2006/05/15

Assim se vê a idade

Uma directa, no sentido estrito do termo, é passar uma noite em claro e só voltar a dormir na noite a seguir.
Fiz algumas directas na licenciatura, como toda a gente. Quando estava a fazer o meu doutoramento também. Uma delas foi quando estava a preparar um seminário sobre a minha investigação, no meu instituto. Era às 13 horas. Passei a noite toda lá, e como bom português que sou (não deixo os créditos por mãos alheias), estava a imprimir os acetatos às 12:30. Meia hora antes. E dei o seminário com uma directa.
Lembrei-me desse seminário nesta semana que acabou, na qual passei duas noites sem dormir a preparar o seminário que dei na sexta-feira. Mas não fui capaz de aguentar até à noite sem dormir. Em ambos os dias fui deitar-me de manhã, mas tive de dormir umas horas. Ou seja, já não sou capaz de fazer uma directa. Se a isto acrescentarmos que já não deixo a preparação do seminário para a última da hora, assim se vê como me estou a tornar velho e sem graça.

2006/05/14

No jazz com o dissimulateur

Esta não ficou registada, mas garanto-vos que é verdadeira.
Em que estaria a pensar o Primeiro Ministro francês no sábado à noite? Estaria preocupado com o affaire Clearstream e com a possibilidade de ter que vir a abandonar o governo em breve? Estaria aborrecido por não se ter visto livre do seu rival Nicolas Sarkozy? Estaria apreensivo com o relatório que nesse mesmo dia o Libération publicava? Aparentemente não era em nada disso que Dominique de Villepin pensava.
No sábado à noite fui com amigos ao Festival Jazz à Saint-Germain-des-Prés, mais concretamente à Maison des Pompiers do 6ème, ali a St. Sulpice. O concerto era ao ar livre. E quem estava incógnito, no meio da multidão? Dominique de Villepin em pessoa, ouvindo a música, trocando sorrisos com a companheira que de vez em quando abraçava. Um grupo de vários portugueses e portuguesas, italianas e um dinamarquês poderão confirmar.
Surgiu a ideia de pedirmos (alguns de nós) para tirar uma fotografia com o senhor. (É curiosa esta nossa reacção - incluo-me no grupo. Nenhum dos franceses presentes queria ir tirar uma foto de Villepin, e não creio que os portugueses quisessem com Sócrates.) Eu fui mesmo incumbido de ir falar com o primeiro ministro. Diria qualquer coisa do tipo «Bonjour, mr. Villepin. Nous sommes un groupe d'étudiants portugais. Nous ne voulons pas protester...» Só que não havia máquina fotográfica. Ninguém tinha. Bem feita - eu deveria saber, deveríamos todos saber que em Paris anda-se sempre com uma máquina fotográfica.
O mínimo que posso fazer é tentar aqui reconstruir a fotografia que ficou por tirar. Eu estou mais abaixo, ao lado do Rochemback. O Sandro e o Rui estão aqui. Quanto ao Villepin, deixo-vos com a capa do dia do Libération, que ele próprio e todos os parisienses tinham visto antes do concerto em todas as bancas.

2006/05/13

O clube das metamorfoses

Primeiro, foi o presidente que deu o dito por não dito e afinal já era candidato à presidência.
Depois, foi o capitão da equipa que deu o dito por não dito e afinal já queria jogar mais um ano.
Será que agora o treinador não pode dar o dito por não dito e dizer que, afinal, conta com o capitão? Se não fizer isso também estará a dar o dito por não dito, só que neste caso o dito há um ano, quando criticou publicamente as saídas do anterior capitão e do lateral esquerdo.

2006/05/12

Antes fosse a lutar com o latex!

Conforme bem notou o Nelson (sem acento, embora em português se escreva Nélson) é LaTex e não latex (este último é uma borracha usada no fabrico de preservativos...). Era para alterar o texto, mas depois li a frase «Após duas noites muito mal dormidas a lutar com o Latex...» e deixei estar. Antes tivesse sido essa a razão por que eu esta semana dormi pouco.

