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2007/09/21
Pimba! Mais um anti-semita
"Para ter repercussão fala-se com o lóbi judeu, que é muito forte na imprensa de referência norte-americana." (António Carneiro Jacinto, ex-adido de imprensa da embaixada portuguesa em Washington, em entrevista ao Diário de Notícias)
2007/06/05
Um pouco de “Fox News” nos comentários de um blogue de física
Passam hoje quarenta anos sobre o início da Guerra dos Seis Dias. Entretanto tem dado que falar a recusa do físico americano Steven Weinberg em participar numa conferência no Reino Unido em homenagem ao falecido físico paquistanês Abdus Salam, fundador do Centro Internacional de Física Teórica, dirigido principalmente a físicos dos países em desenvolvimento. Weinberg (judeu) e Salam (muçulmano) partilharam com Sheldon Glashow o prémio Nobel da Física de 1979 pela formulação do Modelo Padrão das interacções electrofracas, que permitiu unificar a descrição do electromagnetismo e de um certo tipo de forças nucleares.
A razão da recusa de Weinberg é um “boicote ao boicote”: académicos britânicos não desejam a presença no país dos seus colegas israelitas, como forma de protesto contra a política levada a cabo pelos sucessivos diferentes governos de Israel no Médio Oriente. Weinberg, americano e professor reformado da Universidade do Texas em Austin, decidiu solidarizar-se com os seus colegas israelitas por considerar o protesto britânico de cariz… (adivinhem!) anti-semita.
A carta de Weinberg, e os detalhes da história, podem ser lidos aqui. Lendo a carta, podemos aperceber-nos que Weinberg vê “anti-semitismo” (ou em alternativa “medo de provocar a comunidade muçulmana na Grã Bretanha”) em órgãos como a BBC, o The Guardian e o The Independent.
Devo esclarecer que não acho adequado o boicote à presença de académicos de uma certa nacionalidade ou credo. O credo ou a nacionalidade não vinculam ninguém à política colonialista e agressiva de Israel. Concordaria se o boicote se limitasse a mercadorias, a bens de consumo. Mas pessoas não são mercadorias. Deve boicotar-se o capital, mas não as pessoas. Por isso lamento o tal boicote e lamento profundamente a decisão de Weinberg. O seu colega Salam, que tão frutíferas colaborações com ele teve, não o merecia.
Soube deste episódio através do blogue The Reference Frame. E é para esta mesma entrada deste blogue que eu quero chamar a vossa atenção, nomeadamente para os seus comentários. Comentários que demonstram bem como é impossível ter uma discussão racional sobre o conflito israelo-palestiniano nos EUA. Eu tentei ter essa conversa por algumas vezes e sei o que me aconteceu. Um comentador de bom senso (europeu), Kasper Olsen, fala timidamente sobre o direito dos palestinianos a terem o seu próprio estado, e é imediatamente rodeado por falcões pró-israelitas. Convido-vos a passarem por lá e a fazerem o vosso próprio julgamento. Podem encontrar opiniões que em Portugal (por enquanto) só o colunista do DN Alberto Gonçalves tem o desplante de emitir (enquanto escreve “Palestina” entre aspas), como
“I would probably also give up at this moment and give them a country - which means that Palestinians have the right, too. If you asked what I really think, my answer would be No, they don't deserve it. The concept of the Palestinian nation is just an abstract, soft construct.”
Eu sou contra a Intifada, mas notem que toda esta opinião – o “desistir e dar-lhes um país”, apesar de achar que os palestinianos não têm direito a ele – é o melhor argumento a favor dessa mesma Intifada que eu já li.
Quero ainda destacar
“The problem is that the more land and authority they were granted... the more israelis died in terrorist attacks...”
Como se os territórios ocupados fossem uma concessão feita aos palestinianos, uma prenda que se lhes dava – e não uma devolução daquilo que legitimamente sempre lhes pertenceu. É esta a visão que prevalece na opinião pública americana (que defende um “Grande Israel”) e nos principais meios de comunicação social (não é só a “Fox News”).
Não julguem que estes comentadores são necessariamente neoconservadores, ou mesmo simplesmente republicanos. Pelo contrário: muitos deles são, infelizmente, democratas.
Espero que esta pequena (mas representativa) amostra demonstre que a principal prioridade em política internacional é a necessidade de acabar com o apoio incondicional dos EUA a Israel, se se quer ter um mundo mais seguro. Enquanto isso não acontecer, no que a Europa deve apostar é numa política de defesa comum e autónoma (sem pôr em causa as suas alianças) o mais depressa possível. Que nos proteja das ameaças dos talibãs e dos Ahmenijads, sem dúvida. Mas que nos proteja também dos Drs. Estranhoamores de Washington e dos falcões de Tel Aviv.
Publicado também no Cinco Dias.
A razão da recusa de Weinberg é um “boicote ao boicote”: académicos britânicos não desejam a presença no país dos seus colegas israelitas, como forma de protesto contra a política levada a cabo pelos sucessivos diferentes governos de Israel no Médio Oriente. Weinberg, americano e professor reformado da Universidade do Texas em Austin, decidiu solidarizar-se com os seus colegas israelitas por considerar o protesto britânico de cariz… (adivinhem!) anti-semita.
A carta de Weinberg, e os detalhes da história, podem ser lidos aqui. Lendo a carta, podemos aperceber-nos que Weinberg vê “anti-semitismo” (ou em alternativa “medo de provocar a comunidade muçulmana na Grã Bretanha”) em órgãos como a BBC, o The Guardian e o The Independent.
Devo esclarecer que não acho adequado o boicote à presença de académicos de uma certa nacionalidade ou credo. O credo ou a nacionalidade não vinculam ninguém à política colonialista e agressiva de Israel. Concordaria se o boicote se limitasse a mercadorias, a bens de consumo. Mas pessoas não são mercadorias. Deve boicotar-se o capital, mas não as pessoas. Por isso lamento o tal boicote e lamento profundamente a decisão de Weinberg. O seu colega Salam, que tão frutíferas colaborações com ele teve, não o merecia.
