2006/05/17

O amor e a sua correspondência

Lindo, ou não fosse escrito pela Ana Sá Lopes. Não sei quanto tempo é que a crónica da Vanessa vai ficar disponível, pelo que a transcrevo aqui toda.

«A banalização do telemóvel criou a ilusão do objecto omnipresente. Numa posição de omnipresença, um objecto de paixão passou a ter a "obrigação" da resposta imediata a qualquer estímulo, sob pena de provocar o sofrimento do outro.

A angústia da perda passou a estar associada a trivialidades - pode acontecer, vertiginosa, quando se esgotou uma bateria; ocorre quando o amor se passeia displicente em lugares sem rede; e pode disparar a níveis clínicos quando o objecto amoroso, usando um direito inalienável de autodeterminação, decide desligar o telemóvel.

No amor, o telemóvel fez disparar o stress, a ansiedade, as angústias da rejeição e outras malaises de la civilisation. Um telemóvel desligado é uma providência cautelar para uma ruptura. Um presumível sintoma de infidelidade. Um fechar com a porta na cara. Um não, uma nega, uma tampa.

O telemóvel é caro, mas o amor tende a minimizar o impacto económico das medidas a que, no auge da paixão, recorre. E depois há as sms, esse deslumbrante e mais económico instrumento de sedução, mas - também ele - uma grilheta dos amantes. Os segundos de resposta, os minutos, as horas, tudo é contabilizado para avaliar o impacto de um amor.

Institucionalizados os novos rituais do enamoramento, não importa se o objecto costuma estar sequestrado na Biblioteca Nacional ou vive em audiências contínuas com díspares personalidades; se, por qualquer razão que o coração se esforça por desconhecer, não vive com o maldito computadorzinho na mão, em permanente disposição de disparar uma resposta irredutível.

O mail tem um tempo mais distendido, se excluirmos as pessoas cuja profissão as obriga a estar permanentemente em frente do computador. Estas são ainda fustigadas com o monstro do messenger, que, de borla, obriga ao diálogo contínuo.

Mas a minha amiga Vanessa, que num estado de paixão patético tem passado o último mês a escrever mails ridículos, sms ridículas e a contar os segundos da resposta, teve um destes dias um inesperado e surpreendente ataque de felicidade amoroso: recebeu uma carta. Um postal dos correios. Um envelope com selo e tudo. Quando abriu a caixa e viu que não eram só contas, ia desfalecendo. Uma carta. Uma carta? Sim, só um grande amor.»

2006/05/16

A blogosfera portuguesa


...foi o objecto de um extenso artigo e da capa, no mês passado, do boletim Cap Mag, da associação francesa de jovens lusodescendentes Cap Magellan. O referido artigo é baseado na síntese 25 momentos na história da blogosfera, já disponível na rede, à qual são acrescentadas referências a blogues culturais, literários e de lusodescendentes em França.
Tentei arranjar a Cap Mag no local habitual (balcão da Caixa Geral de Depósitos...) e na noite do Portugal no Coração no Hôtel de Ville (a associação Cap Magellan era uma das entidades organizadoras). Não consegui, mas a associação teve a delicadeza de me enviar uma cópia da revista para casa. Desejo aqui agradecer publicamente.

2006/05/15

Assim se vê a idade

Uma directa, no sentido estrito do termo, é passar uma noite em claro e só voltar a dormir na noite a seguir.
Fiz algumas directas na licenciatura, como toda a gente. Quando estava a fazer o meu doutoramento também. Uma delas foi quando estava a preparar um seminário sobre a minha investigação, no meu instituto. Era às 13 horas. Passei a noite toda lá, e como bom português que sou (não deixo os créditos por mãos alheias), estava a imprimir os acetatos às 12:30. Meia hora antes. E dei o seminário com uma directa.
Lembrei-me desse seminário nesta semana que acabou, na qual passei duas noites sem dormir a preparar o seminário que dei na sexta-feira. Mas não fui capaz de aguentar até à noite sem dormir. Em ambos os dias fui deitar-me de manhã, mas tive de dormir umas horas. Ou seja, já não sou capaz de fazer uma directa. Se a isto acrescentarmos que já não deixo a preparação do seminário para a última da hora, assim se vê como me estou a tornar velho e sem graça.

2006/05/14

No jazz com o dissimulateur

Esta não ficou registada, mas garanto-vos que é verdadeira.
Em que estaria a pensar o Primeiro Ministro francês no sábado à noite? Estaria preocupado com o affaire Clearstream e com a possibilidade de ter que vir a abandonar o governo em breve? Estaria aborrecido por não se ter visto livre do seu rival Nicolas Sarkozy? Estaria apreensivo com o relatório que nesse mesmo dia o Libération publicava? Aparentemente não era em nada disso que Dominique de Villepin pensava.
No sábado à noite fui com amigos ao Festival Jazz à Saint-Germain-des-Prés, mais concretamente à Maison des Pompiers do 6ème, ali a St. Sulpice. O concerto era ao ar livre. E quem estava incógnito, no meio da multidão? Dominique de Villepin em pessoa, ouvindo a música, trocando sorrisos com a companheira que de vez em quando abraçava. Um grupo de vários portugueses e portuguesas, italianas e um dinamarquês poderão confirmar.
Surgiu a ideia de pedirmos (alguns de nós) para tirar uma fotografia com o senhor. (É curiosa esta nossa reacção - incluo-me no grupo. Nenhum dos franceses presentes queria ir tirar uma foto de Villepin, e não creio que os portugueses quisessem com Sócrates.) Eu fui mesmo incumbido de ir falar com o primeiro ministro. Diria qualquer coisa do tipo «Bonjour, mr. Villepin. Nous sommes un groupe d'étudiants portugais. Nous ne voulons pas protester...» Só que não havia máquina fotográfica. Ninguém tinha. Bem feita - eu deveria saber, deveríamos todos saber que em Paris anda-se sempre com uma máquina fotográfica.
O mínimo que posso fazer é tentar aqui reconstruir a fotografia que ficou por tirar. Eu estou mais abaixo, ao lado do Rochemback. O Sandro e o Rui estão aqui. Quanto ao Villepin, deixo-vos com a capa do dia do Libération, que ele próprio e todos os parisienses tinham visto antes do concerto em todas as bancas.

2006/05/13

O clube das metamorfoses

Primeiro, foi o presidente que deu o dito por não dito e afinal já era candidato à presidência.
Depois, foi o capitão da equipa que deu o dito por não dito e afinal já queria jogar mais um ano.
Será que agora o treinador não pode dar o dito por não dito e dizer que, afinal, conta com o capitão? Se não fizer isso também estará a dar o dito por não dito, só que neste caso o dito há um ano, quando criticou publicamente as saídas do anterior capitão e do lateral esquerdo.

2006/05/12

Antes fosse a lutar com o latex!

Conforme bem notou o Nelson (sem acento, embora em português se escreva Nélson) é LaTex e não latex (este último é uma borracha usada no fabrico de preservativos...). Era para alterar o texto, mas depois li a frase «Após duas noites muito mal dormidas a lutar com o Latex...» e deixei estar. Antes tivesse sido essa a razão por que eu esta semana dormi pouco.

Durma-se com um software destes

Após duas noites muito mal dormidas a lutar com o Latex, terminei o ficheiro com a apresentação do meu seminário. Costumava dar seminários em acetatos (impressos), mas achei que estava mais do que na hora de me converter às apresentações electrónicas. Só que, com as fórmulas complexas que tenho que apresentar (e que nos artigos têm imperativamente de ser escritas no Latex), continuei a trabalhar neste software, procurando na internet os programas que me permitiriam fazê-lo. Só então vi bem (mais uma vez!) a paciência que é preciso ter com o software de distribuição gratuita (open-source). Não só existem mil e uma versões diferentes, como cada uma dessas versões tem instruções diferentes de instalação e utilização. Por vezes, a mesma versão em locais diferentes tem instruções diferentes.
Especificando: tinha a usar uma package do Latex chamada Prosper. O objectivo era obter um ficheiro .pdf todo semelhante aos do PowerPoint, só que com as fórmulas todas (e sem ser da Microsoft, o Bill Gates e coisa e tal). As intruções diziam que eu tinha que usar um comando chamado pdflatex. Instalei tudo e a coisa nada de funcionar. Aparentemente antes de ter instalada aquela package, tinha que ter instaladas mais não sei quantas packages. Que não tinha. (A instalação não é autosuficiente, portanto.) Todas essas packages existem para sacar em não sei quantas versões (sem nenhuma versão oficial, que no software de distribuição gratuita é coisa que não existe), e a package Prosper não funciona com todas essas versões. Falei com um colega (algo que deveria ter feito de princípio), que me disse onde poderia usar a tal package em Linux, já instalada (nos computadores da universidade), e que nunca deveria usar o pdflatex: teria de ser o latex normal, seguido de um comando chamado dvipdf -sPAPERSIZE=a4. Lá tive de me ligar aos computadores da universidade e acabar o trabalho lá. Tudo correu bem, mas muitas horas foram perdidas com estas "experiências". Cada vez que um tipo se mete com o software livre dá nisto - ou se é basicamente um engenheiro informático e se conhecem todos os comandos do Linux, ou perdem-se horas, dias, sem nunca se perceber o que se passa.
Finalmente outros dois colegas (com quem eu deveria ter falado à partida) revelaram-me que existe um conversor (de distribuição gratuita...) de Latex para PowerPoint, que permite usar este último sem ter que estar a reescrever as fórmulas todas. Palavra: eu tenho a maior simpatia por todo o software de distribuição livre, mas também tenho a maior simpatia pelo meu tempo (e já não tenho idade para fazer directas a trabalhar). Acho que me vou converter ao tal conversor.

Adenda: a ligação segura aos computadores da Universidade é feita pelo Putty, um simpático programa de ligação a uma máquina Linux a partir de um computador Windows. É um programa muito simples, de distribuição livre, e que se saca sempre do mesmo sítio. Já uso o Putty há anos e nunca me deixou ficar mal.

2006/05/11

Get physical

Se isto fosse verdade, seria a melhor maneira de converter o Pedro Mexia à Física Teórica. Mas é mentira, pelo menos na maior parte dos casos que eu conheço. É verdade nos caos que lá são referidos... Talvez seja assim, em última instância, que se distingue um bom físico de um físico vulgar.

