2006/06/29

Roterdão

Ao comparar o arrojo arquitectónico, o contraste entre o novo e o velho e sobretudo a variedade da paisagem que se tem em Roterdão com a monotonia que é Amesterdão, onde é tudo igualzinho - só o Museumplein escapa - concluo que é uma pena que Amesterdão tenha sido tão preservada durante a Segunda Guerra Mundial (isto aplica-se às construções e não aos habitantes). Tivesse sido reconstruída e Amesterdão seria muito mais interessante.

(Nota: Eu sei que uma peculiaridade da Holanda é a legalidade das substâncias alucinogéneas, mas garanto que este texto não foi escrito sobre o efeito de nenhuma. O objectivo é somente demonstrar como eu gosto de Amesterdão.)

2006/06/28

As janelas da Holanda

Na Holanda, os prédios têm janelas grandes. Como notava o meu orientador, parece que todos os prédios são construídos em função das janelas. Pode ser para aproveitar bem o sol, num país não muito soalheiro. Algumas das utilidades dessas janelas são óbvias e bem conhecidas (aquelas que têm uma luz vermelha por cima, e senhoras à mostra - senhores, mesmo vestidos de senhoras, se a luz for azul). Mas e que dizer das casas particulares? Casas de família perfeitamente visíveis do exterior, de onde se pode olhar para salas de jantar com pessoas a verem televisão ou a tomarem refeições e, por vezes - garanto-vos - para dentro de quartos de dormir? Tudo sem persianas e por vezes sem cortinas?
É uma herança calvinista, sem dúvida. Os holandeses não se confessam, e por isso precisam de demonstrar quotidianamente à sociedade que são pessoas virtuosas. Podem respeitar as liberdades de escolha e de estilo de vida de cada um, mas tal não significa que não o julguem. A "abertura" da sociedade holandesa tem muito que se lhe diga.

2006/06/27

No Vondelpark de Amesterdão

...durante uma partida de ultimate frisbee, um jogo muito engraçado e que eu desconhecia. Mas que requer uma boa preparação física, especialmente se jogarmos com a táctica da marcação homem-a-homem. Tentei marcar jovens de vinte e poucos anos. Está certo que um deles nas horas vagas corre maratonas, mas ainda assim logo se revelou a minha falta de fôlego. O único jogador que eu consegui marcar minimamente foi o meu orientador de doutoramento, com mais vinte anos do que eu.
Como com qualquer tipo de jogo que requeira coordenação motora, cedo revelei a minha inépcia: um disco ou uma bola lançados por mim nunca se sabe onde vão parar; a sua localização final é uma variável aleatória. O capitão da equipa, e praticante mais entusiasta da modalidade, dava-nos instruções. No meu caso, e aos outros azelhas, como lançar o disco correctamente: como o segurar, como colocar o braço, a altura a lançá-lo. Éramos jogadores de diversas nacionalidades: para além de mim havia indianos, marroquinos, checos, franceses, holandeses. A maioria deles bons jogadores. Mas ninguém se ria dos azelhas; antes procuravam ajudar-nos a jogar melhor, incitavam-nos e encorajavam-nos. Se fosse em Portugal, se fossem portugueses, à primeira azelhice que surgisse toda a gente se estaria a rir e a humilhar o azelha. A pequenez e a falta de auto-estima do povo português reflectem-se nestes pequenos pormenores. Pequenez na subserviência para com os poderosos e no fazer pouco dos mais fracos. Falta de auto-estima quando muitas vezes outros azelhas se reúnem na risota geral.
Fica a fotografia a documentar um fim de tarde agradável e bem passado com um jogo colectivo, como há muito tempo eu não tinha. Nem sei se alguma vez tinha tido.

2006/06/26

Sai um espelho para O Insurgente

Independentemente da razão que possa assistir o André Azevedo Alves no texto do Nuno Ramos de Almeida (que não contextualizou a frase que abre o documentário), a verdade é que tal não passa de um pequeno pormenor. No global, o Nuno Ramos de Almeida tem razão na sua apreciação. Mas o que é mesmo notável são as considerações que se seguem:

E fica como mais um aviso para que nunca se caia no erro de atribuir credibilidade a quem é incapaz de se exprimir num registo não propagandístico.

Ou seja, não se deve atribuir nenhuma credibilidade ao André Azevedo Alves... de acordo com o próprio! Será que ele precisa de um espelho?

2006/06/25

Amsterdam



(Obrigado à Emiéle pela sugestão.)

Amesterdão tem mais encanto na hora da despedida

Estação central

Os holandeses são em geral muito simpáticos, mas não consigo gostar do seu estilo de vida. A comida é horrível. A Holanda tem pequenas vilas/cidades muito bonitas, como Delft e Leiden, mas Amesterdão é uma dessas cidades em grande. É uma vila grande e repetitiva onde no fundo não se passa nada de muito interessante. Não me deixa muitas saudades. Do que terei mais saudades é dos (bons) amigos de diversas nacionalidades que aqui tenho.
O melhor de Amesterdão é mesmo estar a quatro horas de comboio de Paris (oito de autocarro, opção barata e conveniente se se viajar durante a noite).
Vou continuar a falar da Holanda nos próximos dias.

2006/06/23

República Checa e EUA eliminados...

...para grande tristeza do meu orientador de doutoramento e do Lubos Motl (que não tem nada a ver com o meu orientador de doutoramento, se exceptuarmos a nacionalidade, a profissão e o país de residência). Não sabem quem é o Lubos Motl? Ao pé do Lubos Motl, o João Miranda parece um anjinho.

Liberais maoístas (II)

O João Miranda, no seu estilo inconfundível "question and answer", sem margem para dúvidas, respondeu ao Daniel Oliveira. Continuo a achar que o Daniel tem razão e que, quando se lida com regimes como o chinês, é mesmo uma questão de moralidade. Mas a moralidade não tem lugar na ciência do João Miranda, que continua a considerar única a sua solução para as equações diferenciais parciais não lineares, com várias variáveis, e dependentes das condições fronteira. Apesar de tudo isto acho admirável (e verdadeiramente estimulante) a sua persistência em encontrar respostas científicas. Os argumentos de moralidade para ele devem parecer o mesmo que os da Inquisição pareciam a Galileu - daí o João considerar-se um blasfemo. Mas para proceder como um bom cientista, por uma questão de honestidade o João não deveria considerar sempre as mesmas condições fronteira, que variam de pessoa para pessoa, de caso para caso, de sociedade para sociedade. Pode ser que o João um dia encontre as condições fronteira moralistas.
Para além disso, como se vê nas perguntas/respostas, o João sabe distinguir o "por que" do "porque". Não é qualquer um.

2006/06/22

Os anti-americanos e os anti-futebol

A propósito do comentário da Annie Hall ao vídeo dos Simpsons na entrada anterior, ocorreu-me o seguinte. É claro que neste vídeo os autores da série demonstram que não entendem o que é o futebol e nem a sua força. Só que são americanos. Seria interessante saber a opinião sobre este episódio de certa intelectualidade europeia, que despreza o futebol mas ao mesmo tempo detesta os EUA. É que o que vemos no vídeo é mesmo a opinião de muitos americanos sobre o futebol...

O maior país do mundo

Não sabiam? Somos, desde ontem. Vejam aqui em baixo (dica Vistalegre).

2006/06/21

Dans le port d'Amsterdam


Enfin, ils boivent aux dames
Qui leur donnent leurs jolis corps
Qui leur donnent leurs vertus
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se penche le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles


Não sei quantos anos depois, ainda tem toda a razão o Grand Jacques.

Os liberais maoístas

Finalmente uma boa resposta por parte da esquerda ao João Miranda, que o obriga a desconversar: a do Daniel Oliveira no Arrastão. Como não poderia deixar de ser, contém uns remoques desnecessários a Jerónimo de Sousa (desde quando é que o Jerónimo é maoísta?). Também continuo sem compreender por que insiste o Daniel, que deveria saber o que é o comunismo, em chamar "comunismo" ao regime chinês, que de comunista não tem nada. Mas no geral a resposta está muito boa. O essencial está nestas frases:

Se a democracia vem, vai-se a competitividade. A China parte-se em bocados, como aconteceu com a ex-União Soviética, os trabalhadores vão querer o seu quinhão de riqueza e salários decentes, a instabilidade política e social será incontrolável e de dimensões completamente novas. O desmembramento da União Soviética será uma brincadeira de crianças ao lado da queda do comunismo chinês. A China interessa às empresas porque é uma ditadura.

2006/06/20

Novidades blogosféricas (III)

No Aspirina B.

Novidades blogosféricas (II)

O Rui Tavares está de regresso com um blogue gostoso, o Pobre e Mal Agradecido, "o melhor blogue possível de Rui Tavares". Há uma redundância evidente neste lema: é que um blogue do Rui Tavares é sempre o melhor blogue possível.

Novidades blogosféricas (I)

O André Belo mudou o bistrot de Paris para Madison, Wisconsin, EUA, uma terra com muito poucos comboios para uma Gadedelest (eu pelo menos fui lá de autocarro Greyhound). De acordo com a sua descrição, "esta terra tem mais esquerdalhos que a rive gôche de Paris". Parece-me que o André está a entrar no espírito da coisa.
Como será assistir ao Mundial em Madison? Há quatro anos, graças aos fusos horários, os jogos eram ao pequeno almoço (às sete e às nove da manhã). O único canal de sinal aberto que dava os jogos todos era a Univisión, destinado à comunidade hispânica.

2006/06/19

Censuras bloguísticas

Quem também anda em turismo científico é o outro Ricardo. Espero que ele aproveite para promover o nosso trabalho nas paragens longínquas da China, tanto quanto eu o tenho feito na Europa. Mas o testemunho do Ricardo permite-nos recordar algo que não deve ser esquecido. Apesar de todo o ar de "abertura" que o regime chinês procura dar, apesar de em Pequim hoje se ter iniciado um evento como a conferência Strings 2006 (e daqui a dois anos serão os Jogos Olímpicos!), na China ainda não se pode ler um blogue. O Ricardo conseguiu editar um texto no Esquerda Republicana, mas não conseguiu lê-lo no seu próprio blogue. E nem consegue ler nenhum outro.

2006/06/18

Estará o meu corpo a ficar mais velho do que eu?