Soube deste episódio através do blogue The Reference Frame. E é para esta mesma entrada deste blogue que eu quero chamar a vossa atenção, nomeadamente para os seus comentários. Comentários que demonstram bem como é impossível ter uma discussão racional sobre o conflito israelo-palestiniano nos EUA. Eu tentei ter essa conversa por algumas vezes e sei o que me aconteceu. Um comentador de bom senso (europeu), Kasper Olsen, fala timidamente sobre o direito dos palestinianos a terem o seu próprio estado, e é imediatamente rodeado por falcões pró-israelitas. Convido-vos a passarem por lá e a fazerem o vosso próprio julgamento. Podem encontrar opiniões que em Portugal (por enquanto) só o colunista do DN Alberto Gonçalves tem o desplante de emitir (enquanto escreve “Palestina” entre aspas), como
“I would probably also give up at this moment and give them a country - which means that Palestinians have the right, too. If you asked what I really think, my answer would be No, they don't deserve it. The concept of the Palestinian nation is just an abstract, soft construct.”
Eu sou contra a Intifada, mas notem que toda esta opinião – o “desistir e dar-lhes um país”, apesar de achar que os palestinianos não têm direito a ele – é o melhor argumento a favor dessa mesma Intifada que eu já li.
Quero ainda destacar
“The problem is that the more land and authority they were granted... the more israelis died in terrorist attacks...”
Como se os territórios ocupados fossem uma concessão feita aos palestinianos, uma prenda que se lhes dava – e não uma devolução daquilo que legitimamente sempre lhes pertenceu. É esta a visão que prevalece na opinião pública americana (que defende um “Grande Israel”) e nos principais meios de comunicação social (não é só a “Fox News”).
Não julguem que estes comentadores são necessariamente neoconservadores, ou mesmo simplesmente republicanos. Pelo contrário: muitos deles são, infelizmente, democratas.
Espero que esta pequena (mas representativa) amostra demonstre que a principal prioridade em política internacional é a necessidade de acabar com o apoio incondicional dos EUA a Israel, se se quer ter um mundo mais seguro. Enquanto isso não acontecer, no que a Europa deve apostar é numa política de defesa comum e autónoma (sem pôr em causa as suas alianças) o mais depressa possível. Que nos proteja das ameaças dos talibãs e dos Ahmenijads, sem dúvida. Mas que nos proteja também dos Drs. Estranhoamores de Washington e dos falcões de Tel Aviv.
Publicado também no Cinco Dias.
2007/04/24
Diz que é uma espécie de manifesto de esquerda
Correu a blogosfera um “manifesto das esquerdas por Israel”, tendo sido divulgado pelo meu muito prezado Tiago Barbosa Ribeiro. Fosse só mais um “manifesto por Israel”, e eu nem lhe prestaria atenção nenhuma. Mas sendo um manifesto “das esquerdas”, julgo que merece a nossa atenção.
Na origem do manifesto está a expulsão de um militante do Bloco Nacionalista Galego. O episódio foi-nos explicado pelo Tiago (sempre atento a estas questões) em termos algo vagos: a expulsão deveu-se a o ex-militante ser dirigente da Associação Galega de Amizade com Israel e “defender o estado de Israel” (defender como?). O que não explica muito, mas (sem querer julgar em definitivo um caso que não conheço) parece-me suficiente para eu não concordar com a sua expulsão, se pertencesse ao referido partido. É possível (e desejável) ser de esquerda e procurar a cooperação com sectores moderados de Israel, que existem, embora sejam escassos.
Mesmo assim, o referido manifesto não pode merecer a minha concordância. E porquê? Porque objectivamente é um manifesto de apoio a Israel e à sua política expansionista e colonialista. Um manifesto de esquerda em apoio a Israel poderia ter feito sentido noutras ocasiões, quando Israel era atacado e teve de se defender. Mas, na sequência da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou (e ocupa, até hoje) ilegalmente territórios que não são seus. Para além disso Israel controla todas as actividades económicas dos territórios palestinianos, cobrando impostos, comissões e portagens e mantendo monopólios no abastecimento. Israel não é um estado laico, não concedendo direitos de cidadania plena aos seus cidadãos não judeus. Israel é um estado colonialista, e é o estado que mais sistematicamente viola as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por isso, não creio que um estado como Israel possa merecer mais apoio de quem se diz de esquerda que não seja simplesmente ao direito a defender-se dos ataques que recebe. É este, e só este, o apoio que eu dou a Israel. Mas não é essa a política externa de Israel, que está muito longe de ser uma mera política de defesa.
Tal como no manifesto, também eu defendo um reposicionamento da esquerda relativamente a Israel, só apoiando este estado na situação que referi (o que equivale a não apoiar a sua política externa e mesmo interna). Também julgo que o que aqui afirmo deve ser dito com “clareza” a Israel. A esquerda não tem (nem deve) de fazer nenhum tipo de cedência relativamente a Israel. É Israel que tem de vir ao encontro da esquerda, se quiser efectivamente o seu apoio.
O Tiago enumerou ontem as pessoas que apoiaram na blogosfera portuguesa o manifesto que ele lançou. É curioso que entre os apoiantes (de um manifesto “das esquerdas”) se contem mais pessoas de direita do que de esquerda, sendo que entre as primeiras está André Azevedo Alves, que recentemente se destacou como o maior defensor na blogosfera portuguesa de Salazar para o “maior português de sempre”. Já todos sabíamos que Israel era apoiado pela direita belicista, religiosa e fundamentalista. O que é curioso é que, em Portugal, essa direita é descendente da Inquisição e de quem expulsou do nosso país os judeus (a começar justamente pelo ultracatólico Azevedo Alves)! Servir como arma de arremesso e instrumento de chantagem da direita e da extrema direita, como este texto tão bem ilustra: é a isso que Israel chegou.
Publicado também no Cinco Dias.
Na origem do manifesto está a expulsão de um militante do Bloco Nacionalista Galego. O episódio foi-nos explicado pelo Tiago (sempre atento a estas questões) em termos algo vagos: a expulsão deveu-se a o ex-militante ser dirigente da Associação Galega de Amizade com Israel e “defender o estado de Israel” (defender como?). O que não explica muito, mas (sem querer julgar em definitivo um caso que não conheço) parece-me suficiente para eu não concordar com a sua expulsão, se pertencesse ao referido partido. É possível (e desejável) ser de esquerda e procurar a cooperação com sectores moderados de Israel, que existem, embora sejam escassos.