2006/05/10

Força Roca!

Aeroporto de Lisboa, zona de embarques, Janeiro de 2006

Agora já não és treinado pelo Peseiro, e não vais perder a mesma Taça na final dois anos seguidos!

2006/05/09

Parabéns ao Benfica

«Koeman paga 500 mil euros para sair», anuncia o Record. Evitam ter que despedir o treinador (no fundo aquilo que mais desejavam) e de o indemnizar, e ainda por cima recebem 500 mil euros por quebra de contrato. Desde a venda pelo FC Porto do Secretário ao Real Madrid que eu não via um negócio tão bom no futebol português.

2006/05/08

Lugar comum

Se há coisa com que eu embirro é com o uso da expressão "lugar comum" (não com a expressão em si). Embirro com quem a usa, pelo que ela tem de crítica à "falta de originalidade", sendo que quem a usa na maior parte das vezes não é nada original. Não há nada menos original do que usar a expressão "lugar comum". Não há maior lugar comum do que dizer que algo é um "lugar comum".
Serve este texto para saudar o aparecimento de mais um blogue colectivo, lugar comum da Susana, do Afonso, do Lutz e do Luís. O título (excelente para um blogue, principalmente colectivo) promete. A qualidade dos escribas não vai decepcionar. E desculpem o lugar comum.

2006/05/07

Só as mães são felizes

Uma música para o Dia da Mãe. Não aconselhável a pessoas especialmente sensíveis.

2006/05/06

«São Paulo dá café...»

Quanto à questão posta pelo Rui, a resposta foi dada pelo Noel Rosa na primeira metade do século passado, numa frase lapidar que eu reproduzi aqui. Como diria um baiano omnipresente, São Paulo tem «a força da grana que ergue e destrói coisas belas.» São Paulo é o avesso do avesso.

«Voto no Lula»

«É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido o escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos). Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer "espera aí". Quando aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do Senado dizer que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante --aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas.»

«o preconceito de classe contra o Lula continua existindo --e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: "Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?". Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! --até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. "Agora sai já daí, vagabundo!". É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. "Agora volta pra senzala!".»

«Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: "Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa sacos".»

«Quando ele [Caetano Veloso] fala que as pessoas do atual governo se cercam da aura de esquerda para justificar seus atos e reivindicar para si uma posição superior à dos demais, tudo isso também vale para o governo anterior. Os tucanos costumam carregar essa aura de esquerda com muito zelo. Volta e meia os vemos dizendo que foram contra a ditadura, que são intelectuais de esquerda. Fernando Henrique foi eleito como candidato de centro-esquerda. Na época a vice entregue ao PFL parecia algo estranho. Depois se provou que não era. As pessoas se servem do passado de esquerda como se fosse um título, um adorno. Na prática política efetiva essa identidade não funciona mais. Mas não funciona não apenas porque as pessoas viraram casaca. A história levou para isso. Levou o PSDB a se tornar o que é e obrigou o PT a abdicar de qualquer veleidade socialista ou revolucionária.»

«Percebo nesses grupos [de oposição de extrema-esquerda] um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula. Acompanhei o PT desde a sua fundação e vi de perto muitas dessas discussões. Em 1985, na eleição à prefeitura de São Paulo, eu achava que o Fernando Henrique era o único candidato da esquerda capaz de derrotar o Jânio Quadros. O PT lançou o [atual senador Eduardo] Suplicy. O que eu briguei com gente do PT --e por causa do Fernando Henrique Cardoso (risos). A candidatura do Suplicy no fim ajudou a eleger o Jânio Quadros.»

«Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chamados chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.»

(Chico Buarque em entrevista à Folha de São Paulo, via Caetera.)

2006/05/05

What a larger Europe needs is small countries able to think big

Um interessante artigo de Timothy Garton Ash (recomendado originalmente pelo André).

A deportação de portugueses no Canadá

Não julguem que é assunto pacífico entre os canadianos. A comprová-lo está este vídeo, por um comediante local.

2006/05/04

Carioca



O disco mais esperado dos últimos sete anos chega hoje às lojas. Carioca, é esse o título.
(Os discos do Chico Buarque são como os títulos de campeão do Sporting: são raros e temos sempre medo que sejam os últimos. Ouvimo-los e celebramo-los como se fossem os últimos. No fundo, está tudo dito na Construção.)
Olhando para o repertório, das doze músicas a maioria é inédita: só Ode aos Ratos é uma regravação (a música já estava, com um arranjo diferente, em Cambaio, de 2001). Dura na queda, uma música recente, foi gravada no último álbum de Elza Soares, mas é interpretada pela primeira vez num álbum de Chico. O mesmo vale para Imagina, uma parceria com Jobim. Ouvir Chico cantar Imagina é para já a minha maior expectativa, enquanto não ouço o álbum todo.
Enquanto não o ouvimos, contentemo-nos com uma música homónima originalmente no álbum As Cidades, mas numa versão ao vivo.

(Ó Ana, diga qualquer coisa. Pare lá com a greve.)

2006/05/03

Os paradoxos do sindicalismo

«De acordo com um estudo, de 2004 da Comissão Europeia, a taxa de sindicalização dos trabalhadores portugueses era de 24,3% em 1997, só acima da espanhola (15,7%) e da francesa (9,8%). E muito abaixo da dos países nórdicos, que oscilava entre os 75% e os 82%», lê-se no DN.

Mas por que será então que este resultado contraria um pouco o nosso senso comum? Os países que afinal têm uma taxa de sindicalização mais baixa são os que geralmente associamos a um movimento sindical mais forte, e (principalmente a França) onde se registam as maiores paralisações, as greves de parar o país todo...
Talvez o erro esteja na associação "maiores protestos" e "maiores greves" a "sindicatos mais fortes". Nos países nórdicos há menos greves, mas muitas vezes os sindicatos têm mesmo uma palavra a dizer na administração da empresa (algo que em Portugal e em França seria impensável, e aqui as culpas repartem-se entre trabalhadores e patrões). Numa palavra, os sindicatos têm mais responsabilidades.
Compare-se os países nórdicos com o extremo oposto, a França - veja-se o caso recente do CPE e dos exageros associados às manifestações, mesmo se por um motivo justo. Mas talvez os estudantes e os trabalhadores não tivessem outra alternativa: só assim seriam ouvidos.
Os números não enganam: nos países nórdicos há menos greves e menos conflitualidade social. Os sindicatos são mais fortes e conseguem mais frequentemente os seus objectivos.

Soy loco por ti América (II)

O "libertador" Hugo Chávez, por João Morgado Fernandes no DN.

2006/05/02

Soy loco por ti América

Restaurante hispânico encerrado em Dallas, no 1º de Maio, por solidariedade para com os imigrantes. A nota está escrita em espanhol e inglês.

Enquanto vivi nos EUA os feriados eram diferentes, não só obviamente os nacionais mas mesmo os religiosos - onde eu vivi prestava-se menos atenção aos feriados cristãos e mais aos judeus, e isso era natural. O que me fazia confusão era não se celebrar o 1º de Maio - o "dia do Trabalhador" nos EUA é a primeira segunda-feira de Setembro, um feriado para se passar em família antes do regresso às aulas e... ao trabalho. Não compreendia e nunca aceitei como poderia não se celebrar este feriado, principalmente tendo em conta que as suas origens ocorreram em território americano, com trabalhadores americanos. Aquele país não quer saber mesmo nada das lutas dos trabalhadores e da duração das jornadas de trabalho.
(Não é bem assim: existem sindicatos nos EUA, e não me admiraria que a taxa de sindicalização dos trabalhadores fosse bem superior a em Portugal. Simplesmente actuam de outra maneira.)
De qualquer maneira, não se celebrar o 1º de Maio não me parecia digno de um país civilizado.
Ao mesmo tempo, do que eu mais gostava nos EUA era da forte presença imigrante, que traz àquele país características únicas. Os "americanos" não existem; vêm de todo o mundo. E a grande força dos EUA sempre foi o abrir-se à imigração. Dentro desta, merece particular destaque a imigração hispânica, os "latinos". Foram os que eu conheci de mais perto.
É com um sentimento de alívio que eu vejo os "latinos" a manifestarem-se nos EUA, a demonstrarem a sua força e a sua importância, e a escolherem para essa data - certamente não por acaso - o 1º de Maio. Talvez no futuro o 1º de Maio venha a ser recordado não só como o dia do Trabalhador mas também como o dia do Imigrante. Vejo estas manifestações e imagino o meu sonho a cumprir-se - a língua espanhola a civilizar aquele país. Uns EUA sem perderem as suas características - o voluntarismo, o optimismo, a confiança, a ambição, o trabalho, ... mas "latinizados". O mundo só teria a ganhar com isso.

2006/05/01

"Somos América!"

Imagem de uma manifestação de imigrantes hoje em Times Square, New York

120 anos

Foi precisamente há 120 anos que, nos EUA, os trabalhadores iniciaram uma greve geral com vista ao estabelecimento de uma jornada de trabalho de oito horas. Houve protestos sangrentos no Haymarket em Chicago. Desde então esta data foi adoptada como Dia Internacional do Trabalhador. Ironicamente, não é comemorado oficialmente nos EUA, embora este ano prometa ser agitado.

75 anos


aqui tinha referido que é necessário todas as (belas) cidades terem um edifício alto e feio, de onde se possa mirar a cidade sem se ter pena de não se estar a mirar esse edifício. Para isso Paris tem a Torre Montparnasse. O equivalente em Nova Iorque poderia ser o feioso Empire State Building, mas infelizmente nem assim se consegue deixar de ver o Chrysler Building (como se vê na fotografia - é o que está por trás), com uma cúpula ainda mais horrível. Nova Iorque está mesmo a precisar de um novo World Trade Center, de preferência tão bonito e tão sóbrio como o anterior.
Apesar de tudo o Empire State Building é um edifício feio mas simpático. Permite-nos vistas espectaculares do Central Park e do Harlem como mais nenhum, e ainda de New Jersey, de Long Island e do sul de Manhattan. As cores da cúpula variam consoante a data e a ocasião (ver aqui). A 7 de Setembro de 2001 eram verde e amarelo (dia do Brasil). A 10 de Junho de 2003, e durante essa semana, eram verde e vermelho (dia de Portugal). É um ícone geográfico e histórico e merece respeito. Faz hoje 75 anos.

