2006/03/09
Jorge Sampaio
Há dez anos, a sua eleição foi então a maior alegria política que alguma vez tinha tido. Hoje, não me deixa saudades nenhumas. Assistiu a tudo passivamente e contribuiu para o desprestígio da sua função.
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Política
A eleição presidencial no dia da tomada de posse
Votei em Mário Soares na última eleição presidencial, e poucas vezes terei votado com tanta convicção. Pela sua intervenção constante, pela forma como recusa reformar-se e como não se resigna, pelo direito à indignação que ele exerce constantemente.
Principalmente nos últimos anos, aquando da guerra do Iraque. Poderia ter-se refugiado no seu estatuto de senador unânime, mas não teve medo de vir a terreno. Nunca tinha votado em Mário Soares antes (e só tinha tido uma oportunidade, nas europeias de 1999). Por isto tudo, achei que Soares merecia o meu voto, e dei-lho.
Evidentemente fiquei aborrecido com o resultado final. Fiquei aborrecido, sobretudo, porque se tornou evidente que o Cavaco não era nenhum papão. Não era imbatível, como demonstram os 0.6%. E o que se verificou? A maioria dos não-cavaquistas convenceu-se de que ele era imbatível. E nem se deu ao trabalho de votar, ou quando votou, votou em Alegre, convencida de que era um voto de protesto e que Cavaco ganharia. (Ana Gomes deveria ter-se indignado era com o seu muito esporádico companheiro de blogue que escrevia no DN antes das eleições que votava em Manuel Alegre e que Cavaco iria ganhar. É um retrato do estado de espírito que se instalou, e que Manuel Alegre nunca tentou combater.) Só Mário Soares nunca se conformou. Até por isto merece a minha homenagem, e por aqui pode ver-se como é maior do que o país.
Há ainda a questão de Manuel Alegre. Eu achei bem que Manuel Alegre se candidatasse, e não tenho nada contra ele ou quem votou nele. Mas a campanha de Manuel Alegre foi muito má. Demasiadamente má. Ele demonstrou que não estava preparado para o cargo e a motivação dele era uma vingança pessoal e mesquinha. Já há dez anos Alegre queria ter sido candidato em vez de Sampaio. Alegre andava há dez anos a querer ser Presidente da República, mas nunca fez nada para isso e - pior - nunca fez nada por isso. Alegre e a direcção do PS secundarizaram sempre as Presidenciais, e agora temos isto - Cavaco na Presidência. Não é certamente com Mário Soares - o único que nunca se conformou - que eu me aborreço. Mário Soares fez o que pôde. Eu também.
Principalmente nos últimos anos, aquando da guerra do Iraque. Poderia ter-se refugiado no seu estatuto de senador unânime, mas não teve medo de vir a terreno. Nunca tinha votado em Mário Soares antes (e só tinha tido uma oportunidade, nas europeias de 1999). Por isto tudo, achei que Soares merecia o meu voto, e dei-lho.
Evidentemente fiquei aborrecido com o resultado final. Fiquei aborrecido, sobretudo, porque se tornou evidente que o Cavaco não era nenhum papão. Não era imbatível, como demonstram os 0.6%. E o que se verificou? A maioria dos não-cavaquistas convenceu-se de que ele era imbatível. E nem se deu ao trabalho de votar, ou quando votou, votou em Alegre, convencida de que era um voto de protesto e que Cavaco ganharia. (Ana Gomes deveria ter-se indignado era com o seu muito esporádico companheiro de blogue que escrevia no DN antes das eleições que votava em Manuel Alegre e que Cavaco iria ganhar. É um retrato do estado de espírito que se instalou, e que Manuel Alegre nunca tentou combater.) Só Mário Soares nunca se conformou. Até por isto merece a minha homenagem, e por aqui pode ver-se como é maior do que o país.
