Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens

2007/01/09

A infalibilidade do aquecimento global

E não é que o Papa se mostrou preocupado com o aquecimento global, no seu discurso de Ano Novo? Não é meu objectivo aqui comentar esse discurso, que como é natural contém partes com que eu concordo e outras com que não concordo nada. Não deixa de ser curioso, porém, notar que quem mais faz campanha a dizer que não acredita no aquecimento global é, ao mesmo tempo, quem mais acredita na infalibilidade papal...

2007/01/05

Juramentos e religiões

O tema do texto anterior dá pano para mangas. Pode ou não um deputado levar o Corão para fazer um juramento? A direita religiosa, como o André Azevedo Alves (que continua a confundir-se com O Insurgente) certamente pensa que a Bíblia é autorizada (e provavelmente deveria ser obrigatória), mas não é essa a questão mais importante. Essa questão, que (creio eu) dividirá opiniões entre as pessoas sensatas, é: "Deve ou não um representante político fazer um juramento religioso antes de tomar posse?" Muita gente reconhecerá ao deputado muçulmano o direito de jurar sobre o Corão, se outros juram sobre a Bíblia. Para mim, nenhum dos juramentos é aceitável: a religião é do foro privado, e não deve ser confundida com o exercício de funções públicas. Mesmo que tal possa ser visto como uma "restrição de liberdade". É evidente que cada deputado poderá fazer os juramentos que quiser, se for religioso – e mesmo se os deputados forem eleitos enquanto religiosos, ou devido às suas convicções religiosas. Mas tais juramentos devem constituir uma cerimónia religiosa, e nunca uma cerimónia oficial de Estado.
Aqui temos, de repente, e como quem não quer a coisa, um excelente "toy model" para o problema do véu islâmico, tema a que tenciono voltar em breve.

Também publicado no Cinco Dias.

2007/01/03

"O Natal profano de todos nós"

Ainda a propósito deste assunto:

Tomemos, por exemplo, o caso que neste momento se discute nos Estados Unidos. Pela primeira vez na história política norte-americana, nas eleições de Novembro foi eleito um deputado muçulmano. Tendo-se criado uma tradição política no Congresso, segundo a qual, depois da tomada de posse oficial, os deputados realizam uma cerimónia privada, para amigos e familiares, em que juram sobre a Bíblia, até agora ninguém tinha colocado a hipótese de usar outro livro sagrado. Quando muito, os poucos não crentes optavam por não fazer o juramento religioso. Por isso, causou escândalo, especialmente nos círculos da direita cristã, o anúncio feito pelo dito deputado de que fará a seu juramento sobre o Corão. Um deputado mais intolerante da direita religiosa chegou ao ponto de defender que ele deve ser proibido de levar o Corão e que, se o fizer, deve perder o mandato. A pergunta que se deve fazer é obviamente a seguinte: se os crentes cristãos têm o direito de jurar sobre o seu livro sagrado, por que é que um deputado muçulmano não goza de igual direito?

(Vital Moreira, Público, 26-12-2006)

2006/12/22

Boas festas

Começo por discordar na argumentação deste texto do Tiago Barbosa Ribeiro: conforme lá escrevi algo provocatoriamente, antes uns burgueses terem os seus carros queimados à porta do que ter-se um “In God we trust” impresso nas notas! Ou um “God bless America” nas contas do supermercado, como eu tinha depois do 11 de Setembro. A relação dos Estados Unidos com a religião está longe de ser modelo para algum país desenvolvido. Ao contrário do que o Tiago Ribeiro provavelmente julga, não é só no Irão que existem fundamentalistas religiosos. Eles existem também nos EUA e têm mais influência do que ele possa julgar, incluindo a administração Bush filho (mais do que qualquer outra). Pode haver respeito de umas religiões relativamente às outras, mas há um predomínio da religião (de Deus) traduzido no “In God We Trust” nas notas bancárias, que pelos vistos tanto lhe agrada. A América é uma nação temente a Deus, seja este qual for. Pouco lugar há para agnósticos e ateus: são uns excêntricos que vivem no mundo académico e pouco mais.
Dito isto, não posso concordar com as ridículas manifestações de “politicamente correcto” que constituem a supressão de algumas celebrações de Natal em empresas europeias. Queira-se ou não, o Natal é celebrado, por razões históricas e culturais, pela esmagadora maioria das pessoas, crentes e não crentes. Já era celebrado o solestício de Inverno muito antes de Cristo! Por isso é feriado nacional. Tem de se respeitar os feriados celebrados historicamente nos diferentes locais. Em Nova Iorque observavam-se todos os feriados judeus, e eu dei aulas numa sexta-feira santa. No instituto onde me doutorei, entre os docentes a maioria era judaica. Os enfeites de Natal conviviam com as velas de Hannukah. Nunca deixou de haver uma festa na segunda ou terceira semana de Dezembro!
O final de cada ano é sempre um motivo para celebrar. Toda a gente o sente. As festas numa empresa ou numa escola não devem ter um carácter proselitista. Desde que esta condição se verifique, deve prevalecer o princípio de que uma festa, desde que desejada por um número significativo de pessoas, não pode ofender ninguém.