2006/04/30

Abril sempre

Nélson, e se retomasses a série, pelo menos por mais um mês? Pode ser que te queiram lá na Abril em Maio.

2006/04/29

Divulgando a ciência

Via Conta Natura, chamo a atenção aos interessados (entre os leitores do Avesso do Avesso deve haver vários) para o Primeiro encontro de Comunicação de Ciência. É um assunto que me interessa e a que me vou dedicar por algum tempo em breve. Bem gostaria de lá estar se pudesse.

2006/04/28

"Devolver o Sporting"... a quem?

É repetindo o lema "devolver o Sporting aos sócios" que uma lista, da qual fazem parte (um como apoiante e dois como membros da direcção) as três figuras ao lado, se apresenta. Mas "devolver" o quê, a quem?
Comecemos pelo candidato, Sérgio Abrantes Mendes. Não apresenta nenhuma alternativa concreta, para além das células fotovoltaicas na Academia (que até seriam uma ideia engraçada, mas não seria isso a viabilizar financeiramente o Sporting). Abrantes Mendes promete tudo: mantém uma equipa forte, mantém o eclectismo, não vende património. Só não diz como... A única coisa que afirmou foi que tinha um acordo com um banco credor do Sporting, no que foi logo de seguida desmentido pela administração desse banco.
De seguida vemos um antigo capitão, não de muito boa memória. Representa o pior período da história do Sporting, os dezoito anos sem títulos. Não saiu pela porta grande, e nem é especialmente bem recordado quando comparado com outros mais recentes. Desde então tem estado afastado do futebol; no entanto, recentemente foi convidado para integrar a equipa técnica. Fez saber que só aceitaria se fosse como chefe do departamento de futebol, apesar da sua experiência nula nesse tipo de cargos. Sempre se teve em grande conta este Oceano.
Finalmente, ao meio temos a Dona Isabel Trigo de Mira. Recentemente a Dona Isabel Trigo de Mira era a presidente dos Leões de Portugal, uma instituição particular de solidariedade social ligada ao Sporting, criada e mantida por sportinguistas e destinada a apoiar os sportinguistas mais necessitados, bem como o auxílio financeiro nos estudos dos "leões" mais jovens. Um daqueles pequenos pormenores que distinguem o Sporting, e que o tornam - que é - um clube diferente, sem paralelo.
Bem, mas o que afirmo de seguida não tem nada a ver com os Leões de Portugal, de cuja direcção a Dona Isabel Trigo de Mira em boa hora se afastou, a partir do momento em que é candidata à direcção do clube. Tem mais a ver com o tempo em que a Dona Isabel Trigo de Mira era mesmo membro da direcção. Não conheço a senhora, mas vejo-a como uma "invenção" de José Roquette, que teve continuação com Dias da Cunha. A missão da Dona Isabel Trigo de Mira era correr o mundo e "apoiar" os núcleos sportinguistas no estrangeiro, constituídos por emigrantes. É claro que estes núcleos merecem apoio - por experiência própria, afirmo que é comovente conhecer-se alguém que nasceu e sempre viveu fora de Portugal e sofre cada domingo pelo Sporting como quem vai a Alvalade. Eu conheci casos assim. Só que uma forma peculiar arranjada para promover esses núcleos de emigrantes era organizar jantares com a presença de figuras do clube. E quem era a melhor figura que o Sporting arranjava para se promover no estrangeiro? O Carlos Lopes? O Vítor Damas? O Jesus Correia? Não! Era... a Dona Isabel Trigo de Mira, que adorava estes jantares-convívio. Lembro-me de os ver anunciados nas lojas da comunidade portuguesa de Farmingville, em Nova Iorque, perto de onde vivi. Dois jantares no mesmo restaurante e com o mesmo menu, o de sportinguistas e benfiquistas. O do Benfica tinha presente o Eusébio. O do Sporting, para além de ser cinco dólares mais caro, em vez do Eusébio tinha a presença... da Dona Isabel Trigo de Mira, que é uma senhora muito preciosa (vale mais cinco dólares por cabeça do que o Eusébio). Fez parte das direcções de Roquette e Dias da Cunha, mas recusou (ou não foi aceite por) Soares Franco.
O principal, no entanto, é que se se falar com pessoas como a Dona Isabel Trigo de Mira e muitas pessoas que apoiam a lista de que ela faz parte, elas acham muito natural "representarem" o Sporting com viagens pagas, mesmo que não façam mais pelo clube do que isso. São eles os "verdadeiros sportinguistas". Alguns monárquicos, alguns antigos atletas, alguns dirigentes de má memória, que pouco ganharam mas que têm imensas saudades de si mesmos. E que não têm nada a ver com a realidade do clube hoje. Quando afirmam que querem "devolver o Sporting aos sócios", na verdade querem devolver o clube a eles mesmos. Para eles, "eles" são o Sporting. Está na altura de lhes provar que não têm razão.

2006/04/27

A simplicidade

O indiano Ashoke Sen é um dos líderes mundiais na comunidade dos físicos teóricos, na área da teoria das cordas. Doutorou-se na mesma universidade que eu e era lá visita frequente. Fazia-se acompanhar pela sua mulher, também indiana. Ambos formam um casal muito simpático e muito simples. A simplicidade de Sen traduz-se neste facto: poderia ser professor em qualquer das melhores universidades do mundo e ganhar muito mais dinheiro pelo que faz, mas prefere continuar na sua Índia natal e contribuir para o seu desenvolvimento científico. Valha-lhe o facto de ser respeitado, não só no resto do mundo civilizado mas, também, no seu país.
Para mim a melhor prova da simplicidade de Sen é este facto recente (com poucas horas): escrevi-lhe um email a colocar umas questões sobre o seu artigo mais recente, sobre a entropia de buracos negros, e exactamente no mesmo tópico em que estou a trabalhar. Mesmo assim deixem-me dizer com clareza: ao pé do Sen, eu não sou nada (e apesar de já o ter visto várias vezes, não o conheço pessoalmente). Pois Sen respondeu ao meu email em poucas horas, reconheceu que eu tinha razão na minha observação, argumentou a sua hipótese e terminou assim:

Please let me know if you agree.

With best regards

Ashoke


Já viram isto? Eu confesso que ainda estou nas nuvens.

O fim da internet como nós a conhecemos?

Não será ainda o fim, mas poderá muito bem ser o princípio do fim, pelo menos nos EUA. Contra este projecto estão o movimento MoveOn.org, of course, a Amazon, o Google e deveriam estar todos os bloguistas e internautas em geral. No rescaldo do dia da Liberdade, é também tempo de nos preocuparmos com isto.

2006/04/26

Obrigado Ricardo!


O Ricardo Sá Pinto merece um texto especial, que eu só contava escrever dentro de duas semanas. Enquanto não o escrevo, deixo-vos com a sugestão do Leonardo Ralha: Isso é que era acabar a carreira em beleza.

Rescaldo blogosférico do 25 de Abril

Agradeço a sugestão do Pedro, mas é como vês...
Claro que estou em festa, pá, mas nada que se compare com a festa que foi há dois anos, quando vivi o melhor 25 de Abril da minha vida, na Casa de Portugal (e relatado em pormenor no BdE). Também lá estavas... Foi memorável. Era um número redondo, e sabes que isto da base decimal é uma herança muito importante que os árabes nos deixaram. Abraços e peace and love para ti também.
A mais agradável evocação do 25 de Abril que eu vi este ano foi a do Miguel Marujo. O 25 de Abril também é isto, pois claro!
(E olha que ainda não somos campeões, mas já conseguimos o mais importante.)

2006/04/25

Trova do Vento que Passa



(António Portugal - Manuel Alegre; interpretação de Adriano Correia de Oliveira)

Ouvida hoje de manhã na Rádio Alfa.

Há 32 anos



(Imagem retirada ao Gibel)

Logo à noite, no Collège Franco-Britannique, a "Casa de Portugal oficiosa" na CIUP (enquanto a verdadeira está em obras), projecção do filme "Capitães de Abril", de Maria de Medeiros, graças aos bons ofícios do meu amigo Sandro e dos outros portugueses no Comité de Residentes.

2006/04/24

A volta do poeta

Manuel Alegre: "puxar as orelhas" aos deputados será "um péssimo começo" para Cavaco Silva

Manuel Alegre continua na mesma.

Lembrando que o Presidente da República e o Parlamento são dois órgãos de soberania distintos, Manuel Alegre afirmou que Cavaco Silva "não é o comandante supremo do regime". (...)
A recente polémica das faltas dos deputados, na semana passada, foi também abordada por Manuel Alegre, que garantiu que não irá justificar a sua ausência.
"Assumo a responsabilidade da minha ausência. Não vou justificar a falta e, pelo menos no meu caso, deve ser aplicado taxativamente o regulamento", afirmou, considerando, no entanto, que a decisão de antecipar o dia das votações de quinta para quarta-feira "é discutível".
- o moralismo de pau oco.

Apesar da polémica, Alegre rejeita a hipótese de se alterar o sistema eleitoral: "Não se deve ligar as faltas à alteração ao sistema eleitoral".
- pois não, concordo, mas os deputados deveriam dar o exemplo, não é? Mas como Manuel Alegre já nem se lembra de como votou há uns anos, é provável que se venha a esquecer que faltou.

"Se avançarem com o encerramento da maternidade de Elvas votarei contra", exemplificou, justificando que essa "é uma questão nacional", porque as pessoas têm o direito de nascer na sua terra.
- independentemente do que se pense sobre este assunto, Alegre revela a mesma tendência para as cedências aos interesses locais e particulares.

Para ler mais: O farol da ética, no Mau Tempo no Canil.