Durma-se com um software destes

Após duas noites muito mal dormidas a lutar com o Latex, terminei o ficheiro com a apresentação do meu seminário. Costumava dar seminários em acetatos (impressos), mas achei que estava mais do que na hora de me converter às apresentações electrónicas. Só que, com as fórmulas complexas que tenho que apresentar (e que nos artigos têm imperativamente de ser escritas no Latex), continuei a trabalhar neste software, procurando na internet os programas que me permitiriam fazê-lo. Só então vi bem (mais uma vez!) a paciência que é preciso ter com o software de distribuição gratuita (open-source). Não só existem mil e uma versões diferentes, como cada uma dessas versões tem instruções diferentes de instalação e utilização. Por vezes, a mesma versão em locais diferentes tem instruções diferentes.
Especificando: tinha a usar uma package do Latex chamada Prosper. O objectivo era obter um ficheiro .pdf todo semelhante aos do PowerPoint, só que com as fórmulas todas (e sem ser da Microsoft, o Bill Gates e coisa e tal). As intruções diziam que eu tinha que usar um comando chamado pdflatex. Instalei tudo e a coisa nada de funcionar. Aparentemente antes de ter instalada aquela package, tinha que ter instaladas mais não sei quantas packages. Que não tinha. (A instalação não é autosuficiente, portanto.) Todas essas packages existem para sacar em não sei quantas versões (sem nenhuma versão oficial, que no software de distribuição gratuita é coisa que não existe), e a package Prosper não funciona com todas essas versões. Falei com um colega (algo que deveria ter feito de princípio), que me disse onde poderia usar a tal package em Linux, já instalada (nos computadores da universidade), e que nunca deveria usar o pdflatex: teria de ser o latex normal, seguido de um comando chamado dvipdf -sPAPERSIZE=a4. Lá tive de me ligar aos computadores da universidade e acabar o trabalho lá. Tudo correu bem, mas muitas horas foram perdidas com estas "experiências". Cada vez que um tipo se mete com o software livre dá nisto - ou se é basicamente um engenheiro informático e se conhecem todos os comandos do Linux, ou perdem-se horas, dias, sem nunca se perceber o que se passa.
Finalmente outros dois colegas (com quem eu deveria ter falado à partida) revelaram-me que existe um conversor (de distribuição gratuita...) de Latex para PowerPoint, que permite usar este último sem ter que estar a reescrever as fórmulas todas. Palavra: eu tenho a maior simpatia por todo o software de distribuição livre, mas também tenho a maior simpatia pelo meu tempo (e já não tenho idade para fazer directas a trabalhar). Acho que me vou converter ao tal conversor.

Adenda: a ligação segura aos computadores da Universidade é feita pelo Putty, um simpático programa de ligação a uma máquina Linux a partir de um computador Windows. É um programa muito simples, de distribuição livre, e que se saca sempre do mesmo sítio. Já uso o Putty há anos e nunca me deixou ficar mal.

2006/05/11

Get physical

Se isto fosse verdade, seria a melhor maneira de converter o Pedro Mexia à Física Teórica. Mas é mentira, pelo menos na maior parte dos casos que eu conheço. É verdade nos caos que lá são referidos... Talvez seja assim, em última instância, que se distingue um bom físico de um físico vulgar.

2006/05/10

Força Roca!

Aeroporto de Lisboa, zona de embarques, Janeiro de 2006

Agora já não és treinado pelo Peseiro, e não vais perder a mesma Taça na final dois anos seguidos!

2006/05/09

Parabéns ao Benfica

«Koeman paga 500 mil euros para sair», anuncia o Record. Evitam ter que despedir o treinador (no fundo aquilo que mais desejavam) e de o indemnizar, e ainda por cima recebem 500 mil euros por quebra de contrato. Desde a venda pelo FC Porto do Secretário ao Real Madrid que eu não via um negócio tão bom no futebol português.

2006/05/08

Lugar comum

Se há coisa com que eu embirro é com o uso da expressão "lugar comum" (não com a expressão em si). Embirro com quem a usa, pelo que ela tem de crítica à "falta de originalidade", sendo que quem a usa na maior parte das vezes não é nada original. Não há nada menos original do que usar a expressão "lugar comum". Não há maior lugar comum do que dizer que algo é um "lugar comum".
Serve este texto para saudar o aparecimento de mais um blogue colectivo, lugar comum da Susana, do Afonso, do Lutz e do Luís. O título (excelente para um blogue, principalmente colectivo) promete. A qualidade dos escribas não vai decepcionar. E desculpem o lugar comum.