Há ainda a questão de Manuel Alegre. Eu achei bem que Manuel Alegre se candidatasse, e não tenho nada contra ele ou quem votou nele. Mas a campanha de Manuel Alegre foi muito má. Demasiadamente má. Ele demonstrou que não estava preparado para o cargo e a motivação dele era uma vingança pessoal e mesquinha. Já há dez anos Alegre queria ter sido candidato em vez de Sampaio. Alegre andava há dez anos a querer ser Presidente da República, mas nunca fez nada para isso e - pior - nunca fez nada por isso. Alegre e a direcção do PS secundarizaram sempre as Presidenciais, e agora temos isto - Cavaco na Presidência. Não é certamente com Mário Soares - o único que nunca se conformou - que eu me aborreço. Mário Soares fez o que pôde. Eu também.
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Política
2006/03/08
A mulher de Lenine
E já que estamos no Dia Internacional da Mulher, deixo-vos com a mais poderosa música dedicada à mulher que ouvi nos últimos tempos, quiçá anos: Todas Juntas Num Só Ser, do espectacular e bem parisiense álbum In Cité (gravado ao vivo na Cité de la Musique), onde Lenine presta uma homenagem à presença feminina na música popular (essencialmente brasileira mas não só) e à sua própria mulher. À distância de dois cliques. Não deixem de ouvir: é do melhor.
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Música
Dia Internacional da Mulher - que dure todo o ano

Eu nem sou grande apreciador destas iniciativas dos "dias das causas". Acho que uma causa justa deve durar todo o ano! Mas achei bastante original e conseguido este cartaz da Câmara de Paris.
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Paris
Sadar e Abdur, dois irmãos afegãos relatam Guantanamo
Reportagem do Metro parisiense reproduzida aqui.
«Sous l’invasion russe, on était tous militants. On était dans le parti afghan Jamiat-u-Dawa, auquel appartenait Hayatallah», précisent les deux frères, «mais après 89, on ne partageait plus l’idéologie des talibans et on a quitté le parti.» Et Abdur poursuit sur un ton énervé : «On est alors devenu les pires ennemis d’Hayatallah et on a été à Guantanamo à cause de lui !». Ont-ils été victimes d’un complot politique ? C’est en tout cas ce qu’ils suggèrent. Hayatallah travaillait pour le compte de l’ISI (les services secrets pakistanais) et la politique engagée par Washington après le 11 septembre lui aurait donné l’opportunité de se venger. «On avait écrit plein d’articles sur l’intervention américaine, disant qu’on ne pouvait combattre le terrorisme avec le terrorisme. Alors il nous a dénoncé comme étant du côté des talibans».
«Sous l’invasion russe, on était tous militants. On était dans le parti afghan Jamiat-u-Dawa, auquel appartenait Hayatallah», précisent les deux frères, «mais après 89, on ne partageait plus l’idéologie des talibans et on a quitté le parti.» Et Abdur poursuit sur un ton énervé : «On est alors devenu les pires ennemis d’Hayatallah et on a été à Guantanamo à cause de lui !». Ont-ils été victimes d’un complot politique ? C’est en tout cas ce qu’ils suggèrent. Hayatallah travaillait pour le compte de l’ISI (les services secrets pakistanais) et la politique engagée par Washington après le 11 septembre lui aurait donné l’opportunité de se venger. «On avait écrit plein d’articles sur l’intervention américaine, disant qu’on ne pouvait combattre le terrorisme avec le terrorisme. Alors il nous a dénoncé comme étant du côté des talibans».
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EUA
2006/03/07
Momento intimista
Só sou capaz de me zangar com as pessoas de quem realmente gosto. Com as outras, acho que nem vale o esforço. Será que deve ser assim?
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Pessoal
2006/03/06
Li e gostei
O verdadeiro liberalómetro, pelo marialva acidental e aspirínico.
Estado de sítio... menos para o meu sítio no Estado, pelo Renato Carmo no Fuga para a vitória.
Estado de sítio... menos para o meu sítio no Estado, pelo Renato Carmo no Fuga para a vitória.