Faz hoje exactamente um ano


Ao encontrar esta fotografia (que reproduzo com a devida vénia) no Agreste Avena, mais um blogue parisiense, recordo-me que faz hoje exactamente um ano estava lá, no Monte St. Michel. Passei o fim de semana com um grupo muito internacional na Normandia e na Bretanha, onde fomos ver as maiores marés da Europa. Ao chegarmos pela manhã ao Monte St. Michel, vindos de St. Malo, esperava-nos um tempo como a imagem acima mostra. Se as fotografias que tenho do conjunto completo do Monte (uma delas como imagem no desktop do meu computador), tiradas ao princípio da tarde, não o mostram, é porque o tempo só melhorou nessa altura, mesmo quando nos íamos embora, bem de acordo com a Lei de Murphy... Mas eu é que sei a molha que apanhei quando subia para a abadia, e enquanto a visitava! Acabei por não ficar com nenhuma fotografia do conjunto completo do monte e da abadia com tempo de chuva. Até encontrar esta foto do Zèd, que traduz muito melhor a minha recordação do Monte St. Michel.
Não deixou de ser um excelente fim de semana, mas graças a isso perdi duas mesas-redondas com o capitão de Abril José Verdasca e o concerto do Grupo de Fados da Estudantina Universitária de Coimbra, no sábado à noite, nas comemorações do 25 de Abril na Casa de Portugal. No domingo à noite, porém, ainda cheguei a tempo de participar no jantar na Casa de Portugal, que incluiu uma pequena actuação da Estudantina. Isto para além, evidentemente, do saboroso caldo verde da Diana, do chouriço assado, do vinho tinto do Sandro e do doce arroz da doce Raquel que eu tinha à minha espera quando cheguei.
Que saudades da Casa de Portugal.

2006/04/23

A minha alegria futebolística do fim de semana


Obrigado mais uma vez, Augusto Inácio.

Memória de um dia inesquecível na Emilia-Romagna

A Itália tem dois Grandes Prémios no calendário do Mundial de Fórmula 1: o Grande Prémio de Itália propriamente dito, em Monza, na Lombardia, e o Grande Prémio "de São Marino", em Imola, na Emilia-Romagna, a poucas dezenas de quilómetros de Maranello, o "quartel-general" da Ferrari. Nenhum outro povo vibra com a fórmula 1 tanto como o italiano, e especialmente na Emilia-Romagna. No dia em que se disputa mais um Grande Prémio no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Imola, aproveito a ocasião para recordar a minha mais recente visita à minha região favorita da Itália.
aqui tinha falado do meu amigo Olindo, oriundo de uma família típica da Emilia-Romagna, católica (mais a mãe) e comunista (mais o pai). O Olindo saiu mais ao pai; não gosta das festas religiosas, pois acha-as meramente comerciais e desprovidas de qualquer espiritualidade. Mas foi certamente influenciado pela atitude do pai, um canalizador que viveu toda a sua vida como um verdadeiro comunista, trabalhando sempre numa cooperativa e recusando-se a trabalhar em privado e fazer muito mais dinheiro. Quando era miúdo o Olindo ajudava o pai a distribuir o L'Unitá, o órgão oficial do PCI, nas pequenas vilas nos arredores de Maranello, onde a família vivia. Depois gostava de ver os pilotos da Ferrari a testarem os bólides na pista de Fiorano, num ponto onde dá para ver de fora. Há três anos, quando fui visitá-lo a Modena, fomos visitar o Museu da Ferrari e de seguida o Olindo mostrou-me todos esses locais. Estando a visita terminada, aguardava-nos um almoço na casa dos pais do Olindo. Ele fez questão de me apresentar os pais e de lhes apresentar um dos camaradas que conhecera na América. Lembro-me de um casal de idade avançada, com um ar muitíssimo bondoso, que nos serviu um prato com os notáveis enchidos locais e um delicioso frango à caçadora, bem regado com lambrusco. Com a sobremesa abriram ainda uma garrafa de champanhe! Eu disse ao Olindo que não havia necessidade, mas ele respondeu-me que se não fosse numa ocasião como esta a tal garrafa nunca mais seria aberta!
Depois do café e antes da despedida deram-me a provar a melhor grappa que eu alguma vez bebi e provavelmente beberei. Grappa como aquela não se encontra à venda. Fiquei o resto da tarde um pouco zonzo e com o sabor da grappa na boca.
À despedida, sem lhes saber o que dizer, só me saiu um "muito obrigado e até qualquer dia". Incapazes de falarem sem ser em italiano, só me lembro do olhar que os pais do Olindo me lançavam, durante o almoço e no fim. Via-se que gostaram muito de me ter ali. Até um dia, disseram-me, olhando-me daquela vez como se fosse a última.
Isto passou-se há três anos.
Recebi há pouco tempo a notícia de que o pai do Olindo faleceu. Não resistiu a uma crise respiratória. Manteve-se fiel ao seu partido até à morte mas, infelizmente, não viveu o suficiente para ter a alegria de ver o seu país livrar-se do governo de Berlusconi.
Gostaria de lhe ter dito o quanto gostei dele, como apreciei a sua hospitalidade, como adorei a sua grappa e, acima de tudo, o enorme prazer que tive em conhecê-lo. Receio que ele nunca tenha sabido isso.

2006/04/22

Miguel Sousa Tavares, a RTP-I e os novos campeões

Da crónica de Miguel Sousa Tavares no jornal A Bola:

«Desta vez não me preocupei muito, porque, tendo desde há vários anos deixado de frequentar Alvalade—que considero o pior ambiente para poder viver um jogo de futebol, com um público doente de facciosismo como em lado algum — era pacífica a decisão de ver o jogo através da televisão e, de passagem pelo Rio de Janeiro, tanto me fazia ver lá como à distância de meia dúzia de quilómetros de Alvalade. Assegurei--me previamente de que o hotel tinha RTP-Internacional e mais tranquilo fiquei quando, chegado de véspera, liguei para o canal português e vi a promoção «não perca o Sporting-FC Porto de amanhã, aqui na RTP-Internacional».

À hora do jogo, ligo o canal RTP e... nada. Nem jogo, nem uma explicação. Pior: a promoção à transmissão continuava, embora o jogo já tivesse começado e a transmissão não. Percebi então que a transmissão seria em diferido, se bem que não dissessem a que horas, e de novo me vi forçado a ir seguindo as incidências do jogo por telemóvel, directamente para um amigo portista, que estava clandestino entre os cativos do Sporting e que, bastante assustado, me ia sussurrando informações. Entretanto, continuava ligado à RTP-I, na esperança de que, a qualquer momento, iniciassem a transmissão em diferido. Nesse entretanto, foi-me dado ver uma vezmais a linha editorial da RTPI. E o que vi serviu para voltar a confirmar o que já sabia: aquilo envergonha Portugal. E agora, que este artigo de A BOLA já poderá ser lido pelas nossas comunidades emigrantes dos Estados Unidos, eu queria deixar-lhes aqui esta mensagem: não acreditem no Portugal que a RTP-I leva até vós — esse Portugal já não existe há muito e felizmente. Esse Portugal provinciano, atrasado, bafiento e salazarento, dos campanários em pôr do Sol, os pescadores a saírem para a faina em «fade out» com florzinhas em primeiro plano, os programas humorísticos e musicais rascas como na televisão do Ramiro Valadão, as entrevistas subservientes feitas por serventuários do jornalismo a «líderes» da comunidade emigrante, enfim, esse Portugal de antanho que vocês deixaram para trás há décadas já não existe, excepto nos brilhantes cérebros dos responsáveis da RTP-I. Numas coisas estará melhor, noutras pior, mas definitivamente está morto e enterrado. E é pena que o canal que os contribuintes portugueses pagam para levar a imagem de Portugal ao mundo não só não transmita em directo os jogos de futebol que interessam aos milhões de portugueses espalhados por aí, como ainda se dedique a levar- lhes uma imagem falsa e deprimente de umpaís que se calhar era assim que eles queriam que continuasse a ser. A RTP-Internacional é um canal antiportuguês, ao serviço da mediocridade, da preguiça e do antigamente.

Lá pelas onze da noite, no Rio, consegui finalmente ver o jogo em diferido, já mais do que digerido o resultado. Do que vi, confirmei, desculpem-me lá, a justeza da pré-análise que aqui tinha feito ao jogo: que era fácil vencer este Sporting ou, pelo menos, evitar que ele ganhasse. Bastava aplicar as mesmas armas que o Sporting vinha aplicando ao longo do Campeonato: jogar em contenção e esperar pelo erro alheio. Foi o que Co Adriaanse se dispôs finalmente a fazer e, por isso, ganhou o primeiro «clássico» e, com ele, o Campeonato. Ojogo teve assim nenhuma oportunidade para o Sporting e duas para o FC Porto e foi uma profunda chatice. Mas, sobre o mérito da vitória portista, ninguém teve dúvidas, excepção feita ao inevitável Ricardo. Já Paulo Bento, foi sério na hora da derrota.»


Tem toda a razão Miguel Sousa Tavares na sua apreciação à RTP-I. Quanto ao não ver o jogo em directo, faz parte do contrato com a SportTV. Não era nada que não se pudesse confirmar na internet (até porque a RTP-I pode ter uma programação confrangedora mas, tal como a generalidade dos canais pagos, cumpre os horários que anuncia). De qualquer maneira recomendo sempre nesta situação que se acompanhe o jogo num bar de portugueses (que no Rio é coisa que não falta - garantem-me; eu infelizmente nunca lá estive). Têm toda outra animação (mais nos EUA que em França, eu diria), e transmitem o jogo em directo, via SportTV. (Eu vi o jogo em directo. Não foi pela RTP-I.)
Também tem razão Miguel Sousa Tavares na apreciação ao jogo de há quinze dias.
No que não tem razão é na sua apreciação à época futebolística, e muito menos em dizer que o FC Porto nunca foi beneficiado pelas arbitragens. Na meia-final da taça foi-o, claramente. Ganhou o campeonato e é naturalmente favorito para ganhar a taça, dando a impressão de um domínio avassalador do futebol português nesta época, domínio esse que não existiu. Seria um melhor retrato da época (e mais justo) o FC Porto ganhar uma prova e o Sporting outra. Mas parabéns aos campeões.
Quanto à "doença de facciosismo" que caracteriza o público em Alvalade, será que o Miguel Sousa Tavares não se olha ao espelho?

PS: Noutra passagem do texto, Miguel Sousa Tavares queixa-se da "falta de penaltis" assinalados a favor do FC Porto: um, contra os seis do Sporting e os oito do Benfica. "Há estatísticas que não mentem." Pois não: mas haveria de ser um penalti no jogo contra o Penafiel a dar o título ao FC Porto. Há penaltis e penaltis; nem todos valem o mesmo.

