem mais pequenas, pelo que não são repetitivas. São bem holandesas e estão muito bem preservadas. E têm monumentos para oferecer ao turista; não somente lojas de sexo, coffee shops e prostituição. Amesterdão também tem mais do que isso, mas essa é a imagem que se sobrepõe. E é a imagem do tipo de turista que vai à Holanda e se fica por Amesterdão, ao contrário do que se dá ao trabalho de ir a Leiden ou Delft.

Leiden

2006/07/15

Por onde eu tenho andado

Blogosfericamente? Por aqui, na área dos comentários. Agora que a minha profissão é escrever a minha chefe não pode ver isto: se vê, acha um desperdício de caracteres, que eu deveria usar no jornal.
Por que é que eu chamo a atenção para isto? É a resolução de uma questão antiga, de facto, de que se inteirarão se se derem ao trabalho de ler os meus comentários, mas nem é por isso. É porque lá são-me dedicadas estas palavras:

Mas admiro-te e sempre gostei da tua naturalidade, por vezes a roçar a inocência do homem que gosta de conversar com toda a gente sobre política, ciência e o mais que por ai há a granel (a área do teu interesse é enorme), pouco importando se os teus interlocutores gostam ou não do Mário Soares.


Sempre que me dedicam elogios destes eu derreto-me todo. Eu devo ser mesmo muito carente. Obrigado, Bomba.

2006/07/14

Viciado em Su Doku

Eu poderia fazer uma sondagem oficial, daquelas à Nelson, mas nem para isso tenho tempo. Segue assim uma questão simples aos leitores (respondam nos comentários): na última página do Público de hoje, qual é o artigo mais interessante?
a) Um artigo de um tal de Filipe Moura sobre o crescimento preocupante da população de alforrecas em zonas onde a pesca é intensiva?
b) A crónica do Vasco Pulido Valente, mesmo ao lado?
c) O Calvin?
d) O Su Doku?
Eu voto na alínea d). Experimentei esta semana pela primeira vez e agora não quero outra coisa.

2006/07/13

Ainda sobre o Zidane

Só queria acrescentar que em geral me irritam sempre estes julgamentos em praça pública típicos da imprensa sensacionalista britânica. Já fui vítima dos mesmos na blogosfera e creio que associado a eles existe sempre alguma hipocrisia à mistura.
Sobre o Zidane propriamente dito, não tenho nada a acrescentar ao que foi escrito na Agreste Avena. A não ser talvez que algo que joga em desfavor do Materazzi é ser filho do pior treinador que eu alguma vez me lembro de ter visto no Sporting. Mas passem por e leiam.

A liberdade dos israelitas está em perigo!

Desde a semana passada tropas israelitas invadiram a faixa de Gaza, com o objectivo de libertarem um soldado raptado por radicais palestinianos. O resultado: 21 mortos. Para tentar libertar um soldado.
Já esta semana o Hezbollah resolveu atacar posições israelitas, tendo raptado e feito reféns mais dois soldados israelitas e morto outros oito. O resultado não se fez esperar, mas é verdadeiramente preocupante para os defensores da liberdade: só 35 mortos resultaram dos raides aéreos de Israel no sul do Líbano! Pelo resultado da semana passada seria de esperar, só considerando os soldados raptados, no mínimo 42 mortos. Isto sem contar com os oito soldados israelitas mortos! Como foram só 35 os mortos palestinianos, para tentar libertar dois soldados e vingar outros oito, daqui se conclui que a cotação da liberdade dos israelitas está em queda. A liberdade do autoproclamado "povo eleito" está em risco! Chamem a Ann Coulter.