Ainda há três anos, nos EUA, era capaz de andar a caminhar e conhecer cidades novas por uma semana seguida, a dormir muitas vezes em autocarros, durante as viagens nocturnas de Nova Iorque para Madison (Wisconsin), do Wisconsin para Minneapolis e St. Paul (Minnesota) e do Minnesota para Chicago (Illinois). Agora, após dois dias a caminhar e a conhecer cidades da Flandres (onde estive sem acesso à internet), ao terceiro dia tive de dormir mais. A idade não perdoa.

Itália, 1 - EUA, 1

A primeira grande roubalheira que eu vi neste Mundial. O jogador bem expulso da Itália (deveria ser suspenso por mais tempo) não compensa os dois jogadores expulsos com um critério bem mais discutível dos EUA. E, sobretudo, o golo mal anulado. Mas as superpotências atraem mais público e são sempre protegidas, e os EUA no futebol não são uma superpotência.

2006/06/17

Não estava lá, mas deve ter sido giro

A solidariedade da Cité Universitaire de Paris (comunicado da associação Cap Magelan):

VENEZ SOUTENIR NOTRE SELECCÃO!

Venez assister au match Portugal / Iran le 17 juin prochain à 15h00 au Stade Charléty (75013 Paris), de nombreux cadeaux seront offerts pendant le match. Le stade peut contenir plus de 10000 personnes. Alors venez nombreux soutenir l'équipe du Portugal!

(Attention, seul match retransmis le samedi 17 juin au Stade Charléty)
Stade Sébastien Charléty (13e)
99, boulevard Kellermann - RER Cité Universitaire
Le stade ouvrira ses portes 1 heure avant le début des rencontres.
Entrée gratuite

Information confirmée par la Mairie de Paris le 13 juin 2006

PS : Contrairement à ume première information donnée par la Mairie de Paris, les retransmissions des matchs au Stade Charléty n'ont pas commencé le 9 mais le 13 juin, ce qui a empêché de voir le match Angola Portugal le 11 juin. Toutes nos excuses à ceux qui se sont déplacés et merci aux différentes maison de la Cité Internationale Universitaire de nous avoir accueilli pour voir les matchs, entre Danois, Italiens, Norvégiens, Espagnols, Indiens, Anglais, Brésiliens...

2006/06/14

Onde estão?

Este é um tipo de texto que eu não gosto de escrever; não ando aqui para patrulhar ninguém. Mas já que, enquanto estava no Blogue de Esquerda, várias vezes fui "vítima" dele, aqui fica uma pequeníssima dose do remédio para quem o costuma prescrever.

Uma operação militar israelita contra uma praia na Faixa de Gaza provocou ontem a morte de dez civis palestinianos, entre os quais um casal e os seus três filhos. O ataque provocou ainda 30 feridos. Num outro incidente, morreram mais três palestinianos, o que eleva para 14 o número de mortos em ataques israelitas em menos de 24 horas.


E onde estão as condenações por parte dos blogues de direita? Onde estão eles, que não dizem nada? A única reacção que li, apesar de condenar o incidente, tenta legitimá-lo face à reacção do Hamas. Alguém duvida que se os mortos fossem israelitas, ninguém os calava? Não quererá isto dizer que, para os blogues de direita, uma vida israelita vale muito mais do que uma vida palestiniana?

2006/06/13

Que futuro para a imprensa escrita?

Preocupa-me a situação periclitante do Libération.

O meu dia de Santo António

Ainda mal acabei de colocar as fotos comentadas da Alemanha (onde estive já há duas semanas). Neste momento estou na Holanda, em Amesterdão. Nos próximos dias seguem-se impressões sobre os Países Baixos. Para já, vou dar um seminário esta tarde (eu diria depois do almoço, se esta gente almoçasse como deve ser).

Chauvinismo aveirense

"É uma variação do leitão à Bairrada!"

Spanferkel mit Semmelknödeln und Sauerkraut, um autêntico leitão à alemã

2006/06/12

Outro Filipe de esquerda

Ainda no "Esquerda Republicana" o meu homónimo dá-nos uma visão da televisão portuguesa por quem vive habitualmente nos EUA: «No apartamento onde estou tenho quatro canais: RTP1, 2, SIC e TVI e ainda não vi um jornalista dizer uma coisa inteligente, fazer uma pergunta difícil, preparar-se antes de falar sobre as coisas.» Fala ainda da extrema direita. A ler.

Durão Barroso ganhou o prémio Tuvalu

«Para este ano a escolha do júri recaiu sobre Durão Barroso, presidente da Comissão europeia pelo facto do dito cujo, sobejamente conhecido pelos portugueses, se deslocar diariamente dentro da cidade de Bruxelas com a sua viatura pessoal que é, nada mais nada menos, uma viatura 4x4 de todo-o-terreno (!!!), que gasta mais de 13.2 litros aos 100Km em circulação urbana e que produz, pelo menos, 265g de CO2/km percorrido (sem contar a climatização), ou seja, mais de 60 toneladas de CO2 ao longo da sua vida útil.» (Via o leftista João Vasco.)

2006/06/11

Chauvinismo francês (II)

"Isto é tal e qual Versalhes!!!"



(Na fotografia: Palácio Ducal de Schwetzingen, nitidamente inspirado em Versalhes mas bem mais "maneirinho", menos exaustivo e imperialista, o que é uma virtude. Gosto de uma certa grandiosidade mas Versalhes é um exagero.)

Memórias da Alemanha

Em pleno Mundial da FIFA a decorrer em solo alemão, e no dia de estreia da nossa selecção, deixo-vos com mais umas recordações da minha recente visita a Heidelberg.

2006/06/10

O patriotismo é pagar impostos

No Dia de Portugal, e ao fim de um dia de Campeonato Mundial da FIFA, quando se voltam a ver as tolas bandeirinhas penduradas, é altura de pensar em patriotismo. Sugiro um excerto de uma excelente crónica de Miguel Sousa Tavares no jornal A Bola, na semana passada.

Como já devem ter notado, gosto muito de futebol. Gosto do jogo, da sua lógica e estratégia, que combina o sentido de equipa com o talento individual, da escola de qualidades humanas que o futebol pode constituir pela vida fora.Gosto da paixão, do clubismo, das cores, dos jogadores excepcionais. E gosto de tudo no espectáculo de futebol: os estádios, as luzes, a relva, a estética, a coreografia, os sons e o ambiente. Só tenho pena, uma infinita pena, que os modernos estádios portugueses tenham posto fim àquelas fantásticas roulottes de sandes de entremeada e courato, vinho morangueiro e imperial, em benefício dos assépticos e estúpidos bares inspirados nessa sinistra invenção dos nosso tempos que são os McDonalds e afins.

Mas, para mim, o futebol é apenas isto: um grande jogo, um magnífico desporto e, por vezes, um deslumbrante espectáculo. E nada mais. Não é, nem será nunca, compensação para frustrações alheias à coisa em si, fonte de inspiração patriótica ou motivo de redenção nacional. Eu já adorava futebol quando o Estado Novo usava o futebol para nos distrair da miséria política e cultural em que vivíamos, tentando fazer-nos crer que, por termos aquela fabulosa equipa do Eusébio e seus pares de 66, só podíamos ser um grande país. Eu não irei, pois, pendurar a bandeira nacional na janela de minha casa ou do meu carro nem irei associar-me a imbecis manifestações de patrioteirismo ad hoc, a mando de um seleccionador brasileiro que se convenceu de que nos havia de transformar a todos em súbitos patriotas, à boleia da Selecção. E enjoo só de pensar que a cidadania patriótica vai dar pretexto e fornecer representação àquelas patéticas criaturas do jet-seis nacional para se vestirem com as cores da bandeira e jurarem o seu desvelo pela Selecção-pátria.

Tal como aprendi as ver as coisas, o patriotismo não é arvorar bandeirinhas nacionais às janelas quando do Europeu ou do Mundial. O patriotismo, para mim, é pagar impostos, ser útil à comunidade de alguma forma, servir o seu país, quando se tem ocasião para tal e sem esperar nada em troca.

2006/06/08

Verificação (após voltar a tirar fotocópias)

Não há nada mais estúpido do que uma fotocopiadora "inteligente" que detecta o tamanho do documento e o assume naturalmente, sem ninguém lho ter dito.

2006/06/07

Boa notícia do dia

...as continuidades do Polga (com metade do vencimento que o Olympiakos lhe oferecia) e do Caneira. Vamos ao Hugo Viana?

2006/06/06

06-06-06

Dei um seminário muito útil, onde me foram colocadas diversas perguntas de grande interesse e onde pude falar com um especialista reconhecido em buracos negros. Seguiu-se um saboroso almoço de peixe na cantina do CEA com colegas. Uma tarde onde tive uma reunião de trabalho com colaboradores e uma conversa que me deu ideias mais claras relativas ao meu futuro profissional. Um fim de tarde consumista: comprei na loja que me tinha sido recomendada a t-shirt com a inscrição "Vodka - Connecting People" (em que "vodka" aparece exactamente com os mesmos caracteres da conhecida marca de telemóveis finlandesa - a t-shirt é uma brincadeira com o seu slogan) e ainda um CD da Juliette Gréco. Finalmente um excelente fricassé de frutos do mar num animado e bem regado jantar rodeado de amigos, na cantina da Cité Universitaire, e uma conversa franca e sem barreiras com um grande amigo.
Isto é que era suposto ser o "Dia da Maldição", do fim do mundo? Venham mais dias assim.

"C'est important qu'il y ait une transmission du combat féministe"

A não perder: a entrevista de Fadela Amara, imigrante de origem muçulmana e fundadora e presidente do movimento laicista Ni putes ni soumises, ao Metro, edição parisiense.

2006/06/05

Quem fica fodido com isto sou eu

Por que raio é que os senhores engenheiros do blogger decidem fazer experiências para introduzir novas possibilidades na publicação (e inviabilizar a ligação ao servidor, fazendo quem tenta publicar perder tempo) sempre mesmo na altura em que eu estou a publicar?

Estará o Peru fodido?