Mesmo assim, o referido manifesto não pode merecer a minha concordância. E porquê? Porque objectivamente é um manifesto de apoio a Israel e à sua política expansionista e colonialista. Um manifesto de esquerda em apoio a Israel poderia ter feito sentido noutras ocasiões, quando Israel era atacado e teve de se defender. Mas, na sequência da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou (e ocupa, até hoje) ilegalmente territórios que não são seus. Para além disso Israel controla todas as actividades económicas dos territórios palestinianos, cobrando impostos, comissões e portagens e mantendo monopólios no abastecimento. Israel não é um estado laico, não concedendo direitos de cidadania plena aos seus cidadãos não judeus. Israel é um estado colonialista, e é o estado que mais sistematicamente viola as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por isso, não creio que um estado como Israel possa merecer mais apoio de quem se diz de esquerda que não seja simplesmente ao direito a defender-se dos ataques que recebe. É este, e só este, o apoio que eu dou a Israel. Mas não é essa a política externa de Israel, que está muito longe de ser uma mera política de defesa.
Tal como no manifesto, também eu defendo um reposicionamento da esquerda relativamente a Israel, só apoiando este estado na situação que referi (o que equivale a não apoiar a sua política externa e mesmo interna). Também julgo que o que aqui afirmo deve ser dito com “clareza” a Israel. A esquerda não tem (nem deve) de fazer nenhum tipo de cedência relativamente a Israel. É Israel que tem de vir ao encontro da esquerda, se quiser efectivamente o seu apoio.
O Tiago enumerou ontem as pessoas que apoiaram na blogosfera portuguesa o manifesto que ele lançou. É curioso que entre os apoiantes (de um manifesto “das esquerdas”) se contem mais pessoas de direita do que de esquerda, sendo que entre as primeiras está André Azevedo Alves, que recentemente se destacou como o maior defensor na blogosfera portuguesa de Salazar para o “maior português de sempre”. Já todos sabíamos que Israel era apoiado pela direita belicista, religiosa e fundamentalista. O que é curioso é que, em Portugal, essa direita é descendente da Inquisição e de quem expulsou do nosso país os judeus (a começar justamente pelo ultracatólico Azevedo Alves)! Servir como arma de arremesso e instrumento de chantagem da direita e da extrema direita, como este texto tão bem ilustra: é a isso que Israel chegou.
Publicado também no Cinco Dias.
2007/04/20
Cara Fernanda Câncio:
Não se preocupe com textos escritos com os pés. Responda-me antes a uma questão, sff. Isso da esquerda por israel (eu, por exemplo, às vezes) o que quer exactamente dizer? A Fernanda é às vezes por Israel? Ou é às vezes de esquerda? Ou é às vezes uma coisa, às vezes a outra?
(E continue a chatear. Chateie sempre. Não chateia nada.)
(E continue a chatear. Chateie sempre. Não chateia nada.)
2006/11/12
Uma viagem à Palestina
Passada a fase ultra-buarqueana, é altura de ler o que ficou por ler. Do mais recomendável que ficou por referir foi o relato da viagem à Palestina do Daniel Oliveira. A ler de uma ponta à outra. Deixo aqui dois extractos.
Jerusalém é um bom retrato (exagerado) do que está a acontecer à sociedade israelita (e à árabe, e à americana...). Os ortodoxos tomaram conta da cidade. Reproduzem-se a um ritmo alucinante, compram ruas inteiras, fecham ruas ao sábado, apedrejam quem se atreve a conduzir naquele dia e, paulatinamente, vão comprando todas as casas numa guerra de posições. (...) Alguns ortodoxos limitam-se a receber dinheiro do Estado para não fazer nada a não ser ler os textos sagrados. As mulheres de outros são obrigadas a rapar o cabelo depois de casar e usam peruca no seu lugar. Recentemente, um representante dos ortodoxos na municipalidade quis proibir homens e mulheres de viajarem no mesmo lugares dos transportes públicos. Se alguém tomasse esta gente por legítimos representantes dos judeus, toda a gente se indignaria. Com justiça. Só que quando se toma a minoria fanática islâmica pela voz dos muçulmanos, toda a gente acha normal. (...)
[Em Gaza] Com o encerramento das fronteiras, a maquinaria para fábricas não entra e não há investimento possível. Quando chegam ao mercado os custos de transporte representam o dobro dos custos de produção. Depois de verificados ao milímetro, e esperarem durante dias no porto israelita de Ashdod (os palestinianos têm de pagar a espera), os produtos só podem ser transportados por empresas israelitas certificadas. Elas aproveitam o monopólio e inflacionam os preços. Depois, em princípio, ficam semanas ou meses à espera na fronteira, ao sabor dos humores do oficial de serviço. Se forem perecíveis, já nem vale a pena saírem de lá. Os produtos de consumo de produção israelita entram, claro. Há que fazer negócio. Os preços são muito mais altos do que em Israel e os salários infinitamente mais baixos. O pouco que os palestinianos ainda conseguem produzir para exportação só sai depois de apodrecer. O funcionamento do porto em Gaza seria uma grande ajuda para os palestinianos. Mas os israelitas não permitem que ele reabra. Entre as duas partes dos territórios (Gaza e Cisjordânia) praticamente não existem movimentos comerciais possíveis.
Como ninguém entra ou sai, o investimento externo é uma miragem. Ninguém quer empatar dinheiro com tanto risco se nem pode ter contacto com o seu negócio. Os empresários de Gaza não podem ir a reuniões no estrangeiro, tratar de negócios. Estão presos. Um gestor explica-me: «Israel retirou mas continuamos ocupados, muito pior do que antes, estamos aqui presos e condenados à miséria. Somos pessoas educadas, preparadas para os nossos negócios. Não precisamos de caridade. Apenas queremos que nos deixem trabalhar.»
Há sete meses que os funcionários públicos de Gaza e da Cisjordânia não recebem um tostão. É Israel que colecta os impostos dos palestinianos. Desde que o Hamas ganhou as eleições que fica com eles. São dois terços do Orçamento da Autoridade Palestiniana que Israel rouba e usa para seu proveito. Só os médicos recebem: 300 dólares por mês. O resto, de professores a polícias, nada. Num território com mais de 3500 pessoas por quilómetro quadrado, o poder está na rua. Não há dinheiro mas não faltam armas. Estão três mil para entrar. E os EUA fazem pressão junto de Israel para que autorize. Quer armar a Fatah para uma provável guerra civil que se avizinha. Assim como quer que entrem mais homens para engrossar a guarda pretoriana do Presidente Abbas. A Europa (que paga tudo, das infra-estruturas que os israelitas se divertem a desfazer às ajudas ao governo) descobriu o ovo do Colombo. Vai criar um regime extraordinário em que o dinheiro é entregue directamente aos funcionários, através de bancos, sem passarpelo governo. Outra parte do dinheiro irá directamente para pagar a electricidade e água que Israel fornece à Palestina. Fica-lhes com os impostos e cobra-lhes pela energia.