2006/07/12

Zidane o maior

Tenho lido muitas críticas, inclusive um editorial por parte de um superior hierárquico meu no jornal onde neste momento estagio, à atribuição do título de melhor jogador do Mundial a Zinedine Zidane.
Vamos ver as coisas como elas são. Antes da lamentável agressão (qualquer que seja o seu fundamento) com que se despediu do torneio e do futebol, era mais ou menos pacífico que o melhor jogador até então tinha sido Zidane (que regressara aos seus melhores tempos). Se não tivesse visto aquele cartão vermelho a dez minutos do fim, nenhuma opinião teria mudado. Então por que haveria de mudar só por causa de um cartão vermelho, algo que também sucede aos melhores? Dito de outra forma: será o fair play assim tão determinante para um bom jogador de futebol, de forma a ser preponderante na atribuição de um prémio que deve premiar o talento?
E por favor não venham comparar com as simulações dos jogadores portugueses. As simulações dos jogadores portugueses são um comportamento desleal e que não é, em geral, punido durante o jogo. O comportamento do Zidane, embora reprovável, não é dissimulado – foi à vista de toda a gente, toda a gente viu, foi em frente à televisão, assim como a agressão do Sá Pinto ao Artur Jorge há nove anos, só para comparar com outro jogador que jogava à bola e que de fiteiro não tinha nada. O Zidane e o Sá Pinto erraram e foram punidos por isso. Agora no caso do Zidane por que raio é que um acto irreflectido (e pouco frequente nele, e que deixou toda a gente de boca aberta) haveria de se repercutir num prémio ao seu talento futebolístico?
Tal tipo de opinião parece-me muito português. Em Portugal dá-se um valor excessivo à simpatia. Não importa se o professor é muito competente, se o médico é muito competente: se não forem simpáticos, não prestam. Não importa se a comida no restaurante não tem grande qualidade, se é cara ou se o serviço é mau: se o empregado for simpático e sorridente, perdoamos tudo. Quarenta e tal anos de ditadura e séculos de subserviência deram nisto: somos o país das carinhas larocas. Nada disto me espanta. O que me espanta é que agora até parece que a FIFA está a ir na conversa. Por pressão mediática. Por correcção política. Por querer parecer bem.
Para mim, o Zidane foi o melhor jogador do torneio.

Imagem roubada ao Kontratempos.

2006/07/11

Sem tatuagens, sem bandelette, sem cabelo



«A Inglaterra caiu pela quinta vez consecutiva num desempate por penalties, depois de confirmar que toda a sua arrogância era puro marketing— como tantas coisas outras entre as vedetas inglesas e as suas insuportáveis wags. Restaram, pois (alguém tinha de restar...), a Alemanha, após um jogo mortal de chatice contra a Argentina, e a Itália, em mais uma exemplar demonstração de cinismo. E a França, essa sim, a excepção à regra geral e ao que até aí tinha feito. Em minha opinião, a França fez contra o Brasil o melhor jogo de um candidato ao título que eu vi neste Mundial. Pouco importa se foi uma ressurreição fugaz (mas já ensaiada contra a Espanha) ou um assomo de categoria e orgulho ferido de uma Selecção a quem já haviam feito o obituário. O que sei é que— e muito embora, o meu coração, como o de quase todos os portugueses torcesse pelo Brasil— não tardei a mudar de campo, assim que comecei a ver a displicência estéril do futebol brasileiro face à vontade e superior categoria dos franceses. Ronaldinho estreava a sua nova bandelette e havia, nos meninos de ouro do Brasil, muita preocupação com os penteados, a amarração dos cabelos, as tatuagens e a cor das botas— toda essa parafernália de acessórios que caracteriza as vedetas futebolísticas de hoje. E foi então que, lá do Purgatório onde o imaginavam em definitivo repouso, emergiu Zinedine Zidane— sem tatuagens, nem bandelette, nem sequer cabelo— para assinar com caneta de ouro o livro de memórias que ficará deste Mundial e resgatar, mesmo antes de dizer adeus aos estádios, a honra e o fascínio do futebol.»


Miguel Sousa Tavares, A Bola

2006/07/10

Triste despedida

...para o melhor jogador do Mundial.

E parabéns aos italianos, que ganharam bem. Foi bom ver alguém ganhar à França, mesmo se a França voltou a beneficiar de um penalti fantasma.

O novo Sá Pinto



Ninguém conhecia este discreto jogador do Marselha (mas que na verdade vem de Boulogne-Sur-Mer na Picardia). Pela discrição, pela humildade (e pela fotografia) parece mais o Pauleta... Mas é combativo e corre que se farta. Está em todo o lado. Para mim era o maior símbolo e a melhor imagem da equipa lutadora que foi a França deste Mundial. Ontem, admito que estava a torcer por ele. Foi substituído ingloriamente (como o Henry), porque o seleccionador francês não quis logicamente tirar o Zidane. Depois foi o que se viu.

2006/07/08

Obrigado Filipão!