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Política
Freitas e os "antifascistas" de conveniência
Definitivamente está na moda por parte da direita portuguesa fazer de Freitas do Amaral saco de pancadas. Sejamos claros: é difícil "encaixar" politicamente Freitas do Amaral nas categorias políticas tradicionais. E torna-se ainda mais difícil por Freitas ser um caso raro de uma personalidade que ao longo do tempo tem vindo a evoluir politicamente no sentido da esquerda. Se ainda há vinte anos Freitas era um homem de direita, com um discurso de direita, hoje já não me parece assim (também não me parece de esquerda). Parece-me acima de tudo um homem moderado, com o que isso acarreta. Se sempre foi assim, se hoje é mais do que ontem, haverá melhores pessoas para julgar, a começar pelo próprio Freitas. Uma coisa é certa: a única obra significativa de Freitas do Amaral de pendor claramente anti-regime é uma peça de teatro de que é autor, há meia dúzia de anos atrás. Não é certamente o suficiente para fazer de Freitas um grande combatente contra a ditadura, mas a utilização do antifascismo para fins meramente políticos (sublinho o fins políticos, e não históricos) não é para qualquer um. Não é qualquer pessoa que pode perguntar a outra "onde é que estava no 25 de Abril". É preciso um certo currículo político para isso.
Embora eu não tenha currículo político nenhum, apetece-me porém perguntar a alguns dos que usam o passado de Freitas para criticarem o seu presente onde é que estavam no 25 de Abril.
Embora eu não tenha currículo político nenhum, apetece-me porém perguntar a alguns dos que usam o passado de Freitas para criticarem o seu presente onde é que estavam no 25 de Abril.
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Política
2006/03/05
A Idade de Ouro do Mundo Árabe
Agora que tanto se fala de novo em "guerra de civilizações", aproveito para recomendar a quem estiver ou passar por Paris a exposição L'Âge d'Or des Sciences Arabes, no Instituto do Mundo Árabe. Vem bem a propósito. Só até dia 19 de Março.
2006/03/03
Syriana e os nossos filhos da puta
Embora ainda não tenha visto o filme Syriana (praticamente só vejo filmes em DVD ou na televisão, misturados com novelas, futebol e séries), achei muito interessante o que a propósito do mesmo se escreveu no Aspirina B e no Insurgente. Na linha de raciocínio do Nuno, e na sequência do que escreveu o André, pergunto a este último: será que para ti se pode dizer que os americanos são "os nossos filhos da puta"?
O capital e o consumo
André, é evidente que os comerciantes podem decidir vender os bens de consumo aos preços que bem lhes apeteça. Não quer dizer que o façam sempre, mas tal ocorre frequentemente em situações de monopólio ou quase, que devem revoltar especialmente um liberal. É um caso extremo, mas eu não o apresentei como geral.
De qualquer maneira o caso com que contrapões, o dos consumidores que estabelecem os preços dos bens de consumo que variam conforme as suas conveniências», também é outro caso extremo. Se acreditas que é isso que se passa correntemente, em todas as transacções, então sou eu que fico com vontade de rir... Um consumidor isolado pode estabelecer uma flutuação no preço, que vem à priori e não resulta simplesmente da vontade do mercado. Havemos de voltar a este assunto.
De qualquer maneira o caso com que contrapões, o dos consumidores que estabelecem os preços dos bens de consumo que variam conforme as suas conveniências», também é outro caso extremo. Se acreditas que é isso que se passa correntemente, em todas as transacções, então sou eu que fico com vontade de rir... Um consumidor isolado pode estabelecer uma flutuação no preço, que vem à priori e não resulta simplesmente da vontade do mercado. Havemos de voltar a este assunto.