2006/10/30
António Lobo Antunes: relato de uma visita a Israel
Extracto de uma entrevista à Pública de ontem:
Noutra parte da mesma entrevista:
Não esperava que um homem polémico como António Lobo Antunes padecesse do mesmo mal português tão comum que é o evitar conflitos a todo o custo (sem se aperceber de que muitas vezes assim se geram os maiores problemas). Desde quando é que expressar uma opinião sobre um assunto é indelicado? É claro que há formas indelicadas de expressar uma opinião, e isso eu compreendo que Lobo Antunes evite, principalmente sendo um convidado. Agora, não a exprimir de todo? Preferir calar-se para "não arranjar problemas" (para si mesmo), mesmo se esses problemas existem (e se muita gente em Israel os denuncia)? Preocupar-se mais consigo mesmo do que com os mais fracos? Não querer afrontar os poderosos?
O que me impressiona mais é que quem toma esta atitude é um escritor que, em Portugal, não tem papas na língua (a entrevista à Pública é só um exemplo). Subserviente fora de casa; em casa, dá-se ares de muito bravo. "Na guerra és vil, na cama és frouxo", já cantava o Chico Buarque do português de Calabar. Há atitude mais portuguesa que esta? António Lobo Antunes merece ser nomeado para o título de "português mais português".
R.- O horror do aeroporto. A bagagem, o interrogatório. Mostrei a carta a explicar por que ia lá, mesmo assim continuaram, os livros eram vistos página a página... Depois o clima permanente de medo. Depois a sensação de que aquele Estado foi criado sobre o ódio. O ódio dos alemães. O Holocausto, sempre, sempre, sempre. Levaram-me a um bairro alemão. E eu perguntei ao senhor que estava sempre comigo: "Então e os alemães?" "Ah, isso corremos com eles todos."
Como me chocou, por exemplo, dizerem que não tinham relações sexuais com não-judeus.
P.- Mas quem é que lhe disse isso?
R.- Esse senhor. E não foi só ele. Como me chocou, por exemplo, se sou judeu posso ir para lá morar, mas se sou judeu etíope só aceitam 300 por ano. Como me chocaram os sábados, aquilo tudo deserto, com os carros que não se podem guiar. E depois não era nada do que eu esperava, pensava que a Terra Prometida fosse muito bonita. São pedras e areia. Tudo amarelo...
Noutra parte da mesma entrevista:
P.- Quando ganhou o Jerusalem Prize, no ano passado, hesitou antes de ir?
R.- Não. Porque vinha acompanhado da garantia de que eu podia chegar lá e dizer o que quisesse em relação ao problema palestiniano, que me indigna muito. E não falei sobre isso.
P.- Mas porque não quis.
R.- Não quis ser indelicado. Era um convidado. Naqueles dias era a pessoa mais importante que lá estava. Tinha aquela segurança toda, o primeiro-ministro... Não quis. Achei que era indelicado. E achei que não era altura. Falei sobre isso com um amigo meu, o Amos Oz. E não gostei da posição que ele agora tomou, pró-guerra [no recente confronto entre Israel e o Hezzbollah libanês]. Nem entendo. Somos amigos, gosto muito dele.
Não esperava que um homem polémico como António Lobo Antunes padecesse do mesmo mal português tão comum que é o evitar conflitos a todo o custo (sem se aperceber de que muitas vezes assim se geram os maiores problemas). Desde quando é que expressar uma opinião sobre um assunto é indelicado? É claro que há formas indelicadas de expressar uma opinião, e isso eu compreendo que Lobo Antunes evite, principalmente sendo um convidado. Agora, não a exprimir de todo? Preferir calar-se para "não arranjar problemas" (para si mesmo), mesmo se esses problemas existem (e se muita gente em Israel os denuncia)? Preocupar-se mais consigo mesmo do que com os mais fracos? Não querer afrontar os poderosos?
O que me impressiona mais é que quem toma esta atitude é um escritor que, em Portugal, não tem papas na língua (a entrevista à Pública é só um exemplo). Subserviente fora de casa; em casa, dá-se ares de muito bravo. "Na guerra és vil, na cama és frouxo", já cantava o Chico Buarque do português de Calabar. Há atitude mais portuguesa que esta? António Lobo Antunes merece ser nomeado para o título de "português mais português".
2006/09/11
Haverá terrorismo aceitável?
Cinco anos depois do dia que mudou a História, vale a pena reflectir sobre a questão do título.
A meu ver, uma das grandes falácias que se seguiram ao 11 de Setembro de 2001 foi esta: passou a colocar-se todo o tipo de terrorismo no mesmo saco, e a condená-lo indiscriminadamente. Será este procedimento honesto e aceitável? Julgo que não. Visa somente satisfazer os objectivos da direita e extrema direita no poder nos EUA. Lamentavelmente este tipo de raciocínio tende por vezes a ser adoptado mesmo por pessoas que eu respeito e gosto muito de ler.
A meu ver, o terrorismo não é aceitável em Estados de Direito. Os métodos usados por organizações como a ETA ou o IRA não são, portanto, aceitáveis (vamos deixar Israel e a Palestina de fora da discussão por agora). O que não significa que sejam indefensáveis os objectivos destas organizações; só o são os seus métodos. A partir do 11 de Setembro de 2001 passou a considerar-se “ilegítima” e “indefensável” qualquer causa que fosse defendida por um grupo terrorista, e impensável sequer tentar compreender os motivos por trás do surgimento deste terrorismo. Quem o tentar fazer é logo acusado de “conivência” com o terrorismo (este ponto da discussão já se aplica perfeitamente ao conflito israelo-palestiniano).