Graças ao Nelson aqui vai o vídeo com a interpretação das palavras de Scolari durante o jogo. E aqui vai o meu obrigado ao sargentão. Pode ter uma reputação de duro, mas este vídeo vai contribuir para que seja visto de outra maneira. Mostra o seu lado humano. E antes um treinador que diz permanentemente Ai minha Virgem Maria do que um (como António Oliveira) de cuja boca só saem (literalmente) caralhadas.
Boa sorte, Scolari, Cristiano Ronaldo, Figo, Pauleta e companhia.

Falta de tempo

Entre a escrita quotidiana (por razões profissionais), as conferências a preparar (escrever os dois seminários sobre temas diferentes, reservar passagem de avião e alojamento), o projecto a submeter, os seminários a assistir e (neste momento é mesmo nas horas vagas) a investigação a fazer, nem tenho tido tempo para o blogue. Melhor (e ainda bem, por um lado): nem tenho tido tempo para pensar que não tenho tido tempo para o blogue...

2006/07/06

Déjà-vu


Um email escrito aos amigos:
L’histoire de la participation du Portugal à cette Coupe du Monde est bien connue. C’est le sommaire de l’histoire récente du foot portugais. On a gagné aux Pays-Bas sans une grande difficulté. On a éliminé les anglais dans les penalties, et une autre fois le gardien de but Ricardo était l’héros. Finalement, dans la semi-finale, nous étayons éliminés par les français avec un penalty très douteux (inexistant, je dirais), converti par Zidane. Toujours la même histoire (il faut encore trouver pourquoi). Je devrais déjà connaître ça... Nous sommes connus comme «les plongeurs», mais hier Henry a démontré qu’il même sait bien comment faire ça. C’est dur, avoir la réputation d’être «les dissimulateurs» et finalement voir ça. Ici tout le monde croit que le penalty ne serait pas signalé s’il était contre la France.
J’ai rappelé les statistiques toujours contre les hollandais et les anglais, mais la statistique joue toujours contre nous avec les français. La statistique ne faille pas… jusqu’un jour!
Maintenant j’espère que la statistique fonctionne une autre fois avec les italiens, et vous, les français, serez les vainqueurs. Vous avez éliminé les espagnols, les brésiliens et les portugais. Vous méritez. Bonne chance!
Salut de Lisbonne.

2006/07/05

Adenda ao texto anterior

Não te chateies, . Encara os factos...

La fábrica lisboeta

Extracto de um artigo do El País de hoje:

El responsable de la cantera del Sporting explica la filosofía del club,del que proceden 9 de los 23 jugadores de Portugal

"Figo llegó aquí a los 12 años: era frágil, débil, pequeñito; muy responsable y equilibrado. Cristiano Ronaldo vino a los 11: era alto y delgado, más vivaz y extravertido pese a ser originario de Madeira, donde los chicos son más introvertidos". Así eran de niños las dos principales figuras de Portugal. O así los recuerda Aurelio Pereira, responsable de la cantera del Sporting de Lisboa, de donde proceden 9 de los 23 elegidos por la selección de Luiz Felipe Scolari, es decir, casi la mitad. "Con Figo hubo que trabajar poco, sin sobresaltos, porque siempre fue muy maduro. Con Cristiano, al tratarse más de un niño de la calle, tuvimos que ofrecerle un acompañamiento mental", dice este entrenador de 58 años que ha pasado 35 en el club lisboeta.

Desde hace cuatro años, el Sporting presume de unas instalaciones a la última en el barrio de Vasco da Gama, a las afueras de Lisboa. Dispone de siete campos de entrenamiento y acoge a 50 chavales residentes de fuera de la capital y a otros 130 de Lisboa o alrededores. "El Sporting siempre tuvo vocación formadora. Toda la vida. Y la construcción de una academia mejoró las condiciones de trabajo". A Pereira le sorprendió el estirón que dio Figo a los 14 años. "Nosotros no metemos nunca a los niños en los gimnasios. Es importantísimo dejarlos crecer con naturalidad. Ese es uno de los secretos para que todos nuestros jugadores desarrollen carreras muy largas. No conozco a ningún jugador con un rendimiento tan estable como Figo", sostiene Pereira, orgulloso de que todos los capitanes de las distintas selecciones lusas provengan del Sporting. "Empezando por Figo en la absoluta, los capitanes de la sub 16, sub 17 y la sub 21 con Quaresma". Eso es debido, según Pereira, a la educación que reciben en la academia sportinguista. "Lo primero es que los niños tengan calidad. Primamos la técnica y la velocidad. Y lo acompañamos con un trabajo mental".