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Esquerda
As posições do Ministro dos Negócios Estrangeiros
Extracto de um artigo no Público de 23 de Fevereiro:
Não há muito mais a dizer depois deste esclarecimento. Não assisti às declarações originais de Freitas, nem às de ontem no Parlamento. Admito que, motivado pela sua religiosidade, possa ter tergiversado num ou noutro ponto (embora pelo menos isso demonstre que, sendo católico, trata as religiões da mesma forma, o que se comparado com algum fundamentalismo anti-muçulmano de origem católica de que tem sido vítima não seja mau de todo). Mas no que transcrevi Freitas do Amaral tem toda a razão. Acima de tudo creio que tem sido vítima de uma campanha de ataques constantes por parte de uma direita que não lhe perdoa.
Esclarecimento sobre a liberdade de expressão e a relação entre o Ocidente e o mundo islâmico
Diogo Freitas do Amaral
Não tendo estado em Lisboa quando alguns títulos ou frases me foram atribuídos pelo PÚBLICO - com base em afirmações truncadas divulgadas por um canal de televisão, a propósito da polémica dos cartoons -, esclareço:
1) Sempre defendi, e defendo, a liberdade de expressão, e não propus para ela qualquer novo limite legal, censura ou sanção para o seu eventual mau uso: apenas defendi, e defendo, que essa liberdade, como todas as outras, tem limites legais e deve ser usada com bom senso, de forma responsável.
No caso presente, da crescente tensão entre o Ocidente e o islão, o meu apelo foi apenas dirigido ao bom senso: vamos contribuir para a escalada do conflito, deitando mais achas para a fogueira, ou é melhor evitar o agravamento e tentar todas as possibilidades de diálogo que existem? A minha opção, como ministro dos Negócios Estrangeiros de um país europeu, é a segunda, por ser a que melhor contribui para manter a paz e segurança internacionais;
2) Foi por alguns deturpada, por ser citada fora do contexto, a frase, que me é atribuída, de que "a culpa da crise actual entre o Ocidente e o islão é do Ocidente". Eu não disse isso.
O que eu disse - num conjunto de frases talvez demasiado longo para o espaço normalmente disponível na comunicação social - foi que, vista a crise actual do lado dos povos islâmicos, o Ocidente nunca deixou de os agredir. E citei, como exemplos, as Cruzadas (que para eles foram ontem), o colonialismo (que só acabou para muitos deles no século XX), as guerras de libertação (de que a mais violenta foi a do povo argelino com a França), a posição ocidental no conflito israelo-árabe, a intervenção militar no Iraque, e agora a questão dos cartoons (que a nós nos fazem rir, em regra, mas neste caso ofenderam tanto os muçulmanos que até o jornal dinamarquês que os publicou já pediu desculpas públicas pela ofensa cometida).
É claro que, no meio disto tudo, houve o aparecimento do terrorismo islâmico (que eu logo condenei) e a reacção imediata de derrube do regime taliban no Afeganistão (que eu logo apoiei).
O problema está em que a seguir veio a guerra do Iraque - para os que a lançaram, uma peça da estratégia antiterrorismo; para os muçulmanos (e não só), um perigoso desvio da luta contra o terrorismo internacional e uma ofensa do Ocidente aos povos islâmicos.
Em resumo: para os muçulmanos, o Ocidente é o único culpado ou, pelo menos, o principal culpado; para mim, o Ocidente também tem as suas culpas. E como somos mais ricos, mais poderosos militarmente, e temos mais a perder do que eles, se tudo isto levar a uma guerra de civilizações, entendo que devemos ser nós, os ocidentais, a tomar as primeiras iniciativas pacificadoras.
Não há muito mais a dizer depois deste esclarecimento. Não assisti às declarações originais de Freitas, nem às de ontem no Parlamento. Admito que, motivado pela sua religiosidade, possa ter tergiversado num ou noutro ponto (embora pelo menos isso demonstre que, sendo católico, trata as religiões da mesma forma, o que se comparado com algum fundamentalismo anti-muçulmano de origem católica de que tem sido vítima não seja mau de todo). Mas no que transcrevi Freitas do Amaral tem toda a razão. Acima de tudo creio que tem sido vítima de uma campanha de ataques constantes por parte de uma direita que não lhe perdoa.
