2008/01/31

2008/01/30

Sobre a remodelação governamental

Sobre a substituição do ministro da saúde, faço minhas as palavras do João Miguel Tavares:
O que é chato em política é mesmo a política. Quer dizer: a um governante não basta delinear uma estratégia e agir em conformidade. Não chegam estudos, mapas e relatórios. É preciso explicar as mudanças, resistir aos interesses instalados, ouvir toda a gente, voltar a explicar, nunca amuar, saber onde ceder, saber onde não ceder, fincar o pé. Numa frase: é preciso enfrentar pessoas. E é por isso, por a política ser coisa mais de gente do que de PowerPoint, que um ministro desastrado pode perfeitamente dar cabo de uma reforma razoável. Correia de Campos é disso um bom exemplo.

Entre aparecimentos na televisão e telefonemas irados para autarcas contestatários, Correia de Campos manifesta evidentes dificuldades em se relacionar com o género humano. E é uma pena. Porque no seu frenesim de justificações atabalhoadas, ele faz com que uma reflexão séria sobre o serviço nacional de saúde seja substituída pela contagem de partos em ambulâncias. E, no entanto, só quem desconhece a tragédia de muitos hospitais do interior é que pode negar a necessidade de uma maior concentração de unidades e de especialistas. A medicina é uma arte que necessita de companhia: sem vigilância, actualização e confronto com os seus pares, um médico corre o risco de se tornar mais um problema do que uma solução.

Mas ponham Correia de Campos a explicar isto na televisão e parece sempre que ele nos anda a enganar. E, assim, o ministro da Saúde torna-se o alvo fácil de todos os disparos, sejam eles demagógicos (caso do bebé de Anadia, cuja intervenção do INEM os próprios pais não contestam) ou justos (caso do homem de Alijó, que ainda assim é mais revelador do amadorismo dos bombeiros que temos do que das falhas do INEM). Correia de Campos é o típico técnico que adoraria mudar o mundo a partir do seu gabinete. Ele acredita, com sinceridade, ter grandes planos para as pessoas deste país. As pessoas deste país é que não param de o atrapalhar.

No caso do ministério da Cultura, sim, entendo ser bem necessária uma mudança de política, menos centrada na "fachada" e em "obras de regime".

2008/01/29

Adeus assassino

Que a terra te seja pesada.
Não surpreende ninguém, entretanto, que para Suharto, tal como para Pinochet, a direita tenha sempre um "mas".

2008/01/28

Sporting, 0 - Helton, -2

Podia ser este o sumário do jogo de ontem. Ou talvez Izmailov, 1 - Helton, -1. O que é facto é que o Porto só se pode queixar de si próprio: da inépcia dos seus avançados e das fífias do seu guarda-redes. O Porto atacou muito mais, sem dúvida, mas cada vez que o Sporting ia à sua baliza tudo parecia tremer.
Acresce que o Porto perdeu jogando contra dez. Sim, porque ontem, no estádio, é que eu me pude aperceber de que o Sporting jogava sempre com dez (até agora, espero eu - bem vindo, Rimmi!). O Ronny é confrangedor. É uma nulidade em campo. Não defende. Não ataca. Não faz um corte. Não faz nada. Izmailov (o melhor jogador de ontem) tinha que o dobrar.
A tradição ainda é o que era: cada vez que eu vou ao Alvalade XXI o Sporting ganha. Já lá vão quatro vezes e nunca falhou. A vitória foi justa, apesar de reconhecer que o Sporting teve a sorte do jogo. Marcou em dois minutos (um frango e um golo de fora de jogo, embora também a defesa estivesse a dormir) nas duas primeiras vezes que foi à baliza, e até lá nada tinha feito por isso. Como disse o senhor que ontem estava ao pé de mim, aqueles foram mesmo "dois minutos à Benfica".

2008/01/25

“Sem talões nem complicações”