Embora simpatize e compreenda a política de independência nacional (sobretudo, independência em relação aos EUA) que políticos como Hugo Chavez têm vindo a preconizar, não me agrada o tipo de regime que dali tem resultado. Conheço vários venezuelanos. Todos de esquerda. E todos contra Chavez. Que já lá trabalharam e de lá saíram, por se terem manifestado contra o presidente. O controlo da comunicação social do estado é efectivo (mas da mesma forma, a comunicação social privada não é independente e está dominada pelos poderosos grupos da oposição pró-EUA). Mais grave ainda é o controlo dos postos de trabalho do estado e dos sindicatos: quem não apoiar o presidente está em maus lençóis. Por isso, embora não ponha em causa a legitimidade de Chavez (apesar dos truques legislativos dos referendos e plebiscitos e sucessivas revisões da constituição de forma a preservar o poder eternamente, ainda acredito que é apoiado pela maioria do povo venezuelano), prefiro um tipo de solução mais democrática. Tendo eliminado à primeira volta a candidata conservadora, Lurdes Flores, acredito que o Peru fez bem em eleger o seu Lula, Alan Garcia, um político que não estava preparado para ser presidente em 1985, como Lula - reconhecido pelo próprio - não estava em 1989, mas que ainda assim foi eleito, com maus resultados, abrindo caminho à ditadura fujimorista. Espero que desta vez esteja mais preparado e seja bem sucedido.
Quem já leu o extraordinário romance de Mario Vargas Llosa Conversa na Catedral deve recordar-se da esperança que a personagem mais simpática, Popeye Arévalo, depositava no seu partido, a APRA. Popeye bem tentava recuperar a moral do seu melhor amigo e protagonista, Santiago Zavala, o Zavalita, uma metáfora do Peru. A pergunta "em que altura é que eu me terei fodido?" era recorrente, quer em relação ao Peru, quer a Santiago, um homem totalmente descrente fosse no que fosse (e que por isso, depois de um passado revolucionário, não embarcava no entusiasmo do amigo). Embora eu cada vez mais faça a mim mesmo a pergunta crucial do Santiago, ainda quero acreditar em alguma coisa, como o Popeye. Espero por isso que o governo do seu partido, a APRA, seja bem sucedido. E que o Peru não se tenha fodido mais uma vez.

2006/06/04

A verdade inconveniente e a verdade insurgente

Para encerrar esta questão. Sou um defensor das boas traduções, e ao contrário de certos amigos meus eu prefiro ler um livro numa tradução portuguesa, sempre que esta exista. (Neste momento por acaso até sou responsável pela revisão científica da tradução portuguesa de um livro de divulgação de um físico holandês.) Como utilizador do Babelfish reconheço perfeitamente a importância de um bom tradutor, e sei que este precisa saber muito mais do que línguas. Não deveria ter usado a expressão "tradutor" no texto A Verdade Inconveniente; tal não era necessário para reforçar o meu ponto de vista: o facto de o Rui Oliveira estar a emitir opinião sobre um assunto que não domina. Claro que eu também faço isso (e a maior parte dos blogues) e ainda bem; a opinião é livre, e não se tem de todo de se escrever só sobre aquilo em que se tem formação académica! Só acho que, especialmente se for esse o caso (de não se ser especialista na área) um autor deve fazer um esforço de se informar e não estar simplesmente a repetir chavões (noutra altura chamava-se a cassete). Claro que mesmo assim o Rui Oliveira tem o direito de se limitar a repetir aquilo que (do meu ponto de vista) são só chavões; a opinião é livre. Mas por isso mesmo também eu tenho o direito de afirmar que ele se limita a escrever chavões, quando for esse o caso.
Quanto ao julgamento do André Azevedo Alves sobre as minhas "capacidades cognitivas", não me poderia afectar menos. Não me afecta a opinião sobre as minhas capacidades cognitivas de um indivíduo que acha que a fonte suprema de todo o conhecimento é a Bíblia. Os meus conhecimentos não vêm na Bíblia, é um facto. Não sei ao certo quais serão as minhas capacidades cognitivas, mas acho que elas ainda serão suficientes para saber identificar métodos de um fanático obscurantista.

2006/06/03

Ça roule

E para evitar mais alterações climatéricas do que as que têm que acontecer: tous à velo ce weekend (iniciativas semelhantes em Lisboa aqui).

Tradução (para ver se o André Azevedo Alves percebe)

Vamos por partes.
Eu nunca chamei "monge albino" a ninguém. A única coisa que objectivamente insinuei com base nos seus textos (não afirmei) é que o André Azevedo Alves parece ser um simpatizante do Opus Dei (não posso dizer que é, mas qualquer pessoa vê que parece). Pelo menos o seu proselitismo é bastante evidente. Também nunca afirmei que O Insurgente é "dominado" seja por quem for. Parece-me óbvio logo do título que o meu texto O bem e o mal segundo André Azevedo Alves é destinado única e exclusivamente... ao André Azevedo Alves, e a mais nenhum colaborador do Insurgente. O André Azevedo Alves é que pelos vistos gosta de se confundir com O Insurgente. Se for este o caso, é com ele e com os outros colaboradores; não tenho nada a ver com isso. Mas talvez seja por isso que ele se deu ao trabalho de responder a um outro texto meu, A Verdade Inconveniente, onde é referido (e apenas marginalmente) um texto de um outro colaborador de O Insurgente, o Rui Oliveira.
E que diz o André Azevedo Alves? Basicamente conclui do facto de que sempre houve e continuará a haver alterações climáticas que não há nada que possamos fazer para as evitar ou não provocar. Ou seja, repete a máxima climatérica (já defendida pelo Rui Oliveira e pela generalidade dos blogues liberais) que o homem não pode alterar ou evitar um destino pré-estabelecido e inexorável. (Para o André Azevedo Alves, por exemplo, tal é tão claro como Deus ter criado Adão e Eva.) E parece querer afirmar que quem não defende isto está a defender o outro extremo: que só o homem pode influenciar o clima e que todas as catástrofes climáticas são causadas pelo homem. É assim: não há meio termo. Nada que não estejamos habituados na direita republicana (e ainda mais nos fãs de Ann Coulter): quem não está com eles, está contra eles.
Em nenhuma altura eu defendi que as alterações climáticas são da exclusiva responsabilidade do homem. O autor do texto original, o Rui Oliveira, sendo tradutor deve ser especialista na interpretação de textos, pelo que leu bem o que eu escrevi.
Sobre o Rui Oliveira queria prestar aqui o seguinte esclarecimento. Não o conheço e se sei que é tradutor é através de um texto por ele publicado no Insurgente (e com que eu concordei), no qual defende o fim de privilégios corporativos de certas classes profissionais, dando o exemplo da sua própria classe.
O que eu quis afirmar ao chamar "tradutor" ao Rui Oliveira era que não lhe reconhecia nenhuma especialização para falar sobre o assunto das alterações climáticas. E baseei essa minha "falta de reconhecimento" no seu texto original, Alterações Climáticas, que me pareceu - e continua a parecer - bastante fraco, pelas razões que expus. Mas não queria ofender nem o Rui Oliveira, a quem costumo reconhecer honestidade intelectual, e nem... a classe dos tradutores! Se foi esse o caso, peço desculpa.
Finalmente quero reiterar que esta minha opinião não é (infelizmente...) para ser generalizada a todos os textos sobre alterações climáticas que se lêem nos blogues liberais. Embora discorde totalmente desses textos, reconheço que alguns têm uma argumentação boa, mesmo se desonesta ou parcial. O caso mais paradigmático são os textos do João Miranda no Blasfémias. Por não esperar que toda a gente se lembre de tudo o que eu escrevi, recordo (no segundo parágrafo deste texto) a minha (muito boa, mesmo discordando de todo) opinião sobre os textos do João Miranda em geral (que belo marxista que ele daria). Refutã-los requer (ao contrário, lamento dizê-lo mais uma vez, do texto do Rui Oliveira, que se limita a repetir chavões) uma grande preparação e uma grande dose de paciência, algo que como aqui referi foram reveladas por exemplo no Klepsydra.

2006/06/02

A Verdade Inconveniente

Estreia hoje em várias cidades americanas o documentário "An Inconvenient Truth", onde o realizador David Guggenheim segue Al Gore na sua campanha de esclarecimento do grande público sobre o aquecimento global, as suas causas e os seus efeitos. De acordo com a organização MoveOn,
The movie is technically a documentary, but it's also been described as a thriller and some folks have even called it scary. It's scary because it's a serious look at the grave path we're heading down if we don't take real steps to stop global warming today.

De acordo com a New Yorker,
There is no substitute for Presidential power, but Gore is now playing a unique role in public life. He is a symbol of what might have been, who insists that we focus on what likely will be an uninhabitable planet if we fail to pay attention to the folly we are committing, and take the steps necessary to end it.

De acordo com o USA Today,
An Inconvenient Truth, based on a slide show Gore developed and has given for years, is part documentary, part dark comedy and part horror thriller. As narrator, Gore makes jokes at his own expense, presents a cartoon clip from Fox's cartoon Futurama about cooling the ocean with ice cubes and shows footage of storms, floodwaters and scorching drought that would be thrilling if they were fiction instead of fact.

Pode ver-se um trailer do filme aqui. É claro que o filme (e Al Gore) já estão a ser atacados pelas companhias petrolíferas. Por cá, o assunto sempre foi motivo de chacota dos blogues da direita liberal, embora nem sempre da melhor maneira. Por exemplo, gostava de saber com que base científica tradutores escrevem textos destes. Se o Rui Oliveira parasse para pensar, talvez concluísse que o facto que refere só é possível justamente por o homem então não existir. O homem não podia existir nessas condições. Pelos vistos tais condições climatéricas são "naturais" para o Rui Oliveira; se evoluirmos (ou regredirmos) nesse sentido a Terra voltará a ser inabitável, mas isso é só um pequeno pormenor para quem talvez até acredite que a habitabilidade do planeta só depende da vontade divina. Se o Rui Oliveira não fosse demagógico, talvez fizesse bem em ver o filme antes de escrever graçolas tão básicas.

Oh captain my captain



O melhor reforço da época.

2006/06/01

No Dia Internacional da Criança

(Estes dias nem sempre têm a palavra "internacional" associada. Este dia vem do "Ano Internacional da Criança". Eu gosto de "internacional", e só observo dias "internacionais".)

Neste dia, e para culminar a divulgação que aqui tenho feito do excelente álbum ao vivo In Cité de Lenine, proponho a audição da versão nesse mesmo álbum de Relampiano, de Lenine e Paulinho Moska. À distância de um clique.

