2006/05/01

75 anos


aqui tinha referido que é necessário todas as (belas) cidades terem um edifício alto e feio, de onde se possa mirar a cidade sem se ter pena de não se estar a mirar esse edifício. Para isso Paris tem a Torre Montparnasse. O equivalente em Nova Iorque poderia ser o feioso Empire State Building, mas infelizmente nem assim se consegue deixar de ver o Chrysler Building (como se vê na fotografia - é o que está por trás), com uma cúpula ainda mais horrível. Nova Iorque está mesmo a precisar de um novo World Trade Center, de preferência tão bonito e tão sóbrio como o anterior.
Apesar de tudo o Empire State Building é um edifício feio mas simpático. Permite-nos vistas espectaculares do Central Park e do Harlem como mais nenhum, e ainda de New Jersey, de Long Island e do sul de Manhattan. As cores da cúpula variam consoante a data e a ocasião (ver aqui). A 7 de Setembro de 2001 eram verde e amarelo (dia do Brasil). A 10 de Junho de 2003, e durante essa semana, eram verde e vermelho (dia de Portugal). É um ícone geográfico e histórico e merece respeito. Faz hoje 75 anos.

2006/04/30

Abril sempre

Nélson, e se retomasses a série, pelo menos por mais um mês? Pode ser que te queiram lá na Abril em Maio.

2006/04/29

Divulgando a ciência

Via Conta Natura, chamo a atenção aos interessados (entre os leitores do Avesso do Avesso deve haver vários) para o Primeiro encontro de Comunicação de Ciência. É um assunto que me interessa e a que me vou dedicar por algum tempo em breve. Bem gostaria de lá estar se pudesse.

2006/04/28

"Devolver o Sporting"... a quem?

É repetindo o lema "devolver o Sporting aos sócios" que uma lista, da qual fazem parte (um como apoiante e dois como membros da direcção) as três figuras ao lado, se apresenta. Mas "devolver" o quê, a quem?
Comecemos pelo candidato, Sérgio Abrantes Mendes. Não apresenta nenhuma alternativa concreta, para além das células fotovoltaicas na Academia (que até seriam uma ideia engraçada, mas não seria isso a viabilizar financeiramente o Sporting). Abrantes Mendes promete tudo: mantém uma equipa forte, mantém o eclectismo, não vende património. Só não diz como... A única coisa que afirmou foi que tinha um acordo com um banco credor do Sporting, no que foi logo de seguida desmentido pela administração desse banco.
De seguida vemos um antigo capitão, não de muito boa memória. Representa o pior período da história do Sporting, os dezoito anos sem títulos. Não saiu pela porta grande, e nem é especialmente bem recordado quando comparado com outros mais recentes. Desde então tem estado afastado do futebol; no entanto, recentemente foi convidado para integrar a equipa técnica. Fez saber que só aceitaria se fosse como chefe do departamento de futebol, apesar da sua experiência nula nesse tipo de cargos. Sempre se teve em grande conta este Oceano.
Finalmente, ao meio temos a Dona Isabel Trigo de Mira. Recentemente a Dona Isabel Trigo de Mira era a presidente dos Leões de Portugal, uma instituição particular de solidariedade social ligada ao Sporting, criada e mantida por sportinguistas e destinada a apoiar os sportinguistas mais necessitados, bem como o auxílio financeiro nos estudos dos "leões" mais jovens. Um daqueles pequenos pormenores que distinguem o Sporting, e que o tornam - que é - um clube diferente, sem paralelo.
Bem, mas o que afirmo de seguida não tem nada a ver com os Leões de Portugal, de cuja direcção a Dona Isabel Trigo de Mira em boa hora se afastou, a partir do momento em que é candidata à direcção do clube. Tem mais a ver com o tempo em que a Dona Isabel Trigo de Mira era mesmo membro da direcção. Não conheço a senhora, mas vejo-a como uma "invenção" de José Roquette, que teve continuação com Dias da Cunha. A missão da Dona Isabel Trigo de Mira era correr o mundo e "apoiar" os núcleos sportinguistas no estrangeiro, constituídos por emigrantes. É claro que estes núcleos merecem apoio - por experiência própria, afirmo que é comovente conhecer-se alguém que nasceu e sempre viveu fora de Portugal e sofre cada domingo pelo Sporting como quem vai a Alvalade. Eu conheci casos assim. Só que uma forma peculiar arranjada para promover esses núcleos de emigrantes era organizar jantares com a presença de figuras do clube. E quem era a melhor figura que o Sporting arranjava para se promover no estrangeiro? O Carlos Lopes? O Vítor Damas? O Jesus Correia? Não! Era... a Dona Isabel Trigo de Mira, que adorava estes jantares-convívio. Lembro-me de os ver anunciados nas lojas da comunidade portuguesa de Farmingville, em Nova Iorque, perto de onde vivi. Dois jantares no mesmo restaurante e com o mesmo menu, o de sportinguistas e benfiquistas. O do Benfica tinha presente o Eusébio. O do Sporting, para além de ser cinco dólares mais caro, em vez do Eusébio tinha a presença... da Dona Isabel Trigo de Mira, que é uma senhora muito preciosa (vale mais cinco dólares por cabeça do que o Eusébio). Fez parte das direcções de Roquette e Dias da Cunha, mas recusou (ou não foi aceite por) Soares Franco.
O principal, no entanto, é que se se falar com pessoas como a Dona Isabel Trigo de Mira e muitas pessoas que apoiam a lista de que ela faz parte, elas acham muito natural "representarem" o Sporting com viagens pagas, mesmo que não façam mais pelo clube do que isso. São eles os "verdadeiros sportinguistas". Alguns monárquicos, alguns antigos atletas, alguns dirigentes de má memória, que pouco ganharam mas que têm imensas saudades de si mesmos. E que não têm nada a ver com a realidade do clube hoje. Quando afirmam que querem "devolver o Sporting aos sócios", na verdade querem devolver o clube a eles mesmos. Para eles, "eles" são o Sporting. Está na altura de lhes provar que não têm razão.

2006/04/27

A simplicidade

O indiano Ashoke Sen é um dos líderes mundiais na comunidade dos físicos teóricos, na área da teoria das cordas. Doutorou-se na mesma universidade que eu e era lá visita frequente. Fazia-se acompanhar pela sua mulher, também indiana. Ambos formam um casal muito simpático e muito simples. A simplicidade de Sen traduz-se neste facto: poderia ser professor em qualquer das melhores universidades do mundo e ganhar muito mais dinheiro pelo que faz, mas prefere continuar na sua Índia natal e contribuir para o seu desenvolvimento científico. Valha-lhe o facto de ser respeitado, não só no resto do mundo civilizado mas, também, no seu país.
Para mim a melhor prova da simplicidade de Sen é este facto recente (com poucas horas): escrevi-lhe um email a colocar umas questões sobre o seu artigo mais recente, sobre a entropia de buracos negros, e exactamente no mesmo tópico em que estou a trabalhar. Mesmo assim deixem-me dizer com clareza: ao pé do Sen, eu não sou nada (e apesar de já o ter visto várias vezes, não o conheço pessoalmente). Pois Sen respondeu ao meu email em poucas horas, reconheceu que eu tinha razão na minha observação, argumentou a sua hipótese e terminou assim:

Please let me know if you agree.

With best regards

Ashoke


Já viram isto? Eu confesso que ainda estou nas nuvens.

O fim da internet como nós a conhecemos?

Não será ainda o fim, mas poderá muito bem ser o princípio do fim, pelo menos nos EUA. Contra este projecto estão o movimento MoveOn.org, of course, a Amazon, o Google e deveriam estar todos os bloguistas e internautas em geral. No rescaldo do dia da Liberdade, é também tempo de nos preocuparmos com isto.

2006/04/26

Obrigado Ricardo!


O Ricardo Sá Pinto merece um texto especial, que eu só contava escrever dentro de duas semanas. Enquanto não o escrevo, deixo-vos com a sugestão do Leonardo Ralha: Isso é que era acabar a carreira em beleza.

Rescaldo blogosférico do 25 de Abril

Agradeço a sugestão do Pedro, mas é como vês...
Claro que estou em festa, pá, mas nada que se compare com a festa que foi há dois anos, quando vivi o melhor 25 de Abril da minha vida, na Casa de Portugal (e relatado em pormenor no BdE). Também lá estavas... Foi memorável. Era um número redondo, e sabes que isto da base decimal é uma herança muito importante que os árabes nos deixaram. Abraços e peace and love para ti também.
A mais agradável evocação do 25 de Abril que eu vi este ano foi a do Miguel Marujo. O 25 de Abril também é isto, pois claro!
(E olha que ainda não somos campeões, mas já conseguimos o mais importante.)

2006/04/25

Trova do Vento que Passa



(António Portugal - Manuel Alegre; interpretação de Adriano Correia de Oliveira)

Ouvida hoje de manhã na Rádio Alfa.

Há 32 anos



(Imagem retirada ao Gibel)

Logo à noite, no Collège Franco-Britannique, a "Casa de Portugal oficiosa" na CIUP (enquanto a verdadeira está em obras), projecção do filme "Capitães de Abril", de Maria de Medeiros, graças aos bons ofícios do meu amigo Sandro e dos outros portugueses no Comité de Residentes.

2006/04/24

A volta do poeta

Manuel Alegre: "puxar as orelhas" aos deputados será "um péssimo começo" para Cavaco Silva

Manuel Alegre continua na mesma.

Lembrando que o Presidente da República e o Parlamento são dois órgãos de soberania distintos, Manuel Alegre afirmou que Cavaco Silva "não é o comandante supremo do regime". (...)
A recente polémica das faltas dos deputados, na semana passada, foi também abordada por Manuel Alegre, que garantiu que não irá justificar a sua ausência.
"Assumo a responsabilidade da minha ausência. Não vou justificar a falta e, pelo menos no meu caso, deve ser aplicado taxativamente o regulamento", afirmou, considerando, no entanto, que a decisão de antecipar o dia das votações de quinta para quarta-feira "é discutível".
- o moralismo de pau oco.

Apesar da polémica, Alegre rejeita a hipótese de se alterar o sistema eleitoral: "Não se deve ligar as faltas à alteração ao sistema eleitoral".
- pois não, concordo, mas os deputados deveriam dar o exemplo, não é? Mas como Manuel Alegre já nem se lembra de como votou há uns anos, é provável que se venha a esquecer que faltou.

"Se avançarem com o encerramento da maternidade de Elvas votarei contra", exemplificou, justificando que essa "é uma questão nacional", porque as pessoas têm o direito de nascer na sua terra.
- independentemente do que se pense sobre este assunto, Alegre revela a mesma tendência para as cedências aos interesses locais e particulares.

Para ler mais: O farol da ética, no Mau Tempo no Canil.

Faz hoje exactamente um ano


Ao encontrar esta fotografia (que reproduzo com a devida vénia) no Agreste Avena, mais um blogue parisiense, recordo-me que faz hoje exactamente um ano estava lá, no Monte St. Michel. Passei o fim de semana com um grupo muito internacional na Normandia e na Bretanha, onde fomos ver as maiores marés da Europa. Ao chegarmos pela manhã ao Monte St. Michel, vindos de St. Malo, esperava-nos um tempo como a imagem acima mostra. Se as fotografias que tenho do conjunto completo do Monte (uma delas como imagem no desktop do meu computador), tiradas ao princípio da tarde, não o mostram, é porque o tempo só melhorou nessa altura, mesmo quando nos íamos embora, bem de acordo com a Lei de Murphy... Mas eu é que sei a molha que apanhei quando subia para a abadia, e enquanto a visitava! Acabei por não ficar com nenhuma fotografia do conjunto completo do monte e da abadia com tempo de chuva. Até encontrar esta foto do Zèd, que traduz muito melhor a minha recordação do Monte St. Michel.
Não deixou de ser um excelente fim de semana, mas graças a isso perdi duas mesas-redondas com o capitão de Abril José Verdasca e o concerto do Grupo de Fados da Estudantina Universitária de Coimbra, no sábado à noite, nas comemorações do 25 de Abril na Casa de Portugal. No domingo à noite, porém, ainda cheguei a tempo de participar no jantar na Casa de Portugal, que incluiu uma pequena actuação da Estudantina. Isto para além, evidentemente, do saboroso caldo verde da Diana, do chouriço assado, do vinho tinto do Sandro e do doce arroz da doce Raquel que eu tinha à minha espera quando cheguei.
Que saudades da Casa de Portugal.

2006/04/23

A minha alegria futebolística do fim de semana


Obrigado mais uma vez, Augusto Inácio.

Memória de um dia inesquecível na Emilia-Romagna

A Itália tem dois Grandes Prémios no calendário do Mundial de Fórmula 1: o Grande Prémio de Itália propriamente dito, em Monza, na Lombardia, e o Grande Prémio "de São Marino", em Imola, na Emilia-Romagna, a poucas dezenas de quilómetros de Maranello, o "quartel-general" da Ferrari. Nenhum outro povo vibra com a fórmula 1 tanto como o italiano, e especialmente na Emilia-Romagna. No dia em que se disputa mais um Grande Prémio no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Imola, aproveito a ocasião para recordar a minha mais recente visita à minha região favorita da Itália.
aqui tinha falado do meu amigo Olindo, oriundo de uma família típica da Emilia-Romagna, católica (mais a mãe) e comunista (mais o pai). O Olindo saiu mais ao pai; não gosta das festas religiosas, pois acha-as meramente comerciais e desprovidas de qualquer espiritualidade. Mas foi certamente influenciado pela atitude do pai, um canalizador que viveu toda a sua vida como um verdadeiro comunista, trabalhando sempre numa cooperativa e recusando-se a trabalhar em privado e fazer muito mais dinheiro. Quando era miúdo o Olindo ajudava o pai a distribuir o L'Unitá, o órgão oficial do PCI, nas pequenas vilas nos arredores de Maranello, onde a família vivia. Depois gostava de ver os pilotos da Ferrari a testarem os bólides na pista de Fiorano, num ponto onde dá para ver de fora. Há três anos, quando fui visitá-lo a Modena, fomos visitar o Museu da Ferrari e de seguida o Olindo mostrou-me todos esses locais. Estando a visita terminada, aguardava-nos um almoço na casa dos pais do Olindo. Ele fez questão de me apresentar os pais e de lhes apresentar um dos camaradas que conhecera na América. Lembro-me de um casal de idade avançada, com um ar muitíssimo bondoso, que nos serviu um prato com os notáveis enchidos locais e um delicioso frango à caçadora, bem regado com lambrusco. Com a sobremesa abriram ainda uma garrafa de champanhe! Eu disse ao Olindo que não havia necessidade, mas ele respondeu-me que se não fosse numa ocasião como esta a tal garrafa nunca mais seria aberta!
Depois do café e antes da despedida deram-me a provar a melhor grappa que eu alguma vez bebi e provavelmente beberei. Grappa como aquela não se encontra à venda. Fiquei o resto da tarde um pouco zonzo e com o sabor da grappa na boca.
À despedida, sem lhes saber o que dizer, só me saiu um "muito obrigado e até qualquer dia". Incapazes de falarem sem ser em italiano, só me lembro do olhar que os pais do Olindo me lançavam, durante o almoço e no fim. Via-se que gostaram muito de me ter ali. Até um dia, disseram-me, olhando-me daquela vez como se fosse a última.
Isto passou-se há três anos.
Recebi há pouco tempo a notícia de que o pai do Olindo faleceu. Não resistiu a uma crise respiratória. Manteve-se fiel ao seu partido até à morte mas, infelizmente, não viveu o suficiente para ter a alegria de ver o seu país livrar-se do governo de Berlusconi.
Gostaria de lhe ter dito o quanto gostei dele, como apreciei a sua hospitalidade, como adorei a sua grappa e, acima de tudo, o enorme prazer que tive em conhecê-lo. Receio que ele nunca tenha sabido isso.

2006/04/22

Miguel Sousa Tavares, a RTP-I e os novos campeões

Da crónica de Miguel Sousa Tavares no jornal A Bola:

«Desta vez não me preocupei muito, porque, tendo desde há vários anos deixado de frequentar Alvalade—que considero o pior ambiente para poder viver um jogo de futebol, com um público doente de facciosismo como em lado algum — era pacífica a decisão de ver o jogo através da televisão e, de passagem pelo Rio de Janeiro, tanto me fazia ver lá como à distância de meia dúzia de quilómetros de Alvalade. Assegurei--me previamente de que o hotel tinha RTP-Internacional e mais tranquilo fiquei quando, chegado de véspera, liguei para o canal português e vi a promoção «não perca o Sporting-FC Porto de amanhã, aqui na RTP-Internacional».

À hora do jogo, ligo o canal RTP e... nada. Nem jogo, nem uma explicação. Pior: a promoção à transmissão continuava, embora o jogo já tivesse começado e a transmissão não. Percebi então que a transmissão seria em diferido, se bem que não dissessem a que horas, e de novo me vi forçado a ir seguindo as incidências do jogo por telemóvel, directamente para um amigo portista, que estava clandestino entre os cativos do Sporting e que, bastante assustado, me ia sussurrando informações. Entretanto, continuava ligado à RTP-I, na esperança de que, a qualquer momento, iniciassem a transmissão em diferido. Nesse entretanto, foi-me dado ver uma vezmais a linha editorial da RTPI. E o que vi serviu para voltar a confirmar o que já sabia: aquilo envergonha Portugal. E agora, que este artigo de A BOLA já poderá ser lido pelas nossas comunidades emigrantes dos Estados Unidos, eu queria deixar-lhes aqui esta mensagem: não acreditem no Portugal que a RTP-I leva até vós — esse Portugal já não existe há muito e felizmente. Esse Portugal provinciano, atrasado, bafiento e salazarento, dos campanários em pôr do Sol, os pescadores a saírem para a faina em «fade out» com florzinhas em primeiro plano, os programas humorísticos e musicais rascas como na televisão do Ramiro Valadão, as entrevistas subservientes feitas por serventuários do jornalismo a «líderes» da comunidade emigrante, enfim, esse Portugal de antanho que vocês deixaram para trás há décadas já não existe, excepto nos brilhantes cérebros dos responsáveis da RTP-I. Numas coisas estará melhor, noutras pior, mas definitivamente está morto e enterrado. E é pena que o canal que os contribuintes portugueses pagam para levar a imagem de Portugal ao mundo não só não transmita em directo os jogos de futebol que interessam aos milhões de portugueses espalhados por aí, como ainda se dedique a levar- lhes uma imagem falsa e deprimente de umpaís que se calhar era assim que eles queriam que continuasse a ser. A RTP-Internacional é um canal antiportuguês, ao serviço da mediocridade, da preguiça e do antigamente.

Lá pelas onze da noite, no Rio, consegui finalmente ver o jogo em diferido, já mais do que digerido o resultado. Do que vi, confirmei, desculpem-me lá, a justeza da pré-análise que aqui tinha feito ao jogo: que era fácil vencer este Sporting ou, pelo menos, evitar que ele ganhasse. Bastava aplicar as mesmas armas que o Sporting vinha aplicando ao longo do Campeonato: jogar em contenção e esperar pelo erro alheio. Foi o que Co Adriaanse se dispôs finalmente a fazer e, por isso, ganhou o primeiro «clássico» e, com ele, o Campeonato. Ojogo teve assim nenhuma oportunidade para o Sporting e duas para o FC Porto e foi uma profunda chatice. Mas, sobre o mérito da vitória portista, ninguém teve dúvidas, excepção feita ao inevitável Ricardo. Já Paulo Bento, foi sério na hora da derrota.»


Tem toda a razão Miguel Sousa Tavares na sua apreciação à RTP-I. Quanto ao não ver o jogo em directo, faz parte do contrato com a SportTV. Não era nada que não se pudesse confirmar na internet (até porque a RTP-I pode ter uma programação confrangedora mas, tal como a generalidade dos canais pagos, cumpre os horários que anuncia). De qualquer maneira recomendo sempre nesta situação que se acompanhe o jogo num bar de portugueses (que no Rio é coisa que não falta - garantem-me; eu infelizmente nunca lá estive). Têm toda outra animação (mais nos EUA que em França, eu diria), e transmitem o jogo em directo, via SportTV. (Eu vi o jogo em directo. Não foi pela RTP-I.)
Também tem razão Miguel Sousa Tavares na apreciação ao jogo de há quinze dias.
No que não tem razão é na sua apreciação à época futebolística, e muito menos em dizer que o FC Porto nunca foi beneficiado pelas arbitragens. Na meia-final da taça foi-o, claramente. Ganhou o campeonato e é naturalmente favorito para ganhar a taça, dando a impressão de um domínio avassalador do futebol português nesta época, domínio esse que não existiu. Seria um melhor retrato da época (e mais justo) o FC Porto ganhar uma prova e o Sporting outra. Mas parabéns aos campeões.
Quanto à "doença de facciosismo" que caracteriza o público em Alvalade, será que o Miguel Sousa Tavares não se olha ao espelho?

PS: Noutra passagem do texto, Miguel Sousa Tavares queixa-se da "falta de penaltis" assinalados a favor do FC Porto: um, contra os seis do Sporting e os oito do Benfica. "Há estatísticas que não mentem." Pois não: mas haveria de ser um penalti no jogo contra o Penafiel a dar o título ao FC Porto. Há penaltis e penaltis; nem todos valem o mesmo.

Um texto pouco cândido

Quem não se lembra do bordão O tema é animais, Câââââândido! no concurso A Roda da Sorte, apresentado por Herman José no início dos anos 90? Pois. Não é desse Cândido que eu estou a falar. É do original, do Voltaire. É amanhã lançada uma edição nova do clássico, traduzida por este maluco-beleza. O que é simplesmente uma garantia de qualidade (espero que ele me perdoe a maluquez deste texto). A apresentação é na FNAC-Chiado amanhã às 18:30.

2006/04/21

500 anos do massacre de Lisboa (2)

Deixem-me rever um pouco a minha posição. É provável que finalmente fosse à concentração no Rossio pelo massacre de Lisboa. (Afinal, se o Filipe Soares Franco é candidato à presidência do Sporting, por que não posso eu mudar de ideias?)

Aqui têm um extracto da notícia do Público que me fez rever a minha posição:

«Em pleno coração da capital, a alguns metros do Rossio, onde há 500 anos se acenderam fogueiras para queimar os cristãos-novos, crentes e não crentes juntaram-se contra o esquecimento e pela "vontade de Lisboa voltar a ser uma cidade generosa com as suas minorias", notou o historiador Rui Tavares. (...) "É também uma forma de lembrar a necessidade de nos guiarmos pelos melhores exemplos desta cidade, que é multiétnica, multirreligiosa e sempre foi acolhedora", explicou Rui Tavares - associaram-se, entre outros, o actor João Lagarto, o antigo procurador-geral da República Menéres Pimentel e três deputados do Bloco de Esquerda, João Semedo, Mariana Aiveca e Francisco Louçã.»

Claro que, posta desta forma, só posso apoiar a concentração. É claro que houve muitos massacres (e todos os povos os cometeram), mas admito que o de há quinhentos anos fosse simbólico. Aquilo em que não participaria seria numa concentração de cariz étnico e religioso, como a que foi originalmente anunciada, onde se acenderiam velas e se rezaria. (Mas, repito, respeito quem o fizesse, e houve quem o fizesse.) Julguei que se quisesse aproveitar a triste ocasião para se fazer mais uma demonstração de força de um lóbi pró-israelita (leia-se "anti-palestiniano") que está presente e em força na blogosfera. Pelo que leio, não foi esse o caso. Tornou-se uma manifestação contra a intolerância. Ainda bem. Assim iria.

Acabo com mais um trecho da referida notícia:
«Às 19h em ponto, o escritor Mário de Carvalho estava junto ao Largo de São Domingos, em Lisboa. Observava um pequeno grupo de pessoas, quase todas pertencentes à Comunidade Judaica de Lisboa, que ontem prestou uma homenagem silenciosa às vítimas do massacre de 1506, que vitimou entre dois mil a quatro mil judeus. "Esta cidade está cheia de fantasmas", disse o escritor ao PÚBLICO, abandonando de seguida o local.»

Nem mais, Mário de Carvalho.

Colisão de buracos negros

Uma equipa da NASA conseguiu simular num computador uma colisão de buracos negros e calcular numericamente o espectro de ondas gravitacionais daí resultante. É um verdadeiro feito, dada a complexidade das equações da relatividade geral para geometrias curvas do tipo buraco negro. Parabéns aos autores.

2006/04/20

Astrolábio ciclópico

No Conta Natura, continua a série Ciclope Cínico. O Vasco Barreto recorda-nos a história do astrolábio. Há muito folclore em Portugal (particularmente nas escolas) sobre a invenção do astrolábio e Pedro Nunes. Pedro Nunes não inventou o astrolábio: inventou o nónio. (Ingenuamente eu acredito sempre no que me ensinam na escola, pelo que há uns anos quando estudava nos EUA teimei que o astrolábio tinha sido inventado por um português. Como estava errado. Qualquer visita (por exemplo) ao Instituto do Mundo Árabe, em Paris, permite comprovar que os árabes usavam astrolábios muito antes de Pedro Nunes. O pior é que na minha ignorância teimosa eu apresentava a invenção do astrolábio como o único feito científico relevante por parte de um português.) Um texto a levar muito a sério, o do Vasco.

O Vasco que entretanto decidiu sair. Mas se até o Filipe Soares Franco é candidato à presidência do Sporting, por que não há o Vasco de reconsiderar e ficar? Se considerarmos o número de vezes que o Vasco já acabou com a Memória Inventada, estou certo de que ele estará (e espero bem que esteja) de volta ao Conta em menos de quinze dias. Talvez até no futuro o Vasco venha a ser presidente do Sporting.

Na mesma série, num registo diferente, para não levar a sério, mas igualmente muito bom, temos o átomo, pelo Santiago-que-não-é-Zavala.

2006/04/19

500 anos do Massacre de Lisboa

Passam-se hoje 500 anos sobre o início de um dos episódios mais negros e sangrentos da História de Portugal, o Massacre de Lisboa, onde cerca de 4000 judeus foram assassinados pelo povo em fúria (instigado por frades), por um cristão-novo ter desvendado um suposto "milagre" de um altar iluminado simplesmente através de um reflexo.
Há uma iniciativa agendada para hoje, no Rossio: acender velas em memória dos mortos de há quinhentos anos. Eu não vou, e não iria mesmo se estivesse em Portugal, uma vez que este não é infelizmente o único massacre na História de Portugal. Houve muitos outros massacres e torturas: a indígenas, a negros, a escravos... Não estão tão bem localizados no tempo, e atrevo-me a dizer que não contribuiram tanto para a decadência do país como o de há quinhentos anos (e tudo o que se lhe seguiu - no que as perseguições aos judeus se traduziram em perdas para o país de cérebros e poderio económico). Mas não foram menos terríveis. As minhas indignações não são selectivas: se fosse à concentração de hoje no Rossio, também teria de ir a uma pelos indígenas, outra pelos negros, pelos escravos... Já agora, e saindo da História de Portugal para acontecimentos mais actuais, também teria de ir a uma concentração pelas vítimas no conflito do Médio Oriente. Espero que quem estiver hoje no Rossio também viesse a esta hipotética concentração e acendesse uma vela por todas as vítimas deste conflito.
Respeito muito a ideia do Nuno Guerreiro - o promotor da iniciativa - embora deva fazer-lhe notar que recordar o Terramoto de 1755 não é bem a mesma coisa que acender velas pelas vítimas do massacre de Lisboa. Há uns meses ninguém acendeu velas ou tão-pouco depositou flores nos túmulos dos mortos do terramoto, certo, Nuno? O que se fez foi simplesmente recordar o triste evento e a sua importância na nossa História. E é isso mesmo que eu defendo que se faça com o massacre de Lisboa e com todos os outros massacres que referi - que se recordem, que não se esqueçam, sobretudo que se ensinem nas aulas de História nas escolas (e que não se ensinem somente as nossas "glórias"). É por isso que dou a minha modesta contribuição trazendo este importante assunto a este modesto blogue. Não tenho mesmo nada contra que se acendam as tais velas ou quem as acenda. A iniciativa do Nuno é boa, eu compreendo-a perfeitamente e no lugar dele provavelmente aderiria à tal concentração e acenderia velas. Compreendo as razões dele. Mas eu não estou na situação do Nuno. Espero que ele compreenda as minhas razões.

Para ler mais: Eu sou o pequeno judeu, pelo meu velho camarada Rui.