Um texto pouco cândido

Quem não se lembra do bordão O tema é animais, Câââââândido! no concurso A Roda da Sorte, apresentado por Herman José no início dos anos 90? Pois. Não é desse Cândido que eu estou a falar. É do original, do Voltaire. É amanhã lançada uma edição nova do clássico, traduzida por este maluco-beleza. O que é simplesmente uma garantia de qualidade (espero que ele me perdoe a maluquez deste texto). A apresentação é na FNAC-Chiado amanhã às 18:30.

2006/04/21

500 anos do massacre de Lisboa (2)

Deixem-me rever um pouco a minha posição. É provável que finalmente fosse à concentração no Rossio pelo massacre de Lisboa. (Afinal, se o Filipe Soares Franco é candidato à presidência do Sporting, por que não posso eu mudar de ideias?)

Aqui têm um extracto da notícia do Público que me fez rever a minha posição:

«Em pleno coração da capital, a alguns metros do Rossio, onde há 500 anos se acenderam fogueiras para queimar os cristãos-novos, crentes e não crentes juntaram-se contra o esquecimento e pela "vontade de Lisboa voltar a ser uma cidade generosa com as suas minorias", notou o historiador Rui Tavares. (...) "É também uma forma de lembrar a necessidade de nos guiarmos pelos melhores exemplos desta cidade, que é multiétnica, multirreligiosa e sempre foi acolhedora", explicou Rui Tavares - associaram-se, entre outros, o actor João Lagarto, o antigo procurador-geral da República Menéres Pimentel e três deputados do Bloco de Esquerda, João Semedo, Mariana Aiveca e Francisco Louçã.»

Claro que, posta desta forma, só posso apoiar a concentração. É claro que houve muitos massacres (e todos os povos os cometeram), mas admito que o de há quinhentos anos fosse simbólico. Aquilo em que não participaria seria numa concentração de cariz étnico e religioso, como a que foi originalmente anunciada, onde se acenderiam velas e se rezaria. (Mas, repito, respeito quem o fizesse, e houve quem o fizesse.) Julguei que se quisesse aproveitar a triste ocasião para se fazer mais uma demonstração de força de um lóbi pró-israelita (leia-se "anti-palestiniano") que está presente e em força na blogosfera. Pelo que leio, não foi esse o caso. Tornou-se uma manifestação contra a intolerância. Ainda bem. Assim iria.

Acabo com mais um trecho da referida notícia:
«Às 19h em ponto, o escritor Mário de Carvalho estava junto ao Largo de São Domingos, em Lisboa. Observava um pequeno grupo de pessoas, quase todas pertencentes à Comunidade Judaica de Lisboa, que ontem prestou uma homenagem silenciosa às vítimas do massacre de 1506, que vitimou entre dois mil a quatro mil judeus. "Esta cidade está cheia de fantasmas", disse o escritor ao PÚBLICO, abandonando de seguida o local.»

Nem mais, Mário de Carvalho.

Colisão de buracos negros

Uma equipa da NASA conseguiu simular num computador uma colisão de buracos negros e calcular numericamente o espectro de ondas gravitacionais daí resultante. É um verdadeiro feito, dada a complexidade das equações da relatividade geral para geometrias curvas do tipo buraco negro. Parabéns aos autores.

2006/04/20

Astrolábio ciclópico

No Conta Natura, continua a série Ciclope Cínico. O Vasco Barreto recorda-nos a história do astrolábio. Há muito folclore em Portugal (particularmente nas escolas) sobre a invenção do astrolábio e Pedro Nunes. Pedro Nunes não inventou o astrolábio: inventou o nónio. (Ingenuamente eu acredito sempre no que me ensinam na escola, pelo que há uns anos quando estudava nos EUA teimei que o astrolábio tinha sido inventado por um português. Como estava errado. Qualquer visita (por exemplo) ao Instituto do Mundo Árabe, em Paris, permite comprovar que os árabes usavam astrolábios muito antes de Pedro Nunes. O pior é que na minha ignorância teimosa eu apresentava a invenção do astrolábio como o único feito científico relevante por parte de um português.) Um texto a levar muito a sério, o do Vasco.

O Vasco que entretanto decidiu sair. Mas se até o Filipe Soares Franco é candidato à presidência do Sporting, por que não há o Vasco de reconsiderar e ficar? Se considerarmos o número de vezes que o Vasco já acabou com a Memória Inventada, estou certo de que ele estará (e espero bem que esteja) de volta ao Conta em menos de quinze dias. Talvez até no futuro o Vasco venha a ser presidente do Sporting.

Na mesma série, num registo diferente, para não levar a sério, mas igualmente muito bom, temos o átomo, pelo Santiago-que-não-é-Zavala.

2006/04/19

500 anos do Massacre de Lisboa

Passam-se hoje 500 anos sobre o início de um dos episódios mais negros e sangrentos da História de Portugal, o Massacre de Lisboa, onde cerca de 4000 judeus foram assassinados pelo povo em fúria (instigado por frades), por um cristão-novo ter desvendado um suposto "milagre" de um altar iluminado simplesmente através de um reflexo.
Há uma iniciativa agendada para hoje, no Rossio: acender velas em memória dos mortos de há quinhentos anos. Eu não vou, e não iria mesmo se estivesse em Portugal, uma vez que este não é infelizmente o único massacre na História de Portugal. Houve muitos outros massacres e torturas: a indígenas, a negros, a escravos... Não estão tão bem localizados no tempo, e atrevo-me a dizer que não contribuiram tanto para a decadência do país como o de há quinhentos anos (e tudo o que se lhe seguiu - no que as perseguições aos judeus se traduziram em perdas para o país de cérebros e poderio económico). Mas não foram menos terríveis. As minhas indignações não são selectivas: se fosse à concentração de hoje no Rossio, também teria de ir a uma pelos indígenas, outra pelos negros, pelos escravos... Já agora, e saindo da História de Portugal para acontecimentos mais actuais, também teria de ir a uma concentração pelas vítimas no conflito do Médio Oriente. Espero que quem estiver hoje no Rossio também viesse a esta hipotética concentração e acendesse uma vela por todas as vítimas deste conflito.
Respeito muito a ideia do Nuno Guerreiro - o promotor da iniciativa - embora deva fazer-lhe notar que recordar o Terramoto de 1755 não é bem a mesma coisa que acender velas pelas vítimas do massacre de Lisboa. Há uns meses ninguém acendeu velas ou tão-pouco depositou flores nos túmulos dos mortos do terramoto, certo, Nuno? O que se fez foi simplesmente recordar o triste evento e a sua importância na nossa História. E é isso mesmo que eu defendo que se faça com o massacre de Lisboa e com todos os outros massacres que referi - que se recordem, que não se esqueçam, sobretudo que se ensinem nas aulas de História nas escolas (e que não se ensinem somente as nossas "glórias"). É por isso que dou a minha modesta contribuição trazendo este importante assunto a este modesto blogue. Não tenho mesmo nada contra que se acendam as tais velas ou quem as acenda. A iniciativa do Nuno é boa, eu compreendo-a perfeitamente e no lugar dele provavelmente aderiria à tal concentração e acenderia velas. Compreendo as razões dele. Mas eu não estou na situação do Nuno. Espero que ele compreenda as minhas razões.

Para ler mais: Eu sou o pequeno judeu, pelo meu velho camarada Rui.

2006/04/18

A esquerda francesa e o neoliberalismo

Ainda no rescaldo da luta contra o CPE, um extracto de um excelente artigo de André Freire no Público de ontem:

«A mobilização anti-CPE revelou uma enorme vitalidade da sociedade civil, embora não da "boa sociedade civil" (isto é, cara aos neoliberais), e uniu num único movimento organizações estudantis e todas as confederações sindicais francesas, uma frente social de que não há memória em França. Obviamente, para esta união muito contribuiu a forma como o primeiro-ministro francês conduziu o processo, nomeadamente por avançar com a medida sem negociar previamente com as organizações sociais. Ou seja, esta mobilização social veio também relembrar aos tecnocratas que, numa sociedade democrática, os cidadãos e as suas organizações representativas têm que ser ouvidos antes de se tomarem medidas que lhes dizem directamente respeito (sobretudo quando isso está legalmente previsto, quando se trata de medidas que alteram radicalmente o statu quo e, finalmente, que não estavam inscritas em qualquer programa eleitoral). Tanto mais que o Presidente Chirac foi também eleito com os votos da esquerda.
Desde a década de 1980, em larga medida sob a influência dos consulados de Reagan e Thatcher, que vivemos ao nível mundial sob uma certa hegemonia do neoliberalismo, que até mesmo as famílias partidárias socialista e social-democrata de algum modo incorporaram (nos seus discursos e práticas), embora em graus variáveis. As palavras de ordem têm sido privatizar e liberalizar (isto é, desregular) a economia, reduzir o peso do Estado, reduzir a protecção social, flexibilizar (isto é, precarizar) as condições trabalho, etc. Embora haja obviamente variações nacionais significativas, os resultados globais estão à vista: primeiro, crescimento das desigualdades sociais (PÚBLICO, 15/1/06); segundo, crescimento ou estagnação (em níveis elevados) do desemprego; terceiro, um crescimento económico débil (Europa) e, nalguns casos, até grandes depressões (América Latina, Ásia) a atingirem várias regiões do globo, embora de forma não uniforme. E, note-se, não sou eu nem qualquer radical de esquerda que fazem este diagnóstico, são análises do prémio Nobel da economia Joseph Stiglitz (Globalização - A Grande Desilusão) e do presidente do observatório francês da conjuntura económica, Jean-Paul Fitoussi (La Politique de L"Impuissance).
Perante o insucesso da aplicação das suas receitas em tantas regiões do globo, nomeadamente na Europa, o que é que nos dizem os neoliberais? Que tal insucesso resulta de uma aplicação (ainda) reduzida e pouco extensa das medidas de liberalização, de precarização, etc. Daí que, perante tal dogmatismo ideológico, alguns comparem os neoliberais com os "neocomunistas dogmáticos": se a realidade não funciona tão bem como o modelo teórico (neoliberal ou comunista) prevê é porque aquela se afasta ainda da perfeição ideal deste.»