Há no entanto a meu ver casos em que uma resistência armada (que pode ser chamada “terrorista”) é inevitável: é quando a autoridade não é um Estado de Direito e pratica ela mesma o terrorismo. Foi o caso do ANC de Nelson Mandela (sim, Nelson Mandela, a meu ver o Homem do séc. XX, também foi considerado “terrorista”), a resistir ao apartheid da África do Sul, e de muitos movimentos anticolonialistas. Foi também esse o caso de muitos movimentos de luta contra as ditaduras da América Latina entre os anos 60 e 80. Em qualquer um desses casos a luta armada parece-me aceitável e, em alguns casos, provavelmente inevitável.
O que não é aceitável é o uso de violência contra inocentes. Os casos que eu anteriormente foquei usavam a violência contra agentes da autoridade. Agentes corruptos e ditatoriais.
Na Colômbia vigora um regime corrupto de extrema-direita dominado por militares e barões da droga, que aterrorizam quem se lhes opuser. A resistência armada a um regime destes é aceitável e legítima.
Lamentavelmente, não é só isto que fazem as FARC. As FARC raptam e matam indiscriminadamente. O exemplo mais conhecido e mediático é o de Ingrid Betancourt, candidata pelo Partido Ecologista às eleições presidenciais de 2002, sem nenhuma ligação ao governo colombiano, e raptada e mantida em cativeiro pelas FARC desde essa altura. Por isso as FARC são um movimento terrorista, tal como o é o Sendero Luminoso no Peru. Quando os actos terroristas são ilegítimos, uma resposta armada é legítima.
Queria terminar referindo que os terríveis acontecimentos de há cinco anos foram um atentado terrorista ilegítimo, e como tal, na mesma ordem de ideias do que tenho vindo a escrever (e sempre defendi), a resposta dos Estados Unidos da América foi legítima.
A meu ver, uma das grandes falácias que se seguiram ao 11 de Setembro de 2001 foi esta: passou a colocar-se todo o tipo de terrorismo no mesmo saco, e a condená-lo indiscriminadamente. Será este procedimento honesto e aceitável? Julgo que não. Visa somente satisfazer os objectivos da direita e extrema direita no poder nos EUA. Lamentavelmente este tipo de raciocínio tende por vezes a ser adoptado mesmo por pessoas que eu respeito e gosto muito de ler.
A meu ver, o terrorismo não é aceitável em Estados de Direito. Os métodos usados por organizações como a ETA ou o IRA não são, portanto, aceitáveis (vamos deixar Israel e a Palestina de fora da discussão por agora). O que não significa que sejam indefensáveis os objectivos destas organizações; só o são os seus métodos. A partir do 11 de Setembro de 2001 passou a considerar-se “ilegítima” e “indefensável” qualquer causa que fosse defendida por um grupo terrorista, e impensável sequer tentar compreender os motivos por trás do surgimento deste terrorismo. Quem o tentar fazer é logo acusado de “conivência” com o terrorismo (este ponto da discussão já se aplica perfeitamente ao conflito israelo-palestiniano).
Há no entanto a meu ver casos em que uma resistência armada (que pode ser chamada “terrorista”) é inevitável: é quando a autoridade não é um Estado de Direito e pratica ela mesma o terrorismo. Foi o caso do ANC de Nelson Mandela (sim, Nelson Mandela, a meu ver o Homem do séc. XX, também foi considerado “terrorista”), a resistir ao apartheid da África do Sul, e de muitos movimentos anticolonialistas. Foi também esse o caso de muitos movimentos de luta contra as ditaduras da América Latina entre os anos 60 e 80. Em qualquer um desses casos a luta armada parece-me aceitável e, em alguns casos, provavelmente inevitável.
O que não é aceitável é o uso de violência contra inocentes. Os casos que eu anteriormente foquei usavam a violência contra agentes da autoridade. Agentes corruptos e ditatoriais.
Na Colômbia vigora um regime corrupto de extrema-direita dominado por militares e barões da droga, que aterrorizam quem se lhes opuser. A resistência armada a um regime destes é aceitável e legítima.
Lamentavelmente, não é só isto que fazem as FARC. As FARC raptam e matam indiscriminadamente. O exemplo mais conhecido e mediático é o de Ingrid Betancourt, candidata pelo Partido Ecologista às eleições presidenciais de 2002, sem nenhuma ligação ao governo colombiano, e raptada e mantida em cativeiro pelas FARC desde essa altura. Por isso as FARC são um movimento terrorista, tal como o é o Sendero Luminoso no Peru. Quando os actos terroristas são ilegítimos, uma resposta armada é legítima.
Queria terminar referindo que os terríveis acontecimentos de há cinco anos foram um atentado terrorista ilegítimo, e como tal, na mesma ordem de ideias do que tenho vindo a escrever (e sempre defendi), a resposta dos Estados Unidos da América foi legítima.
2006/08/13
2006/08/11
2006/08/08
Uma força europeia para quê?
Extracto de um artigo de Álvaro Vasconcelos no Público de hoje:
A guerra do Líbano, envolvendo três vizinhos da União Europeia com quem ela procura constituir uma área de democracia e paz, veio colocar de forma brutal a questão da violência, da sua legitimidade, das normas e regras do seu emprego. Estamos a falar do uso da força envolvendo entidades que fazem parte daquela que é provavelmente a mais ambiciosa política externa da União - a que desenvolve em relação aos países da sua periferia sul, com quem, no quadro do processo de Barcelona e da nova política de vizinhança, procura constituir uma área integrada, baseada na experiência dos alargamentos.
O envolvimento europeu, com forças militares, no Sul do Líbano exige da União uma condenação inequívoca da violência ilegítima e uma definição muito clara de objectivos. Caso contrário, a União poderá estar a envolver-se numa estratégia que não é a sua e perder o capital de simpatia e atracção de que goza na região.
É a credibilidade da União e de alguns dos seus Estados-membros, como a França, que explica por que uma tal força só pode ser liderada por europeus. Do Líbano a Marrocos há um desejo de mais Europa e por isso a União tem que ser capaz de corresponder não só às expectativas em termos de deliver, mas também, e sobretudo, em termos de política. Para que a União continue a ser uma alternativa para a paz e a democracia no Médio Oriente, a sua política não se pode confundir nem com a da Administração Bush nem com a de Israel.