O bem e o mal segundo André Azevedo Alves

...são respectivamente o Opus Dei e o Código da Vinci. Nada de que não desconfiássemos, mas é sempre bom ter uma confirmação pelo próprio.

2006/05/31

Das purezas ideológicas

Oitenta anos depois do golpe de 28 de Maio, parece que uma certa direita "moderna" e muito revisionista (na pessoa de dois jovens historiadores) põe abertamente em causa a natureza fascista do salazarismo. Pode com certeza discutir-se quão "fiel" à ideia original do fascismo, de origem italiana, era o regime em causa. Desde que não se conteste a sua natureza ditatorial e repressiva, tudo bem. Há muitas ditaduras de direita. Nenhum regime político é "puro", como na doutrina. A política tem muitas nuances. Mas não me incomoda que digam que Salazar não era fascista. Eu, por exemplo, digo que Estaline não era comunista.

Espécie protegida

Na Alemanha, os caracóis são uma espécie protegida. Os alemães ficam felizes quando vêem um.

2006/05/30

Como se dividem as pessoas

Embora haja quem venha sempre com a lengalenga de que não se deve catalogar as pessoas e coisa e tal, a verdade é que a construção de modelos e a identificação de padrões fazem parte do meu trabalho de cientista. Por isso não resisto a este tipo de classificações. Só aqui têm três. Enquanto eu acabo de sacar todas as fotografias da Alemanha para pôr algumas aqui (devidamente comentadas), sugiro-vos qu epensem nalgumas divisões. A mais óbvia, a primeira que aprendemos, é entre a esquerda e a direita. Depois aparecem os chatos dos centristas... Há também os benfiquistas e os sportinguistas. Mas depois aparecem os chatos dos portistas... Eu proponho as pessoas que sabem a diferença entre porque e por que e as que não sabem (para estas é sempre "porque"). Pensem em mais divisões.

2006/05/29

Europa

Faz hoje um ano que a Europa sofreu um sério revés. Ficaram patentes as ameaças que uma Europa forte e unida sofre e a força dos seus inimigos. Os perigos e as ameaças a que a Europa está sujeita é o que pretende simbolizar a escultura na fotografia, da autoria da portuguesa Filipa César e em exposição, em conjunto com outras 24 estrelas europeias, na praça do Hôtel de Ville em Paris. Ao fundo o Hôtel de Ville, cheio de bandeiras francesas.

2006/05/28

Mau tempo

Sempre brinquei com a excitação dos meus anfitriões cada vez que, nos EUA, estava um dia de sol. Ficavam logo entusiasmadíssimos, diziam-me “look, the sun is shining!”. Se pudessem iam logo estender-se na relva a apanhar sol. Eu olhava-os com indiferença (para não dizer com desdém) e respondia-lhes que, na terra de onde eu vinha, o sol brilhava quase todos os dias, todo o ano.
Agora compreendo-os melhor.
Só hoje temos um verdadeiro dia de sol. Nos outros dias tem estado sempre a chover.

Verde

A Alemanha é verde. Muito verde. As autoestradas seguem sempre no meio de florestas, onde é verdadeiramente agradável viajar. São muito diferentes das autoestradas do sul da Europa ou da vizinha Holanda. Parecem as “parkways” de Long Island, em Nova Iorque, planeadas por Robert Moses: verdadeiros parques. E sem limite de velocidade.

2006/05/26

Chauvinismo frances (sem acentos, de Heidelberg)

Isto é tal e qual a Alsacia (mas sem Kronenbourg).
Nélson, alguma vez experimentaste tarte flambée de salmao com espinafres? E supimpa.

2006/05/25

Na Alemanha

...para visitar velhos amigos (dos gloriosos tempos dos EUA) que há muito não vejo. É a minha primeira estadia neste país. A tarde passada na Alemanha quando fui visitar o Nélson no tempo em que ele bebia Kronenbourg e comia tarte flambée (limitámo-nos a atravessar o Reno a pé a partir de Estrasburgo) foi cheia de acontecimentos, mas mesmo assim foi só um "aquecimento". A Alemanha a sério vem aí. Por quatro dias, a partir de hoje.

2006/05/24

The Republican Left-Wing

Seria esta a tradução para inglês de "esquerda republicana", e se de política americana se tratasse julgar-se-ia estar na presença de um blogue de apoio à candidatura presidencial de John McCain. Ainda mais com textos como este, do meu velho camarada Rui Fernandes (que tem toda a razão, por sinal). Mas não: trata-se do "velho" Esquerda Republicana, fundado pelo Ricardo Alves e agora enriquecido, para além do Rui, com o "outro Ricardo" e o João Vasco. Tudo malta da LEFT, tudo boa gente. Se a isto acrescentarmos o Filipe Castro (que escreve directamente do Texas, e cujos comentários no BdE eu muito apreciava), temos reunidas as condições para um interessantíssimo blogue. Está de parabéns o Ricardo "fundador" pela equipa que conseguiu reunir. Vamo-nos lendo.

2006/05/23

Lápis!

Não adianta vir com lapiseira para mim,
é com lápis que eu quero escrever!




E o irritante que é, em inglês, pedir um lápis e receber uma lapiseira? E se se insiste "no, I want a pencil", ainda olham para nós como se fôssemos estúpidos e respondem "but this is a pencil!" O inglês é mesmo uma língua muito pobre. Não tem tradução de lapiseira e nem o equivalente a "meta-a pelo cu acima", que é a única resposta que merece quem se atreve sequer a insinuar que uma reles lapiseira é um lápis.
Há hábitos que eu nunca hei-de perder. Não me desabituo de usar o velho "pine" para ver o email (em ambiente linux) - é o único que faz "plim!" cada vez que surge uma mensagem nova! E nunca deixarei de escrever com lápis. Lápis autêntico, de madeira, com bico grosso ou fino. Nunca me habituei às lapiseiras. Sempre tive "mão pesada" (tudo o que requeira sensibilidade não é para mim), e sempre que tentei usar uma lapiseira parti o bico em três tempos. É evidente que há alturas em que se tem que escrever a tinta, mas sempre que posso para mim não há nada como escrever a lápis. É a lápis que eu faço todos os meus cálculos à mão. É fácil de corrigir erros e apagar. Adoro lápis e é daqueles objectos que gosto de coleccionar. Desde a escola fico doente sempre que perco um lápis. Guardo lápis há anos. De todos os institutos e países por onde passei. Mas os primeiros que me lembro, os primeiros com que escrevi, que foram deixados pelo meu avô materno, eram iguaizinhos aos da figura. Da Viarco. A Viarco que faz este ano 70 anos. Parabéns e espero que cumpram outros 70. E que vivam os lápis.

Teimosia (às três da manhã)

Há mais de uma hora que estava para colocar uma fotografia no servidor do blogger. Não conseguia. Às vezes o blogger.com tem destas coisas. Às vezes é a minha ligação à internet. Não era para uma entrada "urgente". É para uma entrada em projecto. Não importa. A fotografia tinha que ser "subida" hoje. Nem pensava noutra alternativa. Nem punha outra hipótese que não fosse subir a fotografia hoje. Passei mais de uma hora a ler o jornal, a escrever emails, a escrever outras coisas. E ia tentando. Finalmente a fotografia está no blogger.com, à espera da entrada. Vou-me deitar. Boa noite.

2006/05/22

Às Ordens

A recente (e lamentável) decisão unânime da Assembleia da República de só autorizar licenciados em arquitectura a assinar projectos é uma lamentável cedência à pressão corporativista da Ordem dos Arquitectos, surpreendentemente aplaudida por um dos arautos do liberalismo (no que foi logo - e muito bem - contradito).
Esta discussão sobre as Ordens profissionais interessa-me e tem muito mais a ver com a discussão anterior com o Santiago do que se possa julgar. As Ordens profissionais fazem sentido para atestar competência científica em profissões que requeiram o seu emprego de uma forma que diga respeito à sociedade e ao cidadão. Faz sentido uma Ordem dos Médicos? Sim, queremos ter confiança em quem nos atende nos hospitais. Faz sentido uma ordem dos advogados? Sim - é preciso quem nos garanta que o advogado a quem recorremos, apesar de ter um bom diploma por uma boa universidade, não é um vigarista. Faz sentido uma ordem dos engenheiros? É possível que sim, mas é mais discutível. Não queremos pontes que caiam nem instalações que não funcionem. Faz sentido uma Ordem dos Biólogos? Creio que não. Há outras formas mais fiáveis de se avaliar a competência de um biólogo, como o peer-review. E um bom biólogo deve sempre publicar, mesmo que trabalhe em projectos para a sociedade. Faz algum sentido que membros de uma "Ordem" que não produzem investigação nenhuma estejam a avaliar cientistas activos? Creio que não. Uma Ordem dos biólogos faz tanto sentido como uma ordem dos matemáticos ou dos físicos - ainda bem que ninguém se lembrou de tal ideia. Uma Ordem dos economistas, faz algum sentido? Pelos mesmos motivos, tanto quanto uma Ordem dos historiadores - nenhum. Uma ordem dos professores? Muito discutível. Embora o mérito pedagógico seja indispensável, tal ordem tenderia a proteger ainda mais os licenciados "via ensino", que já são escandalosamente protegidos nos concursos.
Apesar de tudo estas profissões que vim a enumerar requerem sem dúvida competência e aptidões científicas (chamemos-lhes assim), mesmo que não sejam profissões "científicas". Disso ninguém duvida. Agora, que aptidões científicas são necessárias para a profissão de arquitecto? Existirão, mas muito menos do que para as profissões anteriores. E podem sempre ser julgados... pelo engenheiro civil responsável, a quem deve sempre caber a última palavra sobre uma obra. No fundo uma Ordem dos arquitectos faz tanto sentido como uma Ordem dos poetas ou dos realizadores de cinema ou dos jogadores de futebol. São áreas que de científicas não têm nada; requerem sobretudo talento, algo que não se aprende (ao contrário das verdadeiras ciências, que se para serem exercidas também requerem talento, para serem aprendidas basta esforço). O esforço não basta para fazer um bom arquitecto, e para julgar o seu talento temos a sociedade. Não me parece que seja precisa uma Ordem. Mas essa Ordem existe e tem poder, como se vê.
Não quero acabar sem comentar que, nas recorrentes discussões sobre o eduquês que se vêm na blogosfera, estas diferenças não são tidas em conta. Parece-me haver no eduquês uma confusão entre o talento e o esforço, que resulta sempre no prejuízo deste último.