Bombaspirínica

bomba_red.jpg

«Ah, vejo agora, você não se referia à tal era pre-aprilina dos três quartos de trabalhadores a foçarem de sol a sol, sem sapatos nem camisa (e sem bota cardada, suponho)!..Se me lembro desses tempos? Não me lembro eu doutra coisa, Jorge, descalça e vadia, com uma mão sobre a parte da saia que me cobria a castidade e a outra a segurar no cabaz repleto de caranguejos e pichas, cala do rio acima, milhentas de vezes mais feliz que os pobres mininos descritos pelo Josué de Castro com tacho nas Nações Unidas desse tempo.

Sim, concordo consigo, e é pena não é? Com tanta coisa à nossa disposição neste Portugal de hoje (excepto bons salários para todos, mas isso é o menos porque vamos apertando o cinto, que até nos nos resguarda do perigo de apanharmos diabetes), incluindo o internacionalmente conhecido analfabeto funcional- tanto em matéria de farmácia como em politica real. Foi este seu lamento, menos explícito então, que me forçou a ver lágrimas escorrendo pelas quatro águas do seu edifício literário de homem aborrecidissimo perante o espectáculo posto em palco aqui no blogue pelos curandeiros da educação.Tudo carroussel da minha imaginação.Era bom que fosse.Era bom, era.

Depois manda-me passear, bater a portas, espraiar-me e divertir-me com a leitura de livros e de autores que praticamente não assustam ninguem nos dias desta primavera. E ainda por cima temos que descodificá-los, ter um olho como o seu, de entendido, presumo, mas outro bico de obra para o analfabeto funcional, para lhes encontrarmos sentido que nos ajude a fazer comparações úteis com o presente.(...)

Se você julga que os passados com mais de cem anos andam a abarrotar com memórias de homens com visão para nos inspirarem a compreender esta admirável “modernidade” que nos põe diariamente na frente pratos do dia repletos de corrupção politica, cientifica e religiosa que a maioria come sem examinar as frescuras ou qualidades, então, Jorge, aproveito para cumprimentá-lo já e dizer-lhe que faz muito bem em aderir ao clube dos veteranos descontentes. O Álvaro, esse ilustre político da esquerda, Tiago quando romanceava, era um deles. Andou sessenta anos a barafustar anti-imperialismos mas nunca descobriu o segredo dos ridiculos discos voadores, nem outras centenas de coisinhas simples mas interessantes. Lá está: andava sempre, clássico, a falar no Spartacus e no Robespierre..»


Mais nos comentários do Aspirina B.

2006/04/17

Sigamos a Bomba! Sejamos bombásticos!

Confesso a Deus-Todo-Poderoso e a vós, irmãos: de vez em quando peco e regresso ao Blogue de Esquerda para lá perder bastante tempo e recordar textos e comentários antigos. Só aqui são dois pecados de uma vez: a perda de tempo (um pecado muito meu) e a saudade, o pecado original português que infelizmente nunca nenhum Papa se lembrou de condenar.
Sobre estes assuntos papais lembrei-me de mais um dos comentários bombásticos, ainda assinado como Madalena e dirigido ao Zé Mário. Recordo aqui um fragmento:

Fazes-me perder a paciência e entortar a vista com o teu jogo de ancas, José Mário. Dizes que o Papa é mau num corpo doutra pessoa com bom coração e ainda por cima te admiras com o facto de ele ter andado obcecado com a Nossa Senhora de Fátima. Credo! O que é que querias - que o homem andasse obcecado com discos voadores ou corridas da Fórmula 1, como certos esquerdistas neste blogue? Tem dó dos que te lêem!

Definitivamente vou converter-me à religião bombástica. O Bomba é o meu guru.

O pecado da perda de tempo

As reacções que tenho lido às recomendações da Igreja Católica sobre o tempo dispendido por católicos a ver televisão, ler jornais ou na internet fazem lembrar-me as à eleição do novo Papa, há um ano atrás: parecem-me totalmente exageradas, principalmente vindas de quem vêm (de pessoas que não têm nada a ver com o assunto).
Para começar: parece-me recomendável que não se perca tanto tempo a ver televisão e na internet. Eu próprio digo isto de mim mesmo, não por temer a Deus, mas após uma análise do meu quotidiano, e o mesmo se passa com muitas pessoas que eu conheço. É evidente que tal é uma análise pessoal, de consciência, com a qual nem o Papa nem niguém tem nada a ver, a não ser eventualmente a família e os amigos. Dito isto, não me parece nada que um líder espiritual - é isso que o Papa é - não possa dizer aos seus fiéis. Anda-se há anos a ouvir estatísticas que mostram que (principalmente as crianças) vemos muita televisão, e mais recentemente que passamos muito tempo no computador. Nunca ninguém se queixou de tais alertas. Só porque agora o Vaticano se lembrou de recordar tal facto aos fiéis, tal passou a estar errado?
Se refiro com ênfase "os fiéis" é porque é a estes e só a estes que a mensagem do Vaticano se destina. No entanto eu só ouço reacções à mensagem por parte de não-fiéis. Compreendo que certas posições dos líderes religiosos sejam criticadas por não fiéis, sempre que digam respeito a toda a sociedade. No caso da Igreja Católica, para dar os exemplos mais evidentes, compreendo que se critique - e eu critico, e bem - as posições relativas à sexualidade, particularmente ao uso do preservativo e à questão do aborto, entre outras. E acho muito bem que se retirem todos os crucifixos das escolas do Estado. Agora... não fiéis queixarem-se por alertarem os fiéis de que hoje em dia vemos muita televisão ou internet? Parece-me - e não é de agora - que os não-fiéis preocupam-se muito mais com as mensagens papais do que os fiéis.

Adenda de última hora: Ainda sobre este assunto, ler no DN Eu, pecador me confesso, por Miguel Gaspar.

2006/04/16

Try again. Fail again. Fail better.

"Cinco anos antes de morrer, na última novela publicada - Pioravante Marche (Worstward Ho) -, Beckett escreveu três frases que resumem tudo: "Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor." Três frases que foram, de certa forma, uma divisa, um lema, a fixação exacta da ética que praticou enquanto escritor. Três frases que podiam ser o seu epitáfio, se houvesse epitáfio na lápide do cemitério de Montparnasse, em Paris. Mas não há."


Não conheço a obra de Samuel Beckett. Não sabia que andava - porque ando - tão beckettiano. Mas acho o conjunto das três frases, apesar de tudo, optimista, principalmente o «falhar melhor». Já que tudo vira bosta, deveríamos pelo menos preocuparmo-nos todos em falhar melhor.

Doce Páscoa


Desta vez não dei duas voltas a Paris à procura dos indispensáveis folar e amêndoas. Vieram directamente da loja Les Halles du Kremlin-Bicêtre, ali à Porte d'Italie. (Na verdade o folar veio de Tondela e as amêndoas de Leiria.) Tão longe, tão perto.

2006/04/15

Ils sont fous, ces vikings!


A banda desenhada há muito que deveria ter acabado (o último álbum, então, é totalmente indigno de pertencer à colecção, e deveria ser de lá banido). Mas é sempre um prazer voltar aos álbuns originais, que deram a fama à série, mesmo por outros meios.
Estreou esta semana a adaptação cinematográfica do meu álbum do Astérix favorito: o Astérix e os Normandos. Podem ver um trailer aqui. Será que no filme também há um normando a dizer para o outro (sobre o Goudurix, o "campeão do medo") «não lhe batas com muita força, pois senão ele nem sequer serve para loiça»? Será que o chefe normando também come javali com natas?

2006/04/14

O futuro após o CPE

Li e gostei: Democratizar o Estado é preciso (1, 2, 3), O CPE de todos nós, Por um novo contrato social progressista, inclusivo e solidário, Terá a rua um discurso? no Fuga para a vitória.
Gostei muito de um novo blogue (escrito em grande parte a partir da CIUP), o Véu da Ignorância. A este respeito, quero destacar Uma vitória de Pirro?

2006/04/13

Duas boas notícias de Itália

A primeira boa notícia é, evidentemente, a queda de Silvio Berlusconi, e a esperança em voltar a encontrar em Roma políticos credíveis.
Antes destas eleições foi introduzido um novo sistema eleitoral estritamente proporcional, de modo a tornar as duas câmaras do parlamento mais representativas e um espelho mais fiel da vontade popular. Mas apesar destas alterações, e pela primeira vez, no Senado a esquerda ganhou (graças aos votos do estrangeiro, sobrevalorizados devido à baixa participação dos emigrantes) tendo a direita mais votos! A segunda boa notícia é esta - apesar de se ter visto livre (infelizmente só ao nível do governo) de Berlusconi, a Itália continua a ser uma piada.

2006/04/12

Le CPE en terre, Villepin à terre

Uma boa notícia: o CPE foi posto de parte. Desta crise outras lições deveriam ser aprendidas, e outros procedimentos deveriam igualmente ser postos de parte: o método bonapartista de governação e a violência nos protestos ao estilo do Maio de 1968. Ambos fazem parte do estilo francês. Se algo deve mudar, é aí.
Quanto ao fim do CPE, é uma vitória dos estudantes e dos sindicatos, mas quem também se fica a rir é Sarkozy.

2006/04/11

Vénus

Agora que a sonda europeia Venus Express acabou de entrar em órbita em Vénus, podem ver-se muitas curiosidades sobre este planeta no Klepsýdra. Sabiam que neste planeta o dia é maior do que o ano? Eu não sabia e fiquei de boca aberta.
Quando era miúdo tinha um livro para crianças sobre o Universo onde informavam que quatro anos em Mercúrio eram um ano terrestre, e um ano em Plutão eram 248 anos terrestres. Numa figura apareciam um bebé de um ano a soprar um bolo com quatro velas em Mercúrio, e um senhor de 248 anos a soprar uma vela em Plutão. E se em lugar de compararem os anos tivessem comparado os dias?
(Já agora, julgo que um ano em Vénus dura cerca de metade de um ano na Terra. Menos de um dia em Vénus.)