Para a União, a violência é um último recurso, que só deve ser utilizado quando todos os demais estiverem esgotados. A repugnância europeia pelo uso da força, a convicção de que ela deve ser regulada e de que os que a usam em desrespeito dos valores e direitos fundamentais devem ser condenados tem de ser a característica fundamental da política externa da União. Pode haver Estados-membros que usem a força numa perspectiva de potência tradicional, mas a União nunca o poderá fazer sem pôr em causa os seus princípios fundadores.
2006/08/01
Clareza buarqueana
Bastou um pequeno texto, aliás uma pequena frase no fim, para a Ana Sá Lopes clarificar a posição da Fernanda Câncio. Obrigado, Ana. Que pena eu tenho por ter perdido o Francis no outro dia, mas não estava em Lisboa. Já tem bilhetes para o Coliseu, em Novembro?
Quanto aos Dire Straits, a minha explicação sobre a minha posição seria tão clara como uma explicação da Fernanda Câncio. Assim cheia de "mas"... Mas defendo claramente que o Mark Knopfler é um dos melhores guitarristas de sempre. Gosto de ouvir o Alchemy enquanto estou a guiar.
Quanto aos Dire Straits, a minha explicação sobre a minha posição seria tão clara como uma explicação da Fernanda Câncio. Assim cheia de "mas"... Mas defendo claramente que o Mark Knopfler é um dos melhores guitarristas de sempre. Gosto de ouvir o Alchemy enquanto estou a guiar.
2006/07/28
De Berlim, sem acentos
...e sem muito tempo para escrever. So quero chamar a atencao para dois textos indisoensaveis no Agreste Avena (Einstein, esse grande anti-semita)e no Esquerda Republicana/Diario Ateista (Israel nao e um estado laico).
2006/07/21
Bastante oportuno

Zapatero demonstra assim mais uma vez ser o mais firme e determinado político europeu do momento. Quem deveria no entanto explicar a imagem acima são aqueles fãs de Zapatero pelas suas políticas fracturantes mas que no que diz respeito à invasão do Líbano e Gaza por Israel, e mesmo no conflito israelo-palestiniano, têm posições que considero pouco claras, como Fernanda Câncio.
2006/07/19
Entre as ruínas, ninguém leva a melhor
«Importa dizer que, num conflito armado, o ataque a forças militares e a captura de soldados não podem ser equiparados a terrorismo ou a "tomada de reféns" (noções que só têm sentindo quando as vítimas sejam civis), como quer fazer crer o Governo israelita, seguido nessa linguagem, acriticamente, por muitos observadores coniventes ou desatentos. Israel ocupa ilegalmente, e pela força militar, os territórios de Gaza e da Cisjordânia, desde há quase 40 anos. A resistência dos palestinianos à ocupação é perfeitamente legítima e o ataque a objectivos militares e a forças militares ocupantes é um direito seu. Muitos dos que criticam a resistência palestiniana fariam o mesmo que eles, se colocados no seu lugar. Apodar de "terroristas" essas acções tem somente por objectivo confundir os conceitos e tentar deslegitimar a resistência palestiniana contra a infindável ocupação e opressão israelita.
É evidente que Israel pode responder militarmente aos ataques contra as suas forças militares, e ainda mais os que atinjam o seu território, desde que tenha por objectivo os responsáveis por eles. Mas não foi isso que sucedeu. Em resposta ao ataque do braço armado do Hamas, Israel resolveu lançar uma ofensiva-relâmpago contra a Faixa de Gaza, que aliás prossegue, atingindo primariamente objectivos exclusivamente civis (pontes, estradas e outras infra-estruturas) e matando pessoas ao acaso, numa orgia de violência que seria sempre desproporcionada, mesmo se fosse justificada, o que não era. Do mesmo modo, contra a segunda acção, a do Hezbolah, essa vinda do exterior, Telavive lançou-se indiscriminadamente sobre o Líbano, de novo sobre objectivos civis (estradas, pontes, o aeroporto civil de Beirute, portos, bairros urbanos, etc.,) e novamente com um saldo de numerosas vítimas inocentes.» (Vital Moreira, Público, 18-07-05)
É evidente que Israel pode responder militarmente aos ataques contra as suas forças militares, e ainda mais os que atinjam o seu território, desde que tenha por objectivo os responsáveis por eles. Mas não foi isso que sucedeu. Em resposta ao ataque do braço armado do Hamas, Israel resolveu lançar uma ofensiva-relâmpago contra a Faixa de Gaza, que aliás prossegue, atingindo primariamente objectivos exclusivamente civis (pontes, estradas e outras infra-estruturas) e matando pessoas ao acaso, numa orgia de violência que seria sempre desproporcionada, mesmo se fosse justificada, o que não era. Do mesmo modo, contra a segunda acção, a do Hezbolah, essa vinda do exterior, Telavive lançou-se indiscriminadamente sobre o Líbano, de novo sobre objectivos civis (estradas, pontes, o aeroporto civil de Beirute, portos, bairros urbanos, etc.,) e novamente com um saldo de numerosas vítimas inocentes.» (Vital Moreira, Público, 18-07-05)
2006/07/18
Leitura altamente recomendada
O seguinte artigo de Mário Vargas Llosa no El Pais, que eu encontrei no Franco Atirador mas reproduzo aqui na íntegra. Dedicado aos auto-intitulados "amigos de Israel", que é o que mais há pela blogosfera.
Israel y los matices
Illan Pappe, historiador revisionista israelí, procede de una familia de judíos alemanes de sólidas credenciales liberales, y él mismo fue educado dentro de esta corriente de pensamiento que defiende la sociedad abierta, el mercado, al individuo contra el Estado y opone al colectivismo -la definición del ciudadano por su pertenencia a una clase social, una raza, una cultura o una religión- la soberanía individual. Hace unos días le oí contar que, cuando empezó a tomar distancias contra el sionismo, doctrina que sustenta la creación y la naturaleza del Estado de Israel, pensó que su evolución política estaba dentro de la ortodoxia liberal y que cuestionar la ideología sionista era, además de otras cosas, dar una batalla contra el colectivismo. Pero no encontró en su país partido o movimiento político liberal donde encajaran sus ideas, pues la inmensa mayoría de los liberales israelíes eran sionistas. Esto lo fue acercando a quienes, por doctrina, eran sus naturales adversarios políticos, los comunistas, con quienes discrepaba en todo lo demás, pero coincidía en su posición crítica del sionismo. Y eso hace que desde entonces, se quejaba, los amantes de la simplificación y enemigos de los matices, lo cataloguen de "comunista".