Concluo tudo isto desejando, muito laicamente, boas festas a todos os meus leitores e amigos.


2006/04/21

500 anos do massacre de Lisboa (2)

Deixem-me rever um pouco a minha posição. É provável que finalmente fosse à concentração no Rossio pelo massacre de Lisboa. (Afinal, se o Filipe Soares Franco é candidato à presidência do Sporting, por que não posso eu mudar de ideias?)

Aqui têm um extracto da notícia do Público que me fez rever a minha posição:

«Em pleno coração da capital, a alguns metros do Rossio, onde há 500 anos se acenderam fogueiras para queimar os cristãos-novos, crentes e não crentes juntaram-se contra o esquecimento e pela "vontade de Lisboa voltar a ser uma cidade generosa com as suas minorias", notou o historiador Rui Tavares. (...) "É também uma forma de lembrar a necessidade de nos guiarmos pelos melhores exemplos desta cidade, que é multiétnica, multirreligiosa e sempre foi acolhedora", explicou Rui Tavares - associaram-se, entre outros, o actor João Lagarto, o antigo procurador-geral da República Menéres Pimentel e três deputados do Bloco de Esquerda, João Semedo, Mariana Aiveca e Francisco Louçã.»

Claro que, posta desta forma, só posso apoiar a concentração. É claro que houve muitos massacres (e todos os povos os cometeram), mas admito que o de há quinhentos anos fosse simbólico. Aquilo em que não participaria seria numa concentração de cariz étnico e religioso, como a que foi originalmente anunciada, onde se acenderiam velas e se rezaria. (Mas, repito, respeito quem o fizesse, e houve quem o fizesse.) Julguei que se quisesse aproveitar a triste ocasião para se fazer mais uma demonstração de força de um lóbi pró-israelita (leia-se "anti-palestiniano") que está presente e em força na blogosfera. Pelo que leio, não foi esse o caso. Tornou-se uma manifestação contra a intolerância. Ainda bem. Assim iria.

Acabo com mais um trecho da referida notícia:
«Às 19h em ponto, o escritor Mário de Carvalho estava junto ao Largo de São Domingos, em Lisboa. Observava um pequeno grupo de pessoas, quase todas pertencentes à Comunidade Judaica de Lisboa, que ontem prestou uma homenagem silenciosa às vítimas do massacre de 1506, que vitimou entre dois mil a quatro mil judeus. "Esta cidade está cheia de fantasmas", disse o escritor ao PÚBLICO, abandonando de seguida o local.»

Nem mais, Mário de Carvalho.

2006/04/19

500 anos do Massacre de Lisboa

Passam-se hoje 500 anos sobre o início de um dos episódios mais negros e sangrentos da História de Portugal, o Massacre de Lisboa, onde cerca de 4000 judeus foram assassinados pelo povo em fúria (instigado por frades), por um cristão-novo ter desvendado um suposto "milagre" de um altar iluminado simplesmente através de um reflexo.
Há uma iniciativa agendada para hoje, no Rossio: acender velas em memória dos mortos de há quinhentos anos. Eu não vou, e não iria mesmo se estivesse em Portugal, uma vez que este não é infelizmente o único massacre na História de Portugal. Houve muitos outros massacres e torturas: a indígenas, a negros, a escravos... Não estão tão bem localizados no tempo, e atrevo-me a dizer que não contribuiram tanto para a decadência do país como o de há quinhentos anos (e tudo o que se lhe seguiu - no que as perseguições aos judeus se traduziram em perdas para o país de cérebros e poderio económico). Mas não foram menos terríveis. As minhas indignações não são selectivas: se fosse à concentração de hoje no Rossio, também teria de ir a uma pelos indígenas, outra pelos negros, pelos escravos... Já agora, e saindo da História de Portugal para acontecimentos mais actuais, também teria de ir a uma concentração pelas vítimas no conflito do Médio Oriente. Espero que quem estiver hoje no Rossio também viesse a esta hipotética concentração e acendesse uma vela por todas as vítimas deste conflito.
Respeito muito a ideia do Nuno Guerreiro - o promotor da iniciativa - embora deva fazer-lhe notar que recordar o Terramoto de 1755 não é bem a mesma coisa que acender velas pelas vítimas do massacre de Lisboa. Há uns meses ninguém acendeu velas ou tão-pouco depositou flores nos túmulos dos mortos do terramoto, certo, Nuno? O que se fez foi simplesmente recordar o triste evento e a sua importância na nossa História. E é isso mesmo que eu defendo que se faça com o massacre de Lisboa e com todos os outros massacres que referi - que se recordem, que não se esqueçam, sobretudo que se ensinem nas aulas de História nas escolas (e que não se ensinem somente as nossas "glórias"). É por isso que dou a minha modesta contribuição trazendo este importante assunto a este modesto blogue. Não tenho mesmo nada contra que se acendam as tais velas ou quem as acenda. A iniciativa do Nuno é boa, eu compreendo-a perfeitamente e no lugar dele provavelmente aderiria à tal concentração e acenderia velas. Compreendo as razões dele. Mas eu não estou na situação do Nuno. Espero que ele compreenda as minhas razões.

Para ler mais: Eu sou o pequeno judeu, pelo meu velho camarada Rui.