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Política
2006/03/02
São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba
Este ano, quem ganhou o grupo especial do Carnaval do Rio de Janeiro foi a Unidos da Vila Isabel, com o enredo Soy Loco Por Ti America, dedicado à latinidade. Nem de propósito, na recente telenovela América era no bairro da Vila Isabel que decorria parte do enredo. A Vila é o local de origem de sambistas como o genial Noel Rosa e Martinho... da Vila, é claro. Nesta ocasião, proponho que se escute um dos mais conhecidos sambas de Noel, numa interpretação de Martinho: como não poderia deixar de ser, o lindíssimo Feitiço da Vila.
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Música
Ser-se de direita
Já era de esquerda antes de alguma vez ter ouvido sequer falar a sério em Marx ou em comunismo (na escola, na disciplina de História). Enquanto o Bloco de Leste se desfazia, a URSS agonizava e o Muro de Berlim estava prestes a cair. Entretanto eu estudava a organização interna do PCUS, o modelo leninista, Estaline e Krutchov, e a perestroika de Gorbatchov era referida no meu livro de História como uma "tentativa de abertura em relação à sociedade". O mundo organizava-se em dois blocos, que eram tratados da mesma forma pela generalidade da comunicação social (ambos sujeitos a críticas).
Não precisei de ler Marx para nessa altura formar o essencial da minha consciência política. Sendo filho de trabalhadores por conta de outrem, já achava na altura que os trabalhadores deveriam saber dirigir os meios de produção, e não uma elite improdutiva. E sempre me escandalizou como os comerciantes poderiam decidir vender os bens de consumo aos preços que bem lhes apetecesse, sem controlo. O preço destes bens deveria ser fixado pelo governo, e deveria ser tal que os tornasse acessíveis a todos os trabalhadores, de modo a que tods pudessem viver com dignidade. Da mesma forma, o governo deveria combater o desemprego com todos os meios possíveis, adaptando a carga horária laboral de modo a haver trabalho e pão para todos.
Era este o meu pensamento político quando tinha treze, quinze, dezoito anos (e no essencial, no ideal, é-o ainda hoje). Nunca li Marx ou qualquer outro dos seus seguidores para o formar, não acho que ele resulte da minha educação na escola pública (independente e não tendenciosa) ou privada (andei num externato católico até aos dez anos). Pode ter resultado de ter lido o romance Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, na disciplina de Português no oitavo ano (admito que o livro me marcou bastante). Mas no essencial estas minhas ideias resultam, tanto no meu caso como na maior parte das pessoas, da experiência de vida e do senso comum.
Também da minha experiência de vida, aliada a estas minhas convicções, resultou que a direita era "o mal". Uma paixão arrebatadora por uma miúda do PCP aos catorze anos (que será feito dela?) ajudou e muito, bem como o facto de todos os meus amigos e amigas da escola e dos dois primeiros anos da faculdade serem naturalmente de esquerda. Digo "naturalmente" porque não os "escolhia" devido ao seu posicionamento ideológico; eram mesmo naturalmente meus amigos. Mas há que acrescentar que era de Lisboa, estudei numa escola "de esquerda" (D. Pedro V - foi classificada assim num suplemento de O Independente), cuja Associação de Estudantes liderou a contestação nacional à PGA (luta em que eu também participei, o que constituiu a minha estreia no combate político). Depois, fui aluno da LEFT, e os alunos de direita da LEFT contavam-se pelos dedos de um pé.
Ser-se de direita era assim para mim, na minha adolescência, o pior de todos os defeitos que uma pessoa poderia ter.