2006/05/21

A seguir a Abril vem Maio

...e com Maio vem finalmente uma lista de ligações, algo que já andava para fazer deste o início deste blogue e só não tinha ainda feito por preguiça. Aproveito para agradecer a todos os que ligaram ou de alguma forma divulgaram este blogue.
Falando em lista de ligações, uma das minhas curiosidades era saber em que categoria ia ficar nas ligações do Esquerda Republicana, um blogue entretanto bastante renovado (este hábito de catalogar as coisas, Ricardo...) Esquerda mais ou menos radical? Esquerda mais ou menos moderada? Nem uma coisa nem outra. Fiquei ao lado do meu amigo, ex-companheiro de blogue e agora também esquerdista republicano Caetera e fiquei muito bem.

2006/05/20

Os museus de Paris

Quando vai decorrer mais uma edição da noite dos museus (sobre este assunto já me expressei aqui), cheguei à conclusão de que uma das coisas de que mais gosto em Paris é a enorme oferta cultural, e sobretudo a quantidade de diferentes museus e exposições. Mesmo quem, como é o meu caso, já visitou todos os grandes museus de Paris (e a grande maioria dos pequenos), encontra sempre algo diferente para fazer no fim de semana. E os parisienses aderem à enorme oferta cultural da cidade. Mal seria se não aderissem, mesmo se ela é feita em grande parte dos casos sobretudo a pensar nos (muitos) turistas que visitam a capital francesa em todas as estações do ano e que a fazem um dos principais destinos mundiais. Também por isto é um privilégio viver em Paris. E em qualquer exposição razoavelmente importante que se vá, seja no Petit Palais ou no Instituto do Mundo Árabe, seja no Centro Pompidou ou no Hôtel de Ville, é certo e sabido que se vai ter que estar na fila para entrar, seja a exposição gratuita ou paga. É uma das sensações que me são mais familiares em Paris. Eu, que embora seja teimoso e tenaz sou em geral muitíssimo impaciente, gosto de estar na fila com os parisienses (sim, costumo estar com os parisienses, mais do que com os turistas que só vão para os grandes museus) para entrar numa das muitas exposições da cidade e desfrutar desse enorme privilégio que é estar em Paris. Sinto-me bem no meio desta gente. Sinto que sou um deles.

2006/05/19

Grande fête

Aos leitores que procuram o blogue escandaloso sobre Merche Romero

...anunciado numa notícia que vinha na primeira página do Correio da Manhã e que chegam aqui, via google, graças a um comentário nesta entrada, com a informação do tal blogue (antes de ele ser escandaloso): aqui nunca se falou na Merche Romero. Mas continuem a vir, que são bem vindos.

(Entre outras coisas acusam a pobre Merche de "pedofilia" (!!!) "por ter mais dez anos do que o craque do Manchester". Independentemente da ignorância sobre o que é realmente a pedofilia que tal revela - mas o que esperar de um blogue anónimo? -, a questão é sempre a mesma: o que diriam se fosse ao contrário? Se - sendo ambos adultos - o Cristiano tivesse mais dez anos do que a Merche?)

2006/05/18

Sem sair de Paris, rive gauche

Concordo com o Santiago (aqui e aqui) que faz sentido uma distinção entre áreas fundamentais e áreas aplicadas da ciência. Se a tecnologia é ou não ciência é pura semântica. Mas não é por acaso que nos governos da direita os ministros com a pasta da ciência eram engenheiros (um agrónomo e uma mecânica), e no actual e nos anteriores governos do PS o ministro da ciência é um físico "puro" (e não "aplicado").
Há áreas do conhecimento - e a área em que eu trabalho é uma - que não são, nunca serão, não podem ser autosuficientes financeiramente. Que requerem financiamento exterior, que ou virá de filantropos excêntricos - o melhor exemplo que eu conheço é o de Jim Simons - ou virá da sociedade. Dos nossos impostos. Não há volta a dar-lhe. Os governos da direita, e muitos dos liberais que escrevem na blogosfera, tenderão a desvalorizar a investigação fundamental, por não "criar dinheiro". Não podemos cair no erro de fazer o oposto, e considerar que, lá por outras áreas do conhecimento poderem gerar dinheiro por terem uma aplicação mais imediata, são menos importantes. Se são ou não "ciência", acho que tem que se arranjar outro critério que não simplesmente o modo como são financiadas... Eu confesso que me faz um pouco de impressão ver a invenção do transístor premiada com um prémio Nobel, mas já toda a área dos semicondutores requer a sua teoria, uma física nova, onde se descobriram comportamentos que não se conheciam antes. Toda a física da matéria condensada é uma história de avanço de braço dado da ciência pura e da tecnologia. Mas mesmo a física das interacções mais fundamentais, como a que se estuda no CERN, requer a tecnologia mais avançada. A participação de cientistas portugueses nas experiências do CERN, por vezes tão criticada por "cientistas" mais "aplicados" (aqui uso mesmo as aspas), requer um investimento por parte do governo, mas constitui uma oportunidade para muitas empresas portuguesas de tecnologia de ponta, que têm acesso a contratos que, se Portugal não fosse membro de pleno direito do CERN, não teriam.
Concluindo: em vez de se perder mais tempo dentro das ciências naturais (fundamentais ou aplicadas) a discutir o que é ou não "ciência", sugiro que se passe antes a discutir por que razão as humanidades são financiadas pelas mesmas entidades que a ciência, quando têm objectivos e critérios de avaliação totalmente diferentes. Creio que as humanidades deveriam ter um orçamento próprio, dependente do Ministério do Ensino Superior, claro, mas fora do da ciência. Este ponto, sim, creio que vale a pena discutir.

2006/05/17

Experiência

Entretanto passei eu esta noite por uma experiência muito intensa. Entre outras coisas, também envolveu messengers e telemóveis.

O amor e a sua correspondência

Lindo, ou não fosse escrito pela Ana Sá Lopes. Não sei quanto tempo é que a crónica da Vanessa vai ficar disponível, pelo que a transcrevo aqui toda.

«A banalização do telemóvel criou a ilusão do objecto omnipresente. Numa posição de omnipresença, um objecto de paixão passou a ter a "obrigação" da resposta imediata a qualquer estímulo, sob pena de provocar o sofrimento do outro.

A angústia da perda passou a estar associada a trivialidades - pode acontecer, vertiginosa, quando se esgotou uma bateria; ocorre quando o amor se passeia displicente em lugares sem rede; e pode disparar a níveis clínicos quando o objecto amoroso, usando um direito inalienável de autodeterminação, decide desligar o telemóvel.

No amor, o telemóvel fez disparar o stress, a ansiedade, as angústias da rejeição e outras malaises de la civilisation. Um telemóvel desligado é uma providência cautelar para uma ruptura. Um presumível sintoma de infidelidade. Um fechar com a porta na cara. Um não, uma nega, uma tampa.

O telemóvel é caro, mas o amor tende a minimizar o impacto económico das medidas a que, no auge da paixão, recorre. E depois há as sms, esse deslumbrante e mais económico instrumento de sedução, mas - também ele - uma grilheta dos amantes. Os segundos de resposta, os minutos, as horas, tudo é contabilizado para avaliar o impacto de um amor.

Institucionalizados os novos rituais do enamoramento, não importa se o objecto costuma estar sequestrado na Biblioteca Nacional ou vive em audiências contínuas com díspares personalidades; se, por qualquer razão que o coração se esforça por desconhecer, não vive com o maldito computadorzinho na mão, em permanente disposição de disparar uma resposta irredutível.

O mail tem um tempo mais distendido, se excluirmos as pessoas cuja profissão as obriga a estar permanentemente em frente do computador. Estas são ainda fustigadas com o monstro do messenger, que, de borla, obriga ao diálogo contínuo.

Mas a minha amiga Vanessa, que num estado de paixão patético tem passado o último mês a escrever mails ridículos, sms ridículas e a contar os segundos da resposta, teve um destes dias um inesperado e surpreendente ataque de felicidade amoroso: recebeu uma carta. Um postal dos correios. Um envelope com selo e tudo. Quando abriu a caixa e viu que não eram só contas, ia desfalecendo. Uma carta. Uma carta? Sim, só um grande amor.»

2006/05/16

A blogosfera portuguesa


...foi o objecto de um extenso artigo e da capa, no mês passado, do boletim Cap Mag, da associação francesa de jovens lusodescendentes Cap Magellan. O referido artigo é baseado na síntese 25 momentos na história da blogosfera, já disponível na rede, à qual são acrescentadas referências a blogues culturais, literários e de lusodescendentes em França.
Tentei arranjar a Cap Mag no local habitual (balcão da Caixa Geral de Depósitos...) e na noite do Portugal no Coração no Hôtel de Ville (a associação Cap Magellan era uma das entidades organizadoras). Não consegui, mas a associação teve a delicadeza de me enviar uma cópia da revista para casa. Desejo aqui agradecer publicamente.

2006/05/15

Assim se vê a idade

Uma directa, no sentido estrito do termo, é passar uma noite em claro e só voltar a dormir na noite a seguir.
Fiz algumas directas na licenciatura, como toda a gente. Quando estava a fazer o meu doutoramento também. Uma delas foi quando estava a preparar um seminário sobre a minha investigação, no meu instituto. Era às 13 horas. Passei a noite toda lá, e como bom português que sou (não deixo os créditos por mãos alheias), estava a imprimir os acetatos às 12:30. Meia hora antes. E dei o seminário com uma directa.
Lembrei-me desse seminário nesta semana que acabou, na qual passei duas noites sem dormir a preparar o seminário que dei na sexta-feira. Mas não fui capaz de aguentar até à noite sem dormir. Em ambos os dias fui deitar-me de manhã, mas tive de dormir umas horas. Ou seja, já não sou capaz de fazer uma directa. Se a isto acrescentarmos que já não deixo a preparação do seminário para a última da hora, assim se vê como me estou a tornar velho e sem graça.