La abolición de los matices facilita mucho las cosas a la hora de juzgar a un ser humano, analizar una situación política, un problema social, un hecho de cultura, y permite dar rienda suelta a las filias y a las fobias personales sin censuras y sin el menor remordimiento. Pero es, también, la mejor manera de reemplazar las ideas por los estereotipos, el conocimiento racional por la pasión y el instinto, y de malentender trágicamente el mundo en que vivimos. Hay ciertos conflictos que, por la violencia y los antagonismos que suscitan, conducen casi irresistiblemente a quienes los viven o siguen de cerca a liquidar los matices a fin de promover mejor sus tesis y, sobre todo, desbaratar las de sus adversarios.
Quiero ilustrar con un ejemplo personal lo que trato de decir. La Fundación Internacional para la Libertad organizó hace unos días, en Madrid, un encuentro entre intelectuales judíos y árabes, en el cual, en una de sus intervenciones, el periodista Gideon Levy, crítico severo del Gobierno de su país, dijo que él militaba contra la ocupación de Cisjordania porque no quería sentirse avergonzado de ser israelí. Yo, por mi parte, al clausurar el evento, parafraseando a Levy, dije que mis críticas a la política con los palestinos de los dos últimos gobiernos de ese país se debían a que tampoco quería sentirme avergonzado de ser amigo de Israel. Dos días después, el diario israelí Haaretz publicaba una crónica del propio Gideon Levy sobre el encuentro madrileño, bastante exacta, pero con un título que, al cambiar el matiz, me hacía decir algo que yo no había dicho: "Vargas Llosa tiene vergüenza de ser amigo de Israel".
El diario recibió 199 cartas de lectores israelíes indignados, que publicó en su blog. Las he ojeado con cierta estupefacción, pese a que ellas no hacen más que confirmar algo que, desde que empecé a pensar por mi propia cuenta en cuestiones políticas hace cuarenta años, ya sé de sobra: lo fácil que es tergiversar, caricaturizar o desacreditar a quien disiente, o parece disentir, de nuestras convicciones dogmáticas. Lo curioso es que casi todas las cartas me llaman "comunista", "ultra izquierdista", "castrista", "otro Saramago", "antisemita", y, una de ellas, la más imaginativa, se pregunta: "¿Qué se puede esperar de alguien que sube a los escenarios con la conocida actriz estalinista Aitana Sánchez Gijón y que escribe en EL PAÍS, el periódico más izquierdista de toda Europa?". Bueno, bueno. Mis vociferantes objetores no parecen sospechar siquiera que de lo que yo suelo ser acusado más bien, en España y en América Latina, es de neo-con, de ultra liberal, de pro americano y otras lindezas por el estilo por atacar a Fidel Castro, a Hugo Chávez y criticar con frecuencia el fariseísmo y el oportunismo de los intelectuales de izquierda.
En realidad, una de las cosas que soy, o, mejor dicho, trato de ser en la vida, es un leal amigo de Israel. Muchas veces he escrito que visitar ese país hace treinta y pico de años fue una de las experiencias más emocionantes que he tenido y que sigo creyendo que construir un país moderno, en medio del desierto, de lineamientos democráticos, con gentes provenientes de culturas, lenguas, costumbres tan distintas, y rodeado de enemigos, fue una gesta extraordinaria, de enorme idealismo y sacrificio, un modelo para los países como el mío, o los demás países latinoamericanos o africanos, que, con muchos más recursos que Israel, no consiguen todavía salir del subdesarrollo. Es verdad que Israel en el curso de su breve historia ha recibido mucha ayuda exterior. Pero ¿no la han recibido también muchos otros, que la han desaprovechado, derrochado o simplemente saqueado?
Para mí, el derecho a existir de Israel no se sustenta en la Biblia, ni en una historia que se interrumpió hace miles de años, sino en la gestación del Israel moderno por pioneros y refugiados que, luchando por la supervivencia, demostraron que no son las leyes de la historia las que hacen a los hombres, sino éstos, con su voluntad, su trabajo y sus sueños los que le marcan a aquélla unas pautas y una dirección. Ningún país existía allí, en esa miserable provincia del imperio otomano, cuando nació Israel, cuya existencia fue luego legitimada por las Naciones Unidas y el reconocimiento de la mayoría de países del mundo.
Ahora bien, para que Israel tenga un porvenir seguro y sea por fin un país "normal", aceptado por sus vecinos, debe encontrar un modo de coexistencia con los palestinos. Y contra esta coexistencia conspira esa ocupación de Cisjordania que se prolonga indefinidamente y que ha convertido a Israel en un país colonial, lo que ha crispado de manera indecible sus relaciones con los palestinos. Las condiciones en que éstos han vivido, en Gaza, y viven todavía dentro de los territorios ocupados, sobre todo en los campos de refugiados, son inaceptables, indignos de un país civilizado y democrático. Lo afirmo porque lo he visto con mis ojos. Los amigos de Israel tenemos la obligación de decirlo en alta voz y censurar a sus gobernantes por practicar en esos territorios una política de intimidación, de acoso y de asfixia que ofende las más elementales nociones de humanidad y de moral. Y, también, de condenar sus reacciones desproporcionadas a los actos terroristas, como la actual, que, a raíz del secuestro criminal de un soldado israelí por militantes palestinos, ha causado ya decenas de muertos civiles inocentes en Gaza y amenaza con resucitar la guerra con el Líbano.
Esto no significa, en modo alguno, justificar las acciones criminales de los terroristas de Hamás o la Jihad Islámica o de los otros grupúsculos armados que operan por la libre. Pero sí reconocer que detrás de estas acciones injustificables y crueles -las bombas de los suicidas, los ataques ciegos a la población civil, los secuestros, etcétera- hay un pueblo desesperado al que la desesperación empuja cada vez más a escuchar no la voz de los moderados y razonables sino la de los fanáticos y a creer, estúpidamente, que el fin del conflicto no está en la negociación sino en la punta del fusil o la mecha de la bomba.
La superioridad de Israel sobre sus enemigos en el Medio Oriente fue política y moral antes que la de sus cañones, sus aviones y su modernísimo Ejército. Pero, debido a su extraordinario poderío, algo que suele volver a los países arrogantes, la está perdiendo, y eso lleva a algunos de sus dirigentes, como creía Ariel Sharon, a pensar que la solución del conflicto con los palestinos puede ser un diktat, una fórmula unilateral impuesta por la fuerza. Eso es una ingenuidad que sólo prolongará indefinidamente el sufrimiento y la guerra en toda la región.