É claro que as pessoas mais velhas (de direita e não só) dizem que nestas idades "ainda não se sabe o que é a vida", e têm toda a razão. Não que eu agora saiba o que é "a vida", mas pelo menos já vivi muito mais do que o estudante que vivia à custa dos pais, sem ter de se preocupar com nada. E é ao viver à sua custa que um tipo se apercebe de como pode uma pessoa não ser de esquerda, particularmente um trabalhador. Esta é uma realidade que eu na altura achava completamente inaceitável, que não entrava na minha cabeça. Ainda hoje custa-me a aceitar, mas creio que já compreendo melhor. Simplesmente, o comunismo por si só não foi feito para maximizar a riqueza, e muitas pessoas se calhar preferem mesmo ser exploradas, desde que no resultado final acabem por ganhar mais do que se não o fossem. Eu mesmo tenho de reconhecer que na maior parte das vezes economias baseadas no mercado livre e na concorrência geram trabalhadores mais motivados e maior prosperidade que as economias puramente estatizadas. Finalmente, muitas vezes as pessoas preferem ser simplesmente alienadas. Não querem saber. É essa a opção delas; são mais felizes assim.
Acresce a esta minha "maior experiência" uma outra forma de encarar os Estados Unidos da América. Depois do colapso da URSS os EUA, a superpotência restante, vencedora da guerra fria, eram para mim aquilo que para um dos seus presidentes (Ronald Reagan) era a URSS: o Império do Mal, o grande adversário. Durante a licenciatura fui-me habituando a estudar por livros que, em grande parte dos casos, tinham de ser norte-americanos. Aprendi assuntos que tinham sido descobertos por norte-americanos. Finalmente acabei mesmo por ir estudar para os EUA. Lá vivi uma boa parte (mais do que boa, feliz) da minha ainda relativamente curta vida. Lá conheci pessoas excelentes, das mais diversas proveniências e nacionalidades. Conheci mesmo americanos - bem diferentes do estereótipo usual. E lá estava quando se deram os atentados de 11 de Setembro de 2001, que vieram confirmar, se necessário fosse, que a maldade no mundo está longe de ser em exclusivo da responsabilidade dos EUA. Mais: veio demonstrar que nem todas as maldades são igualmente más, e que a maldade americana nem é a pior e, em certas circunstâncias em que só se pode optar entre maldades, é a maldade preferível.
Por todos estes motivos acabei por mudar a minha opinião relativamente ao "ser-se de direita". Não me tornei de direita, e nem creio que alguma vez isso venha a ser possível. Mas cheguei à conclusão de que, ao contrário do que eu pensava na inocência dos meus catorze anos, ser-se de direita não é o pior de todos os defeitos. Ser-se de direita, afinal, é algo que se tolera: é simplesmente mais um defeito como tantos outros.
Não precisei de ler Marx para nessa altura formar o essencial da minha consciência política. Sendo filho de trabalhadores por conta de outrem, já achava na altura que os trabalhadores deveriam saber dirigir os meios de produção, e não uma elite improdutiva. E sempre me escandalizou como os comerciantes poderiam decidir vender os bens de consumo aos preços que bem lhes apetecesse, sem controlo. O preço destes bens deveria ser fixado pelo governo, e deveria ser tal que os tornasse acessíveis a todos os trabalhadores, de modo a que tods pudessem viver com dignidade. Da mesma forma, o governo deveria combater o desemprego com todos os meios possíveis, adaptando a carga horária laboral de modo a haver trabalho e pão para todos.
Era este o meu pensamento político quando tinha treze, quinze, dezoito anos (e no essencial, no ideal, é-o ainda hoje). Nunca li Marx ou qualquer outro dos seus seguidores para o formar, não acho que ele resulte da minha educação na escola pública (independente e não tendenciosa) ou privada (andei num externato católico até aos dez anos). Pode ter resultado de ter lido o romance Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, na disciplina de Português no oitavo ano (admito que o livro me marcou bastante). Mas no essencial estas minhas ideias resultam, tanto no meu caso como na maior parte das pessoas, da experiência de vida e do senso comum.