2006/05/14

No jazz com o dissimulateur

Esta não ficou registada, mas garanto-vos que é verdadeira.
Em que estaria a pensar o Primeiro Ministro francês no sábado à noite? Estaria preocupado com o affaire Clearstream e com a possibilidade de ter que vir a abandonar o governo em breve? Estaria aborrecido por não se ter visto livre do seu rival Nicolas Sarkozy? Estaria apreensivo com o relatório que nesse mesmo dia o Libération publicava? Aparentemente não era em nada disso que Dominique de Villepin pensava.
No sábado à noite fui com amigos ao Festival Jazz à Saint-Germain-des-Prés, mais concretamente à Maison des Pompiers do 6ème, ali a St. Sulpice. O concerto era ao ar livre. E quem estava incógnito, no meio da multidão? Dominique de Villepin em pessoa, ouvindo a música, trocando sorrisos com a companheira que de vez em quando abraçava. Um grupo de vários portugueses e portuguesas, italianas e um dinamarquês poderão confirmar.
Surgiu a ideia de pedirmos (alguns de nós) para tirar uma fotografia com o senhor. (É curiosa esta nossa reacção - incluo-me no grupo. Nenhum dos franceses presentes queria ir tirar uma foto de Villepin, e não creio que os portugueses quisessem com Sócrates.) Eu fui mesmo incumbido de ir falar com o primeiro ministro. Diria qualquer coisa do tipo «Bonjour, mr. Villepin. Nous sommes un groupe d'étudiants portugais. Nous ne voulons pas protester...» Só que não havia máquina fotográfica. Ninguém tinha. Bem feita - eu deveria saber, deveríamos todos saber que em Paris anda-se sempre com uma máquina fotográfica.
O mínimo que posso fazer é tentar aqui reconstruir a fotografia que ficou por tirar. Eu estou mais abaixo, ao lado do Rochemback. O Sandro e o Rui estão aqui. Quanto ao Villepin, deixo-vos com a capa do dia do Libération, que ele próprio e todos os parisienses tinham visto antes do concerto em todas as bancas.

2006/05/13

O clube das metamorfoses

Primeiro, foi o presidente que deu o dito por não dito e afinal já era candidato à presidência.
Depois, foi o capitão da equipa que deu o dito por não dito e afinal já queria jogar mais um ano.
Será que agora o treinador não pode dar o dito por não dito e dizer que, afinal, conta com o capitão? Se não fizer isso também estará a dar o dito por não dito, só que neste caso o dito há um ano, quando criticou publicamente as saídas do anterior capitão e do lateral esquerdo.

2006/05/12

Antes fosse a lutar com o latex!

Conforme bem notou o Nelson (sem acento, embora em português se escreva Nélson) é LaTex e não latex (este último é uma borracha usada no fabrico de preservativos...). Era para alterar o texto, mas depois li a frase «Após duas noites muito mal dormidas a lutar com o Latex...» e deixei estar. Antes tivesse sido essa a razão por que eu esta semana dormi pouco.

Durma-se com um software destes

Após duas noites muito mal dormidas a lutar com o Latex, terminei o ficheiro com a apresentação do meu seminário. Costumava dar seminários em acetatos (impressos), mas achei que estava mais do que na hora de me converter às apresentações electrónicas. Só que, com as fórmulas complexas que tenho que apresentar (e que nos artigos têm imperativamente de ser escritas no Latex), continuei a trabalhar neste software, procurando na internet os programas que me permitiriam fazê-lo. Só então vi bem (mais uma vez!) a paciência que é preciso ter com o software de distribuição gratuita (open-source). Não só existem mil e uma versões diferentes, como cada uma dessas versões tem instruções diferentes de instalação e utilização. Por vezes, a mesma versão em locais diferentes tem instruções diferentes.
Especificando: tinha a usar uma package do Latex chamada Prosper. O objectivo era obter um ficheiro .pdf todo semelhante aos do PowerPoint, só que com as fórmulas todas (e sem ser da Microsoft, o Bill Gates e coisa e tal). As intruções diziam que eu tinha que usar um comando chamado pdflatex. Instalei tudo e a coisa nada de funcionar. Aparentemente antes de ter instalada aquela package, tinha que ter instaladas mais não sei quantas packages. Que não tinha. (A instalação não é autosuficiente, portanto.) Todas essas packages existem para sacar em não sei quantas versões (sem nenhuma versão oficial, que no software de distribuição gratuita é coisa que não existe), e a package Prosper não funciona com todas essas versões. Falei com um colega (algo que deveria ter feito de princípio), que me disse onde poderia usar a tal package em Linux, já instalada (nos computadores da universidade), e que nunca deveria usar o pdflatex: teria de ser o latex normal, seguido de um comando chamado dvipdf -sPAPERSIZE=a4. Lá tive de me ligar aos computadores da universidade e acabar o trabalho lá. Tudo correu bem, mas muitas horas foram perdidas com estas "experiências". Cada vez que um tipo se mete com o software livre dá nisto - ou se é basicamente um engenheiro informático e se conhecem todos os comandos do Linux, ou perdem-se horas, dias, sem nunca se perceber o que se passa.
Finalmente outros dois colegas (com quem eu deveria ter falado à partida) revelaram-me que existe um conversor (de distribuição gratuita...) de Latex para PowerPoint, que permite usar este último sem ter que estar a reescrever as fórmulas todas. Palavra: eu tenho a maior simpatia por todo o software de distribuição livre, mas também tenho a maior simpatia pelo meu tempo (e já não tenho idade para fazer directas a trabalhar). Acho que me vou converter ao tal conversor.

Adenda: a ligação segura aos computadores da Universidade é feita pelo Putty, um simpático programa de ligação a uma máquina Linux a partir de um computador Windows. É um programa muito simples, de distribuição livre, e que se saca sempre do mesmo sítio. Já uso o Putty há anos e nunca me deixou ficar mal.

2006/05/11

Get physical

Se isto fosse verdade, seria a melhor maneira de converter o Pedro Mexia à Física Teórica. Mas é mentira, pelo menos na maior parte dos casos que eu conheço. É verdade nos caos que lá são referidos... Talvez seja assim, em última instância, que se distingue um bom físico de um físico vulgar.

2006/05/10

Força Roca!

Aeroporto de Lisboa, zona de embarques, Janeiro de 2006

Agora já não és treinado pelo Peseiro, e não vais perder a mesma Taça na final dois anos seguidos!

2006/05/09

Parabéns ao Benfica

«Koeman paga 500 mil euros para sair», anuncia o Record. Evitam ter que despedir o treinador (no fundo aquilo que mais desejavam) e de o indemnizar, e ainda por cima recebem 500 mil euros por quebra de contrato. Desde a venda pelo FC Porto do Secretário ao Real Madrid que eu não via um negócio tão bom no futebol português.

2006/05/08

Lugar comum

Se há coisa com que eu embirro é com o uso da expressão "lugar comum" (não com a expressão em si). Embirro com quem a usa, pelo que ela tem de crítica à "falta de originalidade", sendo que quem a usa na maior parte das vezes não é nada original. Não há nada menos original do que usar a expressão "lugar comum". Não há maior lugar comum do que dizer que algo é um "lugar comum".
Serve este texto para saudar o aparecimento de mais um blogue colectivo, lugar comum da Susana, do Afonso, do Lutz e do Luís. O título (excelente para um blogue, principalmente colectivo) promete. A qualidade dos escribas não vai decepcionar. E desculpem o lugar comum.

2006/05/07

Só as mães são felizes

Uma música para o Dia da Mãe. Não aconselhável a pessoas especialmente sensíveis.

2006/05/06

«São Paulo dá café...»

Quanto à questão posta pelo Rui, a resposta foi dada pelo Noel Rosa na primeira metade do século passado, numa frase lapidar que eu reproduzi aqui. Como diria um baiano omnipresente, São Paulo tem «a força da grana que ergue e destrói coisas belas.» São Paulo é o avesso do avesso.

«Voto no Lula»

«É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido o escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos). Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer "espera aí". Quando aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do Senado dizer que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante --aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas.»

«o preconceito de classe contra o Lula continua existindo --e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: "Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?". Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! --até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. "Agora sai já daí, vagabundo!". É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. "Agora volta pra senzala!".»

«Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: "Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa sacos".»

«Quando ele [Caetano Veloso] fala que as pessoas do atual governo se cercam da aura de esquerda para justificar seus atos e reivindicar para si uma posição superior à dos demais, tudo isso também vale para o governo anterior. Os tucanos costumam carregar essa aura de esquerda com muito zelo. Volta e meia os vemos dizendo que foram contra a ditadura, que são intelectuais de esquerda. Fernando Henrique foi eleito como candidato de centro-esquerda. Na época a vice entregue ao PFL parecia algo estranho. Depois se provou que não era. As pessoas se servem do passado de esquerda como se fosse um título, um adorno. Na prática política efetiva essa identidade não funciona mais. Mas não funciona não apenas porque as pessoas viraram casaca. A história levou para isso. Levou o PSDB a se tornar o que é e obrigou o PT a abdicar de qualquer veleidade socialista ou revolucionária.»

«Percebo nesses grupos [de oposição de extrema-esquerda] um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula. Acompanhei o PT desde a sua fundação e vi de perto muitas dessas discussões. Em 1985, na eleição à prefeitura de São Paulo, eu achava que o Fernando Henrique era o único candidato da esquerda capaz de derrotar o Jânio Quadros. O PT lançou o [atual senador Eduardo] Suplicy. O que eu briguei com gente do PT --e por causa do Fernando Henrique Cardoso (risos). A candidatura do Suplicy no fim ajudou a eleger o Jânio Quadros.»

«Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chamados chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.»

(Chico Buarque em entrevista à Folha de São Paulo, via Caetera.)

2006/05/05

What a larger Europe needs is small countries able to think big

Um interessante artigo de Timothy Garton Ash (recomendado originalmente pelo André).

A deportação de portugueses no Canadá

Não julguem que é assunto pacífico entre os canadianos. A comprová-lo está este vídeo, por um comediante local.

2006/05/04

Carioca



O disco mais esperado dos últimos sete anos chega hoje às lojas. Carioca, é esse o título.
(Os discos do Chico Buarque são como os títulos de campeão do Sporting: são raros e temos sempre medo que sejam os últimos. Ouvimo-los e celebramo-los como se fossem os últimos. No fundo, está tudo dito na Construção.)
Olhando para o repertório, das doze músicas a maioria é inédita: só Ode aos Ratos é uma regravação (a música já estava, com um arranjo diferente, em Cambaio, de 2001). Dura na queda, uma música recente, foi gravada no último álbum de Elza Soares, mas é interpretada pela primeira vez num álbum de Chico. O mesmo vale para Imagina, uma parceria com Jobim. Ouvir Chico cantar Imagina é para já a minha maior expectativa, enquanto não ouço o álbum todo.
Enquanto não o ouvimos, contentemo-nos com uma música homónima originalmente no álbum As Cidades, mas numa versão ao vivo.