Mi amigo israelí David Mandel (¿o debo decir ahora ex amigo, ya que me he vendido a los palestinos?) me conmina en una carta abierta a que devuelva el premio Jerusalén que recibí en 1995. Se trata de un premio más bien simbólico, pero que a mí me llena de orgullo, y no voy a renunciar a él, porque, aunque David no pueda entenderlo, lo que yo hago y escribo sobre Israel no tiene otro objetivo que seguir siendo digno de esa hermosa distinción, que me fue concedida por mi compromiso con la democracia y la libertad. Para mí, mi adhesión a Israel es inseparable de aquel compromiso, como es el caso de tantos israelíes que, a la manera de Illan Pappe, Gideon Levy, Amira Hass o Meir Margalit, pero sin duda de manera más radical que yo, denuncian las políticas de su Gobierno con los palestinos y plantean alternativas.
Es verdad que ellos representan una minoría, ese matiz que los adoradores de verdades dogmáticas desprecian. Ni siquiera sé si yo estoy de acuerdo en todas las posiciones que ellos defienden. Probablemente, no. Creo, por ejemplo, que el sionismo tiene unas razones que no pueden descartarse de manera abstracta, prescindiendo de un contexto histórico preciso. Pero que ellos, y otros muchos como ellos, vayan contra la corriente y sean capaces de oponerse de manera tan resuelta a lo que les parecen políticas equivocadas, contraproducentes o brutales, y que puedan hacerlo sin ser perseguidos, encarcelados, o liquidados, como ocurriría -ay- entre casi todos los otros países de la región, es una de las realidades que todavía mantiene viva mi esperanza de que haya un cambio en Israel, y, otra vez, la negociación sea posible, y pueda llegarse a un acuerdo razonable que ponga fin a esa infinita hemorragia de dolor y de sangre.
El encuentro madrileño de judíos y árabes fue asimétrico, porque cerca de diez palestinos que habían aceptado nuestra invitación no pudieron venir, y porque algunos israelíes, como Amos Oz y David Grossman, cuyas voces queríamos escuchar, tampoco lo hicieron. Pero no fue inútil: una gota de agua en el desierto es mejor que ninguna. Hubo, por ejemplo, exposiciones magníficas y no del todo irreconciliables, de Shlomo Ben Ami y de Yasser Abed Rabbo, que participaron en las negociaciones de Camp David. Trataré de seguir convocando estos diálogos, invitando no sólo a quienes hablan por la mayoría, sino también por las pequeñas minorías, esos matices olvidables en los que, sin embargo, muy a menudo se agazapa la verdad.
2006/07/13
A liberdade dos israelitas está em perigo!
Desde a semana passada tropas israelitas invadiram a faixa de Gaza, com o objectivo de libertarem um soldado raptado por radicais palestinianos. O resultado: 21 mortos. Para tentar libertar um soldado.
Já esta semana o Hezbollah resolveu atacar posições israelitas, tendo raptado e feito reféns mais dois soldados israelitas e morto outros oito. O resultado não se fez esperar, mas é verdadeiramente preocupante para os defensores da liberdade: só 35 mortos resultaram dos raides aéreos de Israel no sul do Líbano! Pelo resultado da semana passada seria de esperar, só considerando os soldados raptados, no mínimo 42 mortos. Isto sem contar com os oito soldados israelitas mortos! Como foram só 35 os mortos palestinianos, para tentar libertar dois soldados e vingar outros oito, daqui se conclui que a cotação da liberdade dos israelitas está em queda. A liberdade do autoproclamado "povo eleito" está em risco! Chamem a Ann Coulter.
Já esta semana o Hezbollah resolveu atacar posições israelitas, tendo raptado e feito reféns mais dois soldados israelitas e morto outros oito. O resultado não se fez esperar, mas é verdadeiramente preocupante para os defensores da liberdade: só 35 mortos resultaram dos raides aéreos de Israel no sul do Líbano! Pelo resultado da semana passada seria de esperar, só considerando os soldados raptados, no mínimo 42 mortos. Isto sem contar com os oito soldados israelitas mortos! Como foram só 35 os mortos palestinianos, para tentar libertar dois soldados e vingar outros oito, daqui se conclui que a cotação da liberdade dos israelitas está em queda. A liberdade do autoproclamado "povo eleito" está em risco! Chamem a Ann Coulter.
2006/06/14
Onde estão?
Este é um tipo de texto que eu não gosto de escrever; não ando aqui para patrulhar ninguém. Mas já que, enquanto estava no Blogue de Esquerda, várias vezes fui "vítima" dele, aqui fica uma pequeníssima dose do remédio para quem o costuma prescrever.
E onde estão as condenações por parte dos blogues de direita? Onde estão eles, que não dizem nada? A única reacção que li, apesar de condenar o incidente, tenta legitimá-lo face à reacção do Hamas. Alguém duvida que se os mortos fossem israelitas, ninguém os calava? Não quererá isto dizer que, para os blogues de direita, uma vida israelita vale muito mais do que uma vida palestiniana?
Uma operação militar israelita contra uma praia na Faixa de Gaza provocou ontem a morte de dez civis palestinianos, entre os quais um casal e os seus três filhos. O ataque provocou ainda 30 feridos. Num outro incidente, morreram mais três palestinianos, o que eleva para 14 o número de mortos em ataques israelitas em menos de 24 horas.
E onde estão as condenações por parte dos blogues de direita? Onde estão eles, que não dizem nada? A única reacção que li, apesar de condenar o incidente, tenta legitimá-lo face à reacção do Hamas. Alguém duvida que se os mortos fossem israelitas, ninguém os calava? Não quererá isto dizer que, para os blogues de direita, uma vida israelita vale muito mais do que uma vida palestiniana?
2006/03/28
No dia das eleições de Israel
Uma questão muito actual, no Quase em Português, um blogue que não conhecia e a que cheguei via o Franco Atirador, em dois textos muito lúcidos: Combater o Anti-semitismo: Teoria e Prática e Linguagem draconiana e anti-semitismo. A fazerem-me lembrar os tempos áureos do BdE...
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