2006/05/07

Só as mães são felizes

Uma música para o Dia da Mãe. Não aconselhável a pessoas especialmente sensíveis.

2006/05/06

«São Paulo dá café...»

Quanto à questão posta pelo Rui, a resposta foi dada pelo Noel Rosa na primeira metade do século passado, numa frase lapidar que eu reproduzi aqui. Como diria um baiano omnipresente, São Paulo tem «a força da grana que ergue e destrói coisas belas.» São Paulo é o avesso do avesso.

«Voto no Lula»

«É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido o escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos). Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer "espera aí". Quando aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do Senado dizer que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante --aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas.»

«o preconceito de classe contra o Lula continua existindo --e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: "Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?". Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! --até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. "Agora sai já daí, vagabundo!". É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. "Agora volta pra senzala!".»

«Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: "Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa sacos".»

«Quando ele [Caetano Veloso] fala que as pessoas do atual governo se cercam da aura de esquerda para justificar seus atos e reivindicar para si uma posição superior à dos demais, tudo isso também vale para o governo anterior. Os tucanos costumam carregar essa aura de esquerda com muito zelo. Volta e meia os vemos dizendo que foram contra a ditadura, que são intelectuais de esquerda. Fernando Henrique foi eleito como candidato de centro-esquerda. Na época a vice entregue ao PFL parecia algo estranho. Depois se provou que não era. As pessoas se servem do passado de esquerda como se fosse um título, um adorno. Na prática política efetiva essa identidade não funciona mais. Mas não funciona não apenas porque as pessoas viraram casaca. A história levou para isso. Levou o PSDB a se tornar o que é e obrigou o PT a abdicar de qualquer veleidade socialista ou revolucionária.»

«Percebo nesses grupos [de oposição de extrema-esquerda] um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula. Acompanhei o PT desde a sua fundação e vi de perto muitas dessas discussões. Em 1985, na eleição à prefeitura de São Paulo, eu achava que o Fernando Henrique era o único candidato da esquerda capaz de derrotar o Jânio Quadros. O PT lançou o [atual senador Eduardo] Suplicy. O que eu briguei com gente do PT --e por causa do Fernando Henrique Cardoso (risos). A candidatura do Suplicy no fim ajudou a eleger o Jânio Quadros.»

«Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chamados chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.»

(Chico Buarque em entrevista à Folha de São Paulo, via Caetera.)

2006/05/05

What a larger Europe needs is small countries able to think big

Um interessante artigo de Timothy Garton Ash (recomendado originalmente pelo André).

A deportação de portugueses no Canadá

Não julguem que é assunto pacífico entre os canadianos. A comprová-lo está este vídeo, por um comediante local.

2006/05/04

Carioca



O disco mais esperado dos últimos sete anos chega hoje às lojas. Carioca, é esse o título.
(Os discos do Chico Buarque são como os títulos de campeão do Sporting: são raros e temos sempre medo que sejam os últimos. Ouvimo-los e celebramo-los como se fossem os últimos. No fundo, está tudo dito na Construção.)
Olhando para o repertório, das doze músicas a maioria é inédita: só Ode aos Ratos é uma regravação (a música já estava, com um arranjo diferente, em Cambaio, de 2001). Dura na queda, uma música recente, foi gravada no último álbum de Elza Soares, mas é interpretada pela primeira vez num álbum de Chico. O mesmo vale para Imagina, uma parceria com Jobim. Ouvir Chico cantar Imagina é para já a minha maior expectativa, enquanto não ouço o álbum todo.
Enquanto não o ouvimos, contentemo-nos com uma música homónima originalmente no álbum As Cidades, mas numa versão ao vivo.

(Ó Ana, diga qualquer coisa. Pare lá com a greve.)