(Ó Ana, diga qualquer coisa. Pare lá com a greve.)

2006/05/03

Os paradoxos do sindicalismo

«De acordo com um estudo, de 2004 da Comissão Europeia, a taxa de sindicalização dos trabalhadores portugueses era de 24,3% em 1997, só acima da espanhola (15,7%) e da francesa (9,8%). E muito abaixo da dos países nórdicos, que oscilava entre os 75% e os 82%», lê-se no DN.

Mas por que será então que este resultado contraria um pouco o nosso senso comum? Os países que afinal têm uma taxa de sindicalização mais baixa são os que geralmente associamos a um movimento sindical mais forte, e (principalmente a França) onde se registam as maiores paralisações, as greves de parar o país todo...
Talvez o erro esteja na associação "maiores protestos" e "maiores greves" a "sindicatos mais fortes". Nos países nórdicos há menos greves, mas muitas vezes os sindicatos têm mesmo uma palavra a dizer na administração da empresa (algo que em Portugal e em França seria impensável, e aqui as culpas repartem-se entre trabalhadores e patrões). Numa palavra, os sindicatos têm mais responsabilidades.
Compare-se os países nórdicos com o extremo oposto, a França - veja-se o caso recente do CPE e dos exageros associados às manifestações, mesmo se por um motivo justo. Mas talvez os estudantes e os trabalhadores não tivessem outra alternativa: só assim seriam ouvidos.
Os números não enganam: nos países nórdicos há menos greves e menos conflitualidade social. Os sindicatos são mais fortes e conseguem mais frequentemente os seus objectivos.

Soy loco por ti América (II)

O "libertador" Hugo Chávez, por João Morgado Fernandes no DN.

2006/05/02

Soy loco por ti América

Restaurante hispânico encerrado em Dallas, no 1º de Maio, por solidariedade para com os imigrantes. A nota está escrita em espanhol e inglês.

Enquanto vivi nos EUA os feriados eram diferentes, não só obviamente os nacionais mas mesmo os religiosos - onde eu vivi prestava-se menos atenção aos feriados cristãos e mais aos judeus, e isso era natural. O que me fazia confusão era não se celebrar o 1º de Maio - o "dia do Trabalhador" nos EUA é a primeira segunda-feira de Setembro, um feriado para se passar em família antes do regresso às aulas e... ao trabalho. Não compreendia e nunca aceitei como poderia não se celebrar este feriado, principalmente tendo em conta que as suas origens ocorreram em território americano, com trabalhadores americanos. Aquele país não quer saber mesmo nada das lutas dos trabalhadores e da duração das jornadas de trabalho.
(Não é bem assim: existem sindicatos nos EUA, e não me admiraria que a taxa de sindicalização dos trabalhadores fosse bem superior a em Portugal. Simplesmente actuam de outra maneira.)
De qualquer maneira, não se celebrar o 1º de Maio não me parecia digno de um país civilizado.
Ao mesmo tempo, do que eu mais gostava nos EUA era da forte presença imigrante, que traz àquele país características únicas. Os "americanos" não existem; vêm de todo o mundo. E a grande força dos EUA sempre foi o abrir-se à imigração. Dentro desta, merece particular destaque a imigração hispânica, os "latinos". Foram os que eu conheci de mais perto.
É com um sentimento de alívio que eu vejo os "latinos" a manifestarem-se nos EUA, a demonstrarem a sua força e a sua importância, e a escolherem para essa data - certamente não por acaso - o 1º de Maio. Talvez no futuro o 1º de Maio venha a ser recordado não só como o dia do Trabalhador mas também como o dia do Imigrante. Vejo estas manifestações e imagino o meu sonho a cumprir-se - a língua espanhola a civilizar aquele país. Uns EUA sem perderem as suas características - o voluntarismo, o optimismo, a confiança, a ambição, o trabalho, ... mas "latinizados". O mundo só teria a ganhar com isso.

2006/05/01

"Somos América!"

Imagem de uma manifestação de imigrantes hoje em Times Square, New York

120 anos

Foi precisamente há 120 anos que, nos EUA, os trabalhadores iniciaram uma greve geral com vista ao estabelecimento de uma jornada de trabalho de oito horas. Houve protestos sangrentos no Haymarket em Chicago. Desde então esta data foi adoptada como Dia Internacional do Trabalhador. Ironicamente, não é comemorado oficialmente nos EUA, embora este ano prometa ser agitado.

75 anos


aqui tinha referido que é necessário todas as (belas) cidades terem um edifício alto e feio, de onde se possa mirar a cidade sem se ter pena de não se estar a mirar esse edifício. Para isso Paris tem a Torre Montparnasse. O equivalente em Nova Iorque poderia ser o feioso Empire State Building, mas infelizmente nem assim se consegue deixar de ver o Chrysler Building (como se vê na fotografia - é o que está por trás), com uma cúpula ainda mais horrível. Nova Iorque está mesmo a precisar de um novo World Trade Center, de preferência tão bonito e tão sóbrio como o anterior.
Apesar de tudo o Empire State Building é um edifício feio mas simpático. Permite-nos vistas espectaculares do Central Park e do Harlem como mais nenhum, e ainda de New Jersey, de Long Island e do sul de Manhattan. As cores da cúpula variam consoante a data e a ocasião (ver aqui). A 7 de Setembro de 2001 eram verde e amarelo (dia do Brasil). A 10 de Junho de 2003, e durante essa semana, eram verde e vermelho (dia de Portugal). É um ícone geográfico e histórico e merece respeito. Faz hoje 75 anos.

2006/04/30

Abril sempre

Nélson, e se retomasses a série, pelo menos por mais um mês? Pode ser que te queiram lá na Abril em Maio.

2006/04/29

Divulgando a ciência

Via Conta Natura, chamo a atenção aos interessados (entre os leitores do Avesso do Avesso deve haver vários) para o Primeiro encontro de Comunicação de Ciência. É um assunto que me interessa e a que me vou dedicar por algum tempo em breve. Bem gostaria de lá estar se pudesse.

2006/04/28

"Devolver o Sporting"... a quem?

É repetindo o lema "devolver o Sporting aos sócios" que uma lista, da qual fazem parte (um como apoiante e dois como membros da direcção) as três figuras ao lado, se apresenta. Mas "devolver" o quê, a quem?
Comecemos pelo candidato, Sérgio Abrantes Mendes. Não apresenta nenhuma alternativa concreta, para além das células fotovoltaicas na Academia (que até seriam uma ideia engraçada, mas não seria isso a viabilizar financeiramente o Sporting). Abrantes Mendes promete tudo: mantém uma equipa forte, mantém o eclectismo, não vende património. Só não diz como... A única coisa que afirmou foi que tinha um acordo com um banco credor do Sporting, no que foi logo de seguida desmentido pela administração desse banco.
De seguida vemos um antigo capitão, não de muito boa memória. Representa o pior período da história do Sporting, os dezoito anos sem títulos. Não saiu pela porta grande, e nem é especialmente bem recordado quando comparado com outros mais recentes. Desde então tem estado afastado do futebol; no entanto, recentemente foi convidado para integrar a equipa técnica. Fez saber que só aceitaria se fosse como chefe do departamento de futebol, apesar da sua experiência nula nesse tipo de cargos. Sempre se teve em grande conta este Oceano.
Finalmente, ao meio temos a Dona Isabel Trigo de Mira. Recentemente a Dona Isabel Trigo de Mira era a presidente dos Leões de Portugal, uma instituição particular de solidariedade social ligada ao Sporting, criada e mantida por sportinguistas e destinada a apoiar os sportinguistas mais necessitados, bem como o auxílio financeiro nos estudos dos "leões" mais jovens. Um daqueles pequenos pormenores que distinguem o Sporting, e que o tornam - que é - um clube diferente, sem paralelo.
Bem, mas o que afirmo de seguida não tem nada a ver com os Leões de Portugal, de cuja direcção a Dona Isabel Trigo de Mira em boa hora se afastou, a partir do momento em que é candidata à direcção do clube. Tem mais a ver com o tempo em que a Dona Isabel Trigo de Mira era mesmo membro da direcção. Não conheço a senhora, mas vejo-a como uma "invenção" de José Roquette, que teve continuação com Dias da Cunha. A missão da Dona Isabel Trigo de Mira era correr o mundo e "apoiar" os núcleos sportinguistas no estrangeiro, constituídos por emigrantes. É claro que estes núcleos merecem apoio - por experiência própria, afirmo que é comovente conhecer-se alguém que nasceu e sempre viveu fora de Portugal e sofre cada domingo pelo Sporting como quem vai a Alvalade. Eu conheci casos assim. Só que uma forma peculiar arranjada para promover esses núcleos de emigrantes era organizar jantares com a presença de figuras do clube. E quem era a melhor figura que o Sporting arranjava para se promover no estrangeiro? O Carlos Lopes? O Vítor Damas? O Jesus Correia? Não! Era... a Dona Isabel Trigo de Mira, que adorava estes jantares-convívio. Lembro-me de os ver anunciados nas lojas da comunidade portuguesa de Farmingville, em Nova Iorque, perto de onde vivi. Dois jantares no mesmo restaurante e com o mesmo menu, o de sportinguistas e benfiquistas. O do Benfica tinha presente o Eusébio. O do Sporting, para além de ser cinco dólares mais caro, em vez do Eusébio tinha a presença... da Dona Isabel Trigo de Mira, que é uma senhora muito preciosa (vale mais cinco dólares por cabeça do que o Eusébio). Fez parte das direcções de Roquette e Dias da Cunha, mas recusou (ou não foi aceite por) Soares Franco.
O principal, no entanto, é que se se falar com pessoas como a Dona Isabel Trigo de Mira e muitas pessoas que apoiam a lista de que ela faz parte, elas acham muito natural "representarem" o Sporting com viagens pagas, mesmo que não façam mais pelo clube do que isso. São eles os "verdadeiros sportinguistas". Alguns monárquicos, alguns antigos atletas, alguns dirigentes de má memória, que pouco ganharam mas que têm imensas saudades de si mesmos. E que não têm nada a ver com a realidade do clube hoje. Quando afirmam que querem "devolver o Sporting aos sócios", na verdade querem devolver o clube a eles mesmos. Para eles, "eles" são o Sporting. Está na altura de lhes provar que não têm razão.