Nunca simpatizei com o conceito de “publicidade negativa”, de fazer publicidade dizendo mal da concorrência. E isto apesar de ter vivido nos EUA, onde esse procedimento é muitíssimo habitual, tanto na política como no comércio.
Por muito boas que sejam as razões do Pingo Doce, não aprecio a campanha publicitária intensa a que temos assistido (motivada pela saída do Carrefour, e pelo desequilíbrio que tal causou no mercado, com a procura de novos clientes). A repetição intensiva da “ausência de talões, cartões e outras complicações” é dedicada exclusivamente à concorrência e demonstra falta de ideias. Uma campanha assim centrada em denegrir o concorrente demonstra que quem a faz não tem argumentos ou qualidade para se impor por si próprio. O que até nem é o caso do Pingo Doce. Uma referência simples aos “preços sempre mais baixos, sem promoções, todos os dias da semana” (sem esta obsessão com a concorrência) era mais simpática. Não sei se seria mais eficaz.
A insistência nas lamentações da “dona de casa” que “está farta” dos “talões e complicações” das outras lojas demonstra duas coisas pouco simpáticas: que o Pingo Doce vê os seus clientes como burros (os talões e cartões do Minipreço não têm complicação nenhuma!) e fúteis. É que após ouvir aquele anúncio repetido tantas vezes no horário nobre da televisão só dá vontade de gritar à “dona de casa desesperada” que o faz que pare de nos chatear e procure outra loja. Queixam-se das chatices causadas pela concorrência, e nem se dão conta de como o anúncio é chato!
Felizmente registo com agrado que o Minipreço responde evidenciando somente as suas qualidades de cadeia de desconto, sem baixar nunca o nível. Exemplar.
Entretanto a campanha dos DVDs do Correio da Manhã, para ser comparada com os cartões necessários para os obter no Diário de Notícias (e a brincar obviamente com a campanha do Pingo Doce), já me parece bastante engraçada. Um achado.

2008/01/24

Landau na rede (actualizado)

Um grande testemunho de alguém que também estudou pelos livros de Landau: Lubos Motl fala sobre o cientista e o formador. Carlos Fiolhais também escreveu um texto inspirado no De Rerum Natura.

Biografias de Landau aqui.

O seu obituário no Times de Londres.

Sobre a "teoria de tudo"

Convém esclarecer, como fiz nos comentários no Destreza das dúvidas: o autor do artigo que referi aqui (Garrett Lisi) tem um doutoramento e não é parvo nenhum. Nunca disse o contrário. O que me leva a referir o currículo (pouco ortodoxo) dele é para justificar o frenesim mediático que à volta dele se gerou. Só isso justifica o tal frenesim e não a sua “teoria”. O seu currículo, de facto, não conta para nada para avaliar a sua teoria. Mas para isso demos tempo ao tempo.
Para verem uma amostra do sentido de humor dos físicos de cordas, transcrevo o resumo do artigo-paródia "Theory of More Than Everything", cujos autores são acrónimos de quatro conhecidos físicos, um deles o meu orientador (o verdadeiro autor é este):
We derive a theory which, after spontaneous, dynamical, and ad hoc symmetry breaking, and after elimination of all fields except a set of zero measure, produces 10-dimensional superstring theory. Since the latter is a theory of only everything, our theory describes much more than everything, and includes also anything, something, and nothing.

2008/01/23

A única coisa que me caiu do céu na vida

Os volumes 4, 6, 7 e 10 desta colecção, como expliquei no texto abaixo.









2008/01/22

Lev Davidovitch Landau (1908-1968)


Nasceu há cem anos o maior cientista da extinta União Soviética e um dos maiores físicos do século XX. As suas contribuições são valiosíssimas, nomeadamente a teoria do hélio líquido e a superfluidez (que lhe valeram o prémio Nobel de Física em 1962), as transições de fase, mas também em praticamente todos os outros domínios da física teórica.
Para além do Landau cientista, merece reconhecimento o Landau formador. Em conjunto com o seu discípulo Evgueni Lifshitz escreveu o famoso Curso de Física Teórica, que ajudou e ajuda na formação de gerações de físicos (as actualizações após a sua morte foram sendo feitas por outros discípulos: V. Bérestetski e, principalmente, L. Pitayevski). Há outros “cursos sobre tudo”, como o de Arnold Sommerfeld (também muito bom, mas com mais de um século) e as famosas The Feynman Lectures on Physics, muito mais elementares e com um espírito completamente diferente. O Curso de Física Teórica de Landau e Lifshitz representava o mínimo que teria que saber alguém que aspirasse a trabalhar no grupo de Landau. Ainda hoje muitos dos tópicos lá explicados só se estudam ao nível de doutoramento! Exceptuando talvez o volume 4, de Electrodinâmica Quântica (que mal foi escrito por Landau), que hoje, sem estar errado (de todo), não representa a abordagem mais moderna ao assunto (podendo-se considerar ultrapassado por textos mais modernos de Teoria Quântica de Campo), o tempo não passa pelos outros volumes, que ainda hoje são referência utilíssima para qualquer físico