2006/04/10

Instabilidade blogosférica

O Luís M. Jorge decidiu acabar com o Franco Atirador. O Luís dedicou-me o mais original texto de boas vindas a um blogue que eu alguma vez li. Não lhe cheguei a responder e tenho pena. Nos aspectos puramente políticos trata-se da impressão do Luís sobre mim; não creio que tal impressão esteja muito bem fundamentada, mas não passa disso. No aspecto puramente pessoal, porém, ter-me sido dedicado aquele texto é para mim uma honra. O Luís vai continuar, esperemos que com regularidade, no Regresso a Veneza.
O Acidental acabou em festa. O Barnabé tinha tanto de "blogue do Bloco" como o Acidental de "blogue do CDS, tendência Portas", muito por "culpa" das figuras de Daniel Oliveira e Paulo Pinto Mascarenhas, e por muito plurais, dentro da esquerda e da direita, que efectivamente fossem.
No Acidental escreviam entre outros a Ana Albergaria, com quem tive algumas divergências mas cuja frontalidade sempre apreciei; o Rodrigo Moita de Deus (um dos melhores talentos da blogosfera portuguesa, e é pena que à esquerda e sobretudo à direita haja quem não o reconheça só por cegueira ideológica); e um dos bloguistas de quem eu mais gosto, o Leonardo Ralha. O Leonardo não perdeu tempo e já abriu o Papagaio Morto. Aguarda-se pelo regresso dos outros.
Tanta instabilidade blogosférica tem atrasado uma lista de hiperligações a blogues no Avesso do Avesso, mas esta lista deve estar para breve.

2006/04/09

Coragem



Se perdeu procure
Se é seu segure
Se tá mal se cure
Se é verdade jure
Quer saber apure


(Lenine, Do It)

2006/04/08

2006/04/07

O Google e a informação na rede

Vale a pena ler o sumário da conferência do director do Le Monde na Universidade Nova:

"A grande diferença hoje é que os jornalistas perderam o monopólio da informação", disse nos minutos iniciais da conferência "O papel da imprensa na democracia contemporânea".

A qualidade e a identidade ("código genético") dos jornais são a resposta. "Tem que valer a pena pagar uma informação de qualidade, verificada e com distância. Temos que aumentar o valor próprio", enfatizou. Só assim é possível combater a Internet e aquele que considerou "o perigo dos tempos modernos": o Google. O motor de busca (americano) "onde parece que tudo é substituível" e cria uma falsa ideia de informação e de diversidade.


Recorda-me uma grande divergência (que se tornou pública) com um ex-companheiro de blogue. O âmago dessa divergência era precisamente a credibilidade da informação obtida via google e o modo de a filtrar. Note-se que não quero fazer nenhum ataque ao google, que creio que mudou as nossas vidas como nenhum outro programa. É como a física nuclear ou a genética: não é nenhum "perigo", tem é de ser bem usado.

(Sobre o «pagar por uma informação de qualidade» não me custa mas não sei, mesmo do ponto de vista do jornal, qual será a melhor opção. Em vários países a circulação dos jornais pagos está a baixar. Ler mais no Ponto Media.)

2006/04/06

Estratégia para a Universidade

Muito interessantes discussões sobre este assunto têm tido lugar no Conta Natura, através dos textos do Santiago (será Zavala?). Destaco esta entrada e os respectivos comentários, entre os quais se encontram os do ilustre leftista (e meu gentil anfitrião em Los Angeles, num Memorial Day de boa memória) LOS. Espero por mais desenvolvimentos.

2006/04/05

Serão as condições-fronteira e as restrições blasfemas?

(Texto ligeiramente alterado)

Eu não sou especialista em "teoria económica", mas alguém deveria recordar ao João Miranda que a solução de uma equação diferencial não é única, "a dele", como ele pretende demonstrar (usando só a informação que lhe convém, como lhe é habitual). A solução de uma equação diferencial depende das condições fronteira. A teoria do João Miranda aplica-se a sistemas que evoluem sem constrangimentos, mas os sistemas têm constrangimentos que ele não considera. A escolha de constrangimentos e de condições fronteira na economia corresponde ao que em linguagem corriqueira se chama "política" (para não dizer "ideologia"). A solução dele (que se traduz na total ausência de "política") não é a única e nem resulta de nenhuma previsão da "teoria económica", como ele quer fazer crer. Por exemplo, aqui e, principalmente, aqui.
Apesar de tudo, eu gosto sinceramente de ler o João Miranda. É um demagogo que não trata as pessoas como atrasadas mentais. É o demagogo ideal. Funciona perfeitamente para vítimas do "eduquês" e da impreparação matemática lusa. A esquerda tradicional portuguesa não faz a mínima ideia de como lhe responder. Argumentar com ele como deve ser dá, de facto, muita luta e requer muito trabalho de casa, algo que ele também faz. As pessoas que eu me recordo de ver contrariá-lo de forma mais eficiente são o Rui Curado Silva e (na área dos comentários do Blasfémias) o meu monitor MP-S - que curiosamente me ensinou os truques das condições-fronteira. Não por acaso, ambos têm formação em Física.

2006/04/04

Sobre a lei das quotas

Para um governo ou qualquer órgão executivo estaria sempre contra as quotas. Embora se possa lamentar (e eu lamento-o) o baixo número de mulheres no actual governo, as quotas não seriam aceitáveis. O primeiro-ministro deve ser livre de formar o governo como entender.
Deve sempre procurar-se os melhores para qualquer função, e uma das principais funções do parlamento (ao contrário do governo) é ser representativo. "Ser melhor", no parlamento, também é ser mais representativo. Desta maneira as quotas no parlamento fazem todo o sentido.
Dito isto, se calhar faria mais sentido que os partidos de esquerda, em vez de imporem aos de direita as quotas, as cumprissem nas suas listas (sempre cumpriram) e utilizassem este cumprimento como argumento na campanha eleitoral (contra os partidos de direita que não cumprem as quotas).
Recorde-se no exemplo de Vasco Pulido Valente. Para fazer o que Vasco Pulido valente aqui descreve (e embora haja deputados muito competentes, estou em crer que é esta a actividade da maioria, principalmente dos dois maiores partidos), convenhamos: tanto faz ser-se homem ou mulher. O argumento do "mérito" aqui não conta para nada. Venham então as quotas. Mas há outras reformas muito importantes no sistema político.

2006/04/03

Lisboa, não sejas inglesa

Lisbonizar, sra. eurodeputada Edite Estrela? Para quê, se já temos lisboetizar que, para além de ser muito mais português, é muito mais bonito?

Alain Minc: «Esta crise é um espasmo»

Embora não concorde com muitos dos seus pontos de vista, vale a pena ler a entrevista de Alain Minc ao Expresso e à Rádio Alfa para se perceber melhor a presente (e futura próxima) situação em França, particularmente o papel de Jacques Chirac. A entrevista contém ainda opiniões interessantes sobre os papéis do sul da Europa na União Europeia e de Portugal no mundo.

2006/04/02

Brokeback about nothing

Estou em plena fase de exploração do YouTube... Entretanto, se quiserem mais vídeos sobre o mesmo tema deste, vejam o Ó Faxavor...

2006/04/01

Mentira!

Uma experiência de emissão com um meio novo. As canções são particularmente adequadas ao dia de hoje: Samba do Grande Amor e A Rosa. Vai dedicado à Ana Sá Lopes (que é fã) e ao mestre do retalho alimentar (que ao menos hoje poderia dizer que era).

2006/03/30

God will get you for that, Filipe!

Lembram-se da Maude, a ultraliberal (no sentido americano do termo) personagem da excelente série homónima dos anos 70 (e que dava na RTP2 no final dos anos 80)? A Maude tinha uma empregada negra, a Florida, com quem tinha grandes discussões e brigas.
Para provar à sua vizinhança que era uma mulher avançada e que lutava pelos direitos das minorias (uma mulher de causas), a Maude exigia que a empregada negra entrasse e saísse sempre pela porta da frente da casa e não pela entrada de serviço. Ao que a Florida respondia que não, que preferia entrar sempre pela entrada de serviço pois para ela era muito mais perto e não queria estar de propósito a dar a volta à casa toda só para entrar pela entrada principal. Principalmente porque a maior parte das vezes a Florida vinha carregada com os sacos das compras para a patroa (quem ia às compras era ela).
Por que raio é que, depois de ter escrito a carta aberta à Fernanda Câncio, me lembraria eu da Maude?

Que confusão de brócolos

Cara Fernanda Câncio:
Sei que é uma mulher de causas, e isso parece-me muito bem. Mas nem todas as causas têm a mesma importância, e algumas podem não ter mesmo importância nenhuma, para não dizer que me parecem erradas. Parece-me ser esse o caso da última causa que decidiu abraçar: a do preço dos brócolos no El Corte Inglés. Deixe-me lembrar-lhe uma ou duas coisas. Ninguém vai ao El Corte Inglés à procura de bons preços. O que se compra no supermercado do El Corte Inglés é bem exemplificado nos tais brócolos lavados e sem pé que a sua empregada lhe trouxe. O El Corte Inglés é para isso mesmo: para pessoas da média e alta burguesia mandarem as empregadas fazerem as compras, sem se preocuparem grandemente com os preços. Um supermercado para betinhos. (Espero que o Rodrigo Moita de Deus concorde.) Sobretudo, nenhum cliente do El Corte Inglés inventa causas ou escreve no blogue a queixar-se por três euros. Se tivesse a Fernanda comprado os brócolos na mercearia do seu bairro em vez de mandar a empregada comprá-los, teria ficado muito melhor servida. Para além da mercearia há muitos outros super e hipermercados onde pode fazer compras a preços mais baixos. Sugiro-lhe sobretudo: deixe as causas em paz por um bocadinho, deixe a empregada doméstica com as actividades domésticas propriamente ditas e vá a Fernanda às compras. Experimente e vai ver que descobre coisas muito curiosas. Siga os exemplos que lhe são próximos, mesmo ao lado: o do seu colega de jornal João Miguel Tavares, que ainda há umas semanas publicou no DN um estudo muito interessante sobre supermercados e preços. Ou o do seu colega de blogue João Pedro Henriques (a maior sumidade blogosférica em comércio alimentar a retalho). Vai ver que não se arrepende.
Aceite os meus cumprimentos respeitosos.

2006/03/29

Versão nova de fitas antigas

Já vimos todos este filme. No meu caso, eu participei na versão anterior. Era um dos protagonistas. Já sabemos o enredo. De seguida surgem os comentários (anónimos, mas sempre com o mesmo estilo de escrita facilmente reconhecível) assinados por um tal de Ai ai. O Valupi que se cuide.

A Bola em Newark


Ferry Street ("Portugal Avenue"), Newark, New Jersey, EUA

A Bola tem desde hoje uma edição impressa e distribuída nos EUA e Canadá, a partir de Newark. Parabéns ao vetusto diário desportivo português. Conforme a fotografia atesta, há muito que constitui um dos produtos de consumo mais procurados no Ironbound, a par do bacalhau, dos enchidos e do peixe. Maçãs reinetas é que não há maneira de lá se encontrar...