2006/05/03

Os paradoxos do sindicalismo

«De acordo com um estudo, de 2004 da Comissão Europeia, a taxa de sindicalização dos trabalhadores portugueses era de 24,3% em 1997, só acima da espanhola (15,7%) e da francesa (9,8%). E muito abaixo da dos países nórdicos, que oscilava entre os 75% e os 82%», lê-se no DN.

Mas por que será então que este resultado contraria um pouco o nosso senso comum? Os países que afinal têm uma taxa de sindicalização mais baixa são os que geralmente associamos a um movimento sindical mais forte, e (principalmente a França) onde se registam as maiores paralisações, as greves de parar o país todo...
Talvez o erro esteja na associação "maiores protestos" e "maiores greves" a "sindicatos mais fortes". Nos países nórdicos há menos greves, mas muitas vezes os sindicatos têm mesmo uma palavra a dizer na administração da empresa (algo que em Portugal e em França seria impensável, e aqui as culpas repartem-se entre trabalhadores e patrões). Numa palavra, os sindicatos têm mais responsabilidades.
Compare-se os países nórdicos com o extremo oposto, a França - veja-se o caso recente do CPE e dos exageros associados às manifestações, mesmo se por um motivo justo. Mas talvez os estudantes e os trabalhadores não tivessem outra alternativa: só assim seriam ouvidos.
Os números não enganam: nos países nórdicos há menos greves e menos conflitualidade social. Os sindicatos são mais fortes e conseguem mais frequentemente os seus objectivos.

Soy loco por ti América (II)

O "libertador" Hugo Chávez, por João Morgado Fernandes no DN.

2006/05/02

Soy loco por ti América

Restaurante hispânico encerrado em Dallas, no 1º de Maio, por solidariedade para com os imigrantes. A nota está escrita em espanhol e inglês.

Enquanto vivi nos EUA os feriados eram diferentes, não só obviamente os nacionais mas mesmo os religiosos - onde eu vivi prestava-se menos atenção aos feriados cristãos e mais aos judeus, e isso era natural. O que me fazia confusão era não se celebrar o 1º de Maio - o "dia do Trabalhador" nos EUA é a primeira segunda-feira de Setembro, um feriado para se passar em família antes do regresso às aulas e... ao trabalho. Não compreendia e nunca aceitei como poderia não se celebrar este feriado, principalmente tendo em conta que as suas origens ocorreram em território americano, com trabalhadores americanos. Aquele país não quer saber mesmo nada das lutas dos trabalhadores e da duração das jornadas de trabalho.
(Não é bem assim: existem sindicatos nos EUA, e não me admiraria que a taxa de sindicalização dos trabalhadores fosse bem superior a em Portugal. Simplesmente actuam de outra maneira.)
De qualquer maneira, não se celebrar o 1º de Maio não me parecia digno de um país civilizado.
Ao mesmo tempo, do que eu mais gostava nos EUA era da forte presença imigrante, que traz àquele país características únicas. Os "americanos" não existem; vêm de todo o mundo. E a grande força dos EUA sempre foi o abrir-se à imigração. Dentro desta, merece particular destaque a imigração hispânica, os "latinos". Foram os que eu conheci de mais perto.
É com um sentimento de alívio que eu vejo os "latinos" a manifestarem-se nos EUA, a demonstrarem a sua força e a sua importância, e a escolherem para essa data - certamente não por acaso - o 1º de Maio. Talvez no futuro o 1º de Maio venha a ser recordado não só como o dia do Trabalhador mas também como o dia do Imigrante. Vejo estas manifestações e imagino o meu sonho a cumprir-se - a língua espanhola a civilizar aquele país. Uns EUA sem perderem as suas características - o voluntarismo, o optimismo, a confiança, a ambição, o trabalho, ... mas "latinizados". O mundo só teria a ganhar com isso.

2006/05/01

"Somos América!"

Imagem de uma manifestação de imigrantes hoje em Times Square, New York

120 anos

Foi precisamente há 120 anos que, nos EUA, os trabalhadores iniciaram uma greve geral com vista ao estabelecimento de uma jornada de trabalho de oito horas. Houve protestos sangrentos no Haymarket em Chicago. Desde então esta data foi adoptada como Dia Internacional do Trabalhador. Ironicamente, não é comemorado oficialmente nos EUA, embora este ano prometa ser agitado.