2006/04/27

A simplicidade

O indiano Ashoke Sen é um dos líderes mundiais na comunidade dos físicos teóricos, na área da teoria das cordas. Doutorou-se na mesma universidade que eu e era lá visita frequente. Fazia-se acompanhar pela sua mulher, também indiana. Ambos formam um casal muito simpático e muito simples. A simplicidade de Sen traduz-se neste facto: poderia ser professor em qualquer das melhores universidades do mundo e ganhar muito mais dinheiro pelo que faz, mas prefere continuar na sua Índia natal e contribuir para o seu desenvolvimento científico. Valha-lhe o facto de ser respeitado, não só no resto do mundo civilizado mas, também, no seu país.
Para mim a melhor prova da simplicidade de Sen é este facto recente (com poucas horas): escrevi-lhe um email a colocar umas questões sobre o seu artigo mais recente, sobre a entropia de buracos negros, e exactamente no mesmo tópico em que estou a trabalhar. Mesmo assim deixem-me dizer com clareza: ao pé do Sen, eu não sou nada (e apesar de já o ter visto várias vezes, não o conheço pessoalmente). Pois Sen respondeu ao meu email em poucas horas, reconheceu que eu tinha razão na minha observação, argumentou a sua hipótese e terminou assim:

Please let me know if you agree.

With best regards

Ashoke


Já viram isto? Eu confesso que ainda estou nas nuvens.

O fim da internet como nós a conhecemos?

Não será ainda o fim, mas poderá muito bem ser o princípio do fim, pelo menos nos EUA. Contra este projecto estão o movimento MoveOn.org, of course, a Amazon, o Google e deveriam estar todos os bloguistas e internautas em geral. No rescaldo do dia da Liberdade, é também tempo de nos preocuparmos com isto.

2006/04/26

Obrigado Ricardo!


O Ricardo Sá Pinto merece um texto especial, que eu só contava escrever dentro de duas semanas. Enquanto não o escrevo, deixo-vos com a sugestão do Leonardo Ralha: Isso é que era acabar a carreira em beleza.

Rescaldo blogosférico do 25 de Abril

Agradeço a sugestão do Pedro, mas é como vês...
Claro que estou em festa, pá, mas nada que se compare com a festa que foi há dois anos, quando vivi o melhor 25 de Abril da minha vida, na Casa de Portugal (e relatado em pormenor no BdE). Também lá estavas... Foi memorável. Era um número redondo, e sabes que isto da base decimal é uma herança muito importante que os árabes nos deixaram. Abraços e peace and love para ti também.
A mais agradável evocação do 25 de Abril que eu vi este ano foi a do Miguel Marujo. O 25 de Abril também é isto, pois claro!
(E olha que ainda não somos campeões, mas já conseguimos o mais importante.)

2006/04/25

Trova do Vento que Passa



(António Portugal - Manuel Alegre; interpretação de Adriano Correia de Oliveira)

Ouvida hoje de manhã na Rádio Alfa.

Há 32 anos



(Imagem retirada ao Gibel)

Logo à noite, no Collège Franco-Britannique, a "Casa de Portugal oficiosa" na CIUP (enquanto a verdadeira está em obras), projecção do filme "Capitães de Abril", de Maria de Medeiros, graças aos bons ofícios do meu amigo Sandro e dos outros portugueses no Comité de Residentes.

2006/04/24

A volta do poeta

Manuel Alegre: "puxar as orelhas" aos deputados será "um péssimo começo" para Cavaco Silva

Manuel Alegre continua na mesma.

Lembrando que o Presidente da República e o Parlamento são dois órgãos de soberania distintos, Manuel Alegre afirmou que Cavaco Silva "não é o comandante supremo do regime". (...)
A recente polémica das faltas dos deputados, na semana passada, foi também abordada por Manuel Alegre, que garantiu que não irá justificar a sua ausência.
"Assumo a responsabilidade da minha ausência. Não vou justificar a falta e, pelo menos no meu caso, deve ser aplicado taxativamente o regulamento", afirmou, considerando, no entanto, que a decisão de antecipar o dia das votações de quinta para quarta-feira "é discutível".
- o moralismo de pau oco.

Apesar da polémica, Alegre rejeita a hipótese de se alterar o sistema eleitoral: "Não se deve ligar as faltas à alteração ao sistema eleitoral".
- pois não, concordo, mas os deputados deveriam dar o exemplo, não é? Mas como Manuel Alegre já nem se lembra de como votou há uns anos, é provável que se venha a esquecer que faltou.

"Se avançarem com o encerramento da maternidade de Elvas votarei contra", exemplificou, justificando que essa "é uma questão nacional", porque as pessoas têm o direito de nascer na sua terra.
- independentemente do que se pense sobre este assunto, Alegre revela a mesma tendência para as cedências aos interesses locais e particulares.

Para ler mais: O farol da ética, no Mau Tempo no Canil.

Faz hoje exactamente um ano


Ao encontrar esta fotografia (que reproduzo com a devida vénia) no Agreste Avena, mais um blogue parisiense, recordo-me que faz hoje exactamente um ano estava lá, no Monte St. Michel. Passei o fim de semana com um grupo muito internacional na Normandia e na Bretanha, onde fomos ver as maiores marés da Europa. Ao chegarmos pela manhã ao Monte St. Michel, vindos de St. Malo, esperava-nos um tempo como a imagem acima mostra. Se as fotografias que tenho do conjunto completo do Monte (uma delas como imagem no desktop do meu computador), tiradas ao princípio da tarde, não o mostram, é porque o tempo só melhorou nessa altura, mesmo quando nos íamos embora, bem de acordo com a Lei de Murphy... Mas eu é que sei a molha que apanhei quando subia para a abadia, e enquanto a visitava! Acabei por não ficar com nenhuma fotografia do conjunto completo do monte e da abadia com tempo de chuva. Até encontrar esta foto do Zèd, que traduz muito melhor a minha recordação do Monte St. Michel.
Não deixou de ser um excelente fim de semana, mas graças a isso perdi duas mesas-redondas com o capitão de Abril José Verdasca e o concerto do Grupo de Fados da Estudantina Universitária de Coimbra, no sábado à noite, nas comemorações do 25 de Abril na Casa de Portugal. No domingo à noite, porém, ainda cheguei a tempo de participar no jantar na Casa de Portugal, que incluiu uma pequena actuação da Estudantina. Isto para além, evidentemente, do saboroso caldo verde da Diana, do chouriço assado, do vinho tinto do Sandro e do doce arroz da doce Raquel que eu tinha à minha espera quando cheguei.
Que saudades da Casa de Portugal.

2006/04/23

A minha alegria futebolística do fim de semana


Obrigado mais uma vez, Augusto Inácio.

Memória de um dia inesquecível na Emilia-Romagna

A Itália tem dois Grandes Prémios no calendário do Mundial de Fórmula 1: o Grande Prémio de Itália propriamente dito, em Monza, na Lombardia, e o Grande Prémio "de São Marino", em Imola, na Emilia-Romagna, a poucas dezenas de quilómetros de Maranello, o "quartel-general" da Ferrari. Nenhum outro povo vibra com a fórmula 1 tanto como o italiano, e especialmente na Emilia-Romagna. No dia em que se disputa mais um Grande Prémio no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Imola, aproveito a ocasião para recordar a minha mais recente visita à minha região favorita da Itália.
aqui tinha falado do meu amigo Olindo, oriundo de uma família típica da Emilia-Romagna, católica (mais a mãe) e comunista (mais o pai). O Olindo saiu mais ao pai; não gosta das festas religiosas, pois acha-as meramente comerciais e desprovidas de qualquer espiritualidade. Mas foi certamente influenciado pela atitude do pai, um canalizador que viveu toda a sua vida como um verdadeiro comunista, trabalhando sempre numa cooperativa e recusando-se a trabalhar em privado e fazer muito mais dinheiro. Quando era miúdo o Olindo ajudava o pai a distribuir o L'Unitá, o órgão oficial do PCI, nas pequenas vilas nos arredores de Maranello, onde a família vivia. Depois gostava de ver os pilotos da Ferrari a testarem os bólides na pista de Fiorano, num ponto onde dá para ver de fora. Há três anos, quando fui visitá-lo a Modena, fomos visitar o Museu da Ferrari e de seguida o Olindo mostrou-me todos esses locais. Estando a visita terminada, aguardava-nos um almoço na casa dos pais do Olindo. Ele fez questão de me apresentar os pais e de lhes apresentar um dos camaradas que conhecera na América. Lembro-me de um casal de idade avançada, com um ar muitíssimo bondoso, que nos serviu um prato com os notáveis enchidos locais e um delicioso frango à caçadora, bem regado com lambrusco. Com a sobremesa abriram ainda uma garrafa de champanhe! Eu disse ao Olindo que não havia necessidade, mas ele respondeu-me que se não fosse numa ocasião como esta a tal garrafa nunca mais seria aberta!
Depois do café e antes da despedida deram-me a provar a melhor grappa que eu alguma vez bebi e provavelmente beberei. Grappa como aquela não se encontra à venda. Fiquei o resto da tarde um pouco zonzo e com o sabor da grappa na boca.
À despedida, sem lhes saber o que dizer, só me saiu um "muito obrigado e até qualquer dia". Incapazes de falarem sem ser em italiano, só me lembro do olhar que os pais do Olindo me lançavam, durante o almoço e no fim. Via-se que gostaram muito de me ter ali. Até um dia, disseram-me, olhando-me daquela vez como se fosse a última.
Isto passou-se há três anos.
Recebi há pouco tempo a notícia de que o pai do Olindo faleceu. Não resistiu a uma crise respiratória. Manteve-se fiel ao seu partido até à morte mas, infelizmente, não viveu o suficiente para ter a alegria de ver o seu país livrar-se do governo de Berlusconi.
Gostaria de lhe ter dito o quanto gostei dele, como apreciei a sua hospitalidade, como adorei a sua grappa e, acima de tudo, o enorme prazer que tive em conhecê-lo. Receio que ele nunca tenha sabido isso.