2006/03/28

Muito em português

Simpaticamente o Lutz, autor do Quase em Português, deixou-nos uns trechos das obras de Brecht, com o objectivo de "reabilitar" este autor. Conforme eu escrevi, a minha opinião baseava-se num conhecimento muito superficial da obra! (Na verdade também se baseava em várias discussões com amigos meus alemães, como o Lutz.) Aquele trecho, naquele contexto, pareceu-me totalitário. Não mais do que isso. Nunca procurei que tal fosse uma opinião sobre toda a obra de Brecht (baseada num trecho). Era mais uma intuição do que uma opinião ou muito menos um parecer definitivo (e eu - defeito ou virtude de profissão - valorizo muito a minha intuição). Mas agradeço ao Lutz a gentileza.

No dia das eleições de Israel

Uma questão muito actual, no Quase em Português, um blogue que não conhecia e a que cheguei via o Franco Atirador, em dois textos muito lúcidos: Combater o Anti-semitismo: Teoria e Prática e Linguagem draconiana e anti-semitismo. A fazerem-me lembrar os tempos áureos do BdE...

Contra o despedimento sem justa causa

É natural e desejável para ambas as partes (empregadores e jovens recém formados) que não haja um compromisso definitivo nos primeiros empregos, mas para isso já está instituído o modelo do contrato a termo certo (que na prática é o que acontece sempre). Que para todo e qualquer despedimento (que é diferente de termo de contrato) seja necessária uma causa justa e comprovada, para mim é uma questão civilizacional. Há coisas em que não podemos transigir e esta é uma delas.

manif_28

Adenda: O essencial sobre o que está em jogo é, a meu ver, o que referi acima, e nesta questão como em todas há que separar o essencial do acessório. Só conheço a realidade francesa enquanto investigador numa grande École e num laboratório de Estado; nunca estudei ou dei aulas em França. Para uma perspectiva de quem está completamente por dentro destas duas realidades recomendo vivamente a leitura do que o André Belo tem vindo a escrever no Garedelest.

2006/03/27

Informações complementares

Sobre o Hôtel de Ville (cortesia do Manuel Resende) e sobre outras actividades televisivas de José Carlos Malato (originalmente no Frangos para Fora e não no Metro...).

A foto e os factos

Para tirar a foto do coelhinho na entrada anterior tive de andar a passar por entre câmaras durante a gravação do programa, contrariando todas as instruções que o mesmo coelhinho nos dera no início (que também eram do tipo "aplaudam quando eu vos fizer sinal para aplaudir"). Não creio que tenha chegado a aparecer na televisão em directo, mas para eu, com a minha vocação de paparazzo, tirar a foto comprovativa e colocar no blogue, muita gente olhou para mim a pensar "quem será este maluco?" Reparem bem na foto, lá ao fundo, no ar de José Lello a olhar para mim. Provavelmente a pensar que eu estou a usar o zoom (que a minha velha máquina não tem) e a fotografá-lo a ele.

2006/03/26

A diferença entre o Silva e o Carreira está no coelhinho



O saudoso Tony Silva tinha no Tal Canal uma deliciosa "coelhinha" (interpretada por Natália de Sousa) a apelar aos aplausos do público. O Tony Carreira e os restantes convidados de José Carlos Malato tinham o coelhinho que esta foto evidencia.
Uma lição importante: nunca confiar na espontaneidade das palmas de um programa gravado em directo.

2006/03/25

O mundo é pequeno e Paris é uma aldeia


Nunca tinha estado nos salões nobres do Hôtel de Ville de Paris, apesar de amigos que lá estiveram me garantirem que eram muito bonitos, e - confesso - foi esse originalmente o principal motivo que me levou a pedir um convite para a emissão especial, faz hoje três semanas, do programa Portugal no Coração, directamente dos mesmos salões para a RTP.
O que eu não faço por ir conhecer os salões nobres do Hôtel de Ville: ter de assistir ao Portugal no Coração, programa que, de facto, não costuma fazer parte das minhas preferências. Bem, assisti e dei o meu tempo por muito bem empregue. Está certo que tive de gramar alguma propaganda (política e não só) da praxe, com discursos cheios de "saudade" e de "Portugal sempre no coração". Mas é esse o programa... Só que, para além de nunca antes ter estado numa emissão de um programa ao vivo, assisti a alguns momentos musicais de qualidade (quero aqui destacar a fadista Ana Moura - sem parentesco! - que me pareceu francamente muito boa). Pena que no meio da exaltação dos emigrantes a Tony Carreira, porventura outros cantores tenham passado mais despercebidos.
Mas do que não estava mesmo nada à espera foi de conhecer um antigo bloguista (para quando o regresso?), comentador deste blogue - já o era antes de o conhecer - e do antigo BdE, o Manuel Resende. Bem fiel à sua forma de estar nos comentários (onde não "perdoa" erros de ortografia), o Manuel não deixava passar em claro nenhum dos pontapés na gramática, em português e em francês, dos apresentadores ou dos entrevistados. Por um feliz acaso sentei-me ao lado e tive o prazer de o conhecer a ele e à sua família.
Por tudo o que contei, um serão que antevia como uma seca motivada pela minha ideia fixa de conhecer os salões nobres do Hôtel de Ville - que, diga-se, são bem bonitos - acabou por se tornar bem agradável. Se calhar ainda vale a pena ter ideias fixas.

2006/03/24

Clareza e simplicidade


«"Estou a gostar de ouvir isto" comentou em surdina um velho militante de Vila Nova de São Bento, que foi frequentador assíduo das cadeias do antigo regime.(...)
Jerónimo de Sousa retoma a palavra. "Camaradas, por mais que tentem escamotear a história e os factos, não estão eliminados os antagonismos de classe. Bem pelo contrário, a luta de classes continua a ser a grande questão da nossa época" vincou com palavras marteladas o orador. A audiência compreendeu onde "o camarada Jerónimo" queria chegar e apoiou com palmas e palavras de ordem. (...)
As palmas regressam em força e o secretário geral dos comunistas, coloca a cereja por cima do bolo ideológico que acabara de confeccionar: "Camaradas, Somos um partido feito de homens e mulheres, reconhecemos os nossos erros e temos consciência que não temos verdades absolutas." O auditório percebeu a mensagem e Jerónimo de Sousa terá ficado com as costas bastantes amassadas, por ter ousado ir ao encontro das bases do seu partido. (...) Bastava ouvir os comentários, as expressões de alegria que contratavam com o estado de espírito de tempos recentes em que até os mais convictos sentiam vacilar o ideal comunista.
Foi como que um clique. O aparecimento de algo que faltava. Não pode ser apenas a capacidade afectiva de Jerónimo de Sousa. A forma vibrante como as pessoas expressavam o seu apoio às palavras do líder, revelaram que era urgente falar assim. (...) Estoiram os aplausos e Jerónimo de Sousa, não perde tempo. (...) Percebe-se a razão da empatia do novo secretário geral do PCP. Fala a linguagem que as pessoas já tinham deixado de ouvir.»

(reportagem de Carlos Dias, Público, 20 de Março de 2006)

A esquerda bem-pensante e a linha justa

Quando surgiu o Bloco de Esquerda, algumas pessoas amigas que conhecem bem a esquerda e os dois partidos garantiram-me que muitos dos seus membros que provinham do PCP não eram menos estalinistas que a linha mais dura do PCP, apesar de terem saído em conflito com esta. O que havia era divergências entre facções no PCP, e esta facção (que viria a integrar-se no Bloco) simplesmente estava em minoria. Mas não era mais democrática por natureza.
Este parecer não é para ser generalizado a todo o Bloco de Esquerda, o mais heterogéneo dos partidos portugueses de dimensão média. Nem sequer é para ser generalizado a todos os membros do Bloco provenientes do PCP. Mas à medida que os vou conhecendo melhor vou-me convencendo de que quem me avisou tinha razão.

2006/03/23

Pequena questão

Conseguem ver a fotografia nesta entrada? Se estiver em Windows (com o IE), consigo. Em Linux, com Mozilla, não consigo! A fotografia aparece com outro endereço. Se colocar esse endereço passo a vê-la em Linux mas deixo de a ver em Windows. E vocês, conseguem vê-la? Com que sistema/browser?
Se alguém entendido nos álbuns fotográficos do Yahoo quiser dar um esclarecimento, ficarei agradecido.

O texto anterior, antes de ser reescrito...

...continha passagens como «Por tal peça o autor já não me inspirava grande simpatia», «Já nessa altura o autor não me inspirava grande simpatia.», «Depois de ler este texto, (...) Brecht deixou de me inspirar qualquer simpatia.» Efeitos de uma eliminação injusta e de uma dor de cabeça, prenúncio de uma gripe a caminho. Espero ao menos ter deixado clara a minha simpatia por Brecht, autor que, como referi, conheço muito mal.

Utilitário... para Brecht

Praticamente desconheço a obra de Brecht. Para além de A Ópera de Três Vinténs, que vi há uns naos no Teatro Aberto, só conheço um fragmento de uma peça em que o autor condena Galileu por ter recuado perante o Tribunal da Inquisição. Por esta peça o autor já não me inspirava grande simpatia: será que Brecht julga que Galileu teria prestado um melhor serviço à humanidade sujeitando-se a ser um mártir como Giordano Bruno? Teria Brecht noção do que estava a dizer?
Recentemente, depois de ter lido este texto da sua autoria no Aspirina B, Brecht deixou de me inspirar simpatia. Por estas duas amostras parece-me um autor totalitário.

A isto chama-se o sistema...


...e também a jogadores injustificadamente explusos em alturas cruciais, a foras-de-jogo sistematicamente mal assinalados (com prejuízo sempre para o mesmo lado), etc...
(E era penalti, sim. A televisão não deixa dúvidas de que o corte com a mão é feito dentro da grande área.)

2006/03/22

Estou tão confiante...



...que até acho que vou almoçar dobradinha.

Li e gostei

Meus genes discretos, pelo Vasco de Nova Iorque.

No Diário de Notícias:
Atoleiro, por António José Teixeira.
A má sociedade civil, por António Costa Pinto.