En este sentido, Pereira se siente especialmente satisfecho del penalti que le marcó Cristiano Ronaldo a Inglaterra en el último lanzamiento de la tanda desde los 11 metros. "A los 17 años, Cristiano jugó muy bien contra el Inter. Los periodistas le preguntaron si estaba contento y el respondió que no, que no había hecho nada. Estamos hablando de un chico de 21 años que a los 18 años fichó por el Manchester. Esa es una de las claves. Exportamos jugadores muy jóvenes a Europa y con una gran calidad mental. Eso los hace grandes competidores". Pereira echa la vista atrás y se acuerda de otro futbolista notable amamantado en la escuela sportinguista: Paolo Futre. "Lo entrené cinco años. Era un niño rapidísimo que siempre iba directo hacia la portería. Si viera ahora entrar a otro Futre de 11 años por esa puerta...".

No hay un caso similar en ninguna de las grandes selecciones europeas. La fábrica sportinguista echa humo. Los otros siete jugadores de Scolari que pasaron por allí son Simao, Miguel, Hugo Viana, Paulo Santos, Caneira, Nuno Valente y Boa Morte. De todos ellos, la evolución que más le ha impresionado a Pereira es la del valencianista Miguel. "Aquí jugaba en el medio del campo, de organizador. Y, de repente, se transformó en lateral derecho en el Benfica".

"No me espantaría si Portugal gana la Copa del Mundo", concluye Pereira.

2006/07/04

O jogo falado de Portugal

Um grupo de surdos a trabalhar na TV Globo conseguiu ler os lábios e decifrar o que diz Scolari durante os jogos de Portugal. O resultado, hilariante, está aqui (via Corta-Fitas).
Há quatro anos, estava eu nos EUA e apesar de não ser surdo conseguia fazer o mesmo com o António Oliveira na Univision (televisão americana para hispânicos). As palavras do Oliveira, garanto-vos, não eram próprias para famílias.

2006/07/03

Foram-se os inhos, fica o Lulinha


O meu texto anterior foi escrito a pensar que Portugal iria jogar com o Brasil – e então é que a superioridade moral seria toda perdida (se nos lembrarmos de quem é o presidente daquela república). A superioridade moral contra a França também não existe, e começa a existir uma forte superioridade moral da França contra os blogues portugueses que começam a apresentar entradas como esta, caídas do céu, sem que nada o justifique.
Mas o time dos inhos, o Robinho, o Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldinho Gorducho e outros que tais foi bem eliminado pela França e foi para casa. Eu gosto muito de futebol quando é bem jogado, mas não tenho grande paciência para inhos. Gosto de lidar com gente adulta. Do Brasil eu gosto de novelas, samba e bossa nova. Do Chico e do Caetano. E do grande presidente: esse é que não vai para casa. Vai continuar a defender bem as cores do Brasil e da América Latina como o tem feito. Para o André, saudoso do time dos inhos, e que está evidentemente cheio de dorzinha de cotovelinho, eu dedico esta foto do Lulinha.

2006/07/02

Agora é a sério

Primeiro, Portugal jogou contra um regime ditatorial e corrupto. Depois, contra um regime fundamentalista liderado por um fanático. Concluiu-se a fase de grupos contra aquilo a que Mario Vargas Llosa chamou "a ditadura perfeita". Seguiram-se duas monarquias execráveis, passe o pleonasmo. Segue-se finalmente uma república. Profundamente desmoralizada e descredibilizada graças ao seu presidente e ao seu primeiro ministro. Mas uma república, e que república.
Acabou-se a superioridade moral.

2006/07/01

Sob o signo do centenário

No Campo Grande, na Avenida da República, na Avenida Fontes Pereira de Melo, todos os adeptos portugueses seguiam as indicações dos cartazes da marcha "Sporting 100" (que se realizara de manhã, em direcção ao Estádio de Alvalade) enquanto celebravam a vitória da selecção.
Em pleno Marquês de Pombal, a concentração dava-se entre uma série de bandeiras do Sporting e da Fundação Carlos Lopes, que ornamentavam a praça.