Também da minha experiência de vida, aliada a estas minhas convicções, resultou que a direita era "o mal". Uma paixão arrebatadora por uma miúda do PCP aos catorze anos (que será feito dela?) ajudou e muito, bem como o facto de todos os meus amigos e amigas da escola e dos dois primeiros anos da faculdade serem naturalmente de esquerda. Digo "naturalmente" porque não os "escolhia" devido ao seu posicionamento ideológico; eram mesmo naturalmente meus amigos. Mas há que acrescentar que era de Lisboa, estudei numa escola "de esquerda" (D. Pedro V - foi classificada assim num suplemento de O Independente), cuja Associação de Estudantes liderou a contestação nacional à PGA (luta em que eu também participei, o que constituiu a minha estreia no combate político). Depois, fui aluno da LEFT, e os alunos de direita da LEFT contavam-se pelos dedos de um pé.
Ser-se de direita era assim para mim, na minha adolescência, o pior de todos os defeitos que uma pessoa poderia ter.
É claro que as pessoas mais velhas (de direita e não só) dizem que nestas idades "ainda não se sabe o que é a vida", e têm toda a razão. Não que eu agora saiba o que é "a vida", mas pelo menos já vivi muito mais do que o estudante que vivia à custa dos pais, sem ter de se preocupar com nada. E é ao viver à sua custa que um tipo se apercebe de como pode uma pessoa não ser de esquerda, particularmente um trabalhador. Esta é uma realidade que eu na altura achava completamente inaceitável, que não entrava na minha cabeça. Ainda hoje custa-me a aceitar, mas creio que já compreendo melhor. Simplesmente, o comunismo por si só não foi feito para maximizar a riqueza, e muitas pessoas se calhar preferem mesmo ser exploradas, desde que no resultado final acabem por ganhar mais do que se não o fossem. Eu mesmo tenho de reconhecer que na maior parte das vezes economias baseadas no mercado livre e na concorrência geram trabalhadores mais motivados e maior prosperidade que as economias puramente estatizadas. Finalmente, muitas vezes as pessoas preferem ser simplesmente alienadas. Não querem saber. É essa a opção delas; são mais felizes assim.
Acresce a esta minha "maior experiência" uma outra forma de encarar os Estados Unidos da América. Depois do colapso da URSS os EUA, a superpotência restante, vencedora da guerra fria, eram para mim aquilo que para um dos seus presidentes (Ronald Reagan) era a URSS: o Império do Mal, o grande adversário. Durante a licenciatura fui-me habituando a estudar por livros que, em grande parte dos casos, tinham de ser norte-americanos. Aprendi assuntos que tinham sido descobertos por norte-americanos. Finalmente acabei mesmo por ir estudar para os EUA. Lá vivi uma boa parte (mais do que boa, feliz) da minha ainda relativamente curta vida. Lá conheci pessoas excelentes, das mais diversas proveniências e nacionalidades. Conheci mesmo americanos - bem diferentes do estereótipo usual. E lá estava quando se deram os atentados de 11 de Setembro de 2001, que vieram confirmar, se necessário fosse, que a maldade no mundo está longe de ser em exclusivo da responsabilidade dos EUA. Mais: veio demonstrar que nem todas as maldades são igualmente más, e que a maldade americana nem é a pior e, em certas circunstâncias em que só se pode optar entre maldades, é a maldade preferível.
Por todos estes motivos acabei por mudar a minha opinião relativamente ao "ser-se de direita". Não me tornei de direita, e nem creio que alguma vez isso venha a ser possível. Mas cheguei à conclusão de que, ao contrário do que eu pensava na inocência dos meus catorze anos, ser-se de direita não é o pior de todos os defeitos. Ser-se de direita, afinal, é algo que se tolera: é simplesmente mais um defeito como tantos outros.
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2006/03/01
O blogue que aqui começo a construir, sempre buscando o belo e o amaro
...é um blogue sem agenda, feito para eu me divertir, onde só falo do que eu quiser e me apetecer.
Fica aqui a promessa que faço a mim mesmo. Vamos ver se a vou cumprir.
Fica aqui a promessa que faço a mim mesmo. Vamos ver se a vou cumprir.
Porque era Carnaval
A canção para se ouvir hoje à distância de dois cliques. Chico Buarque e Ennio Morricone, em português ou italiano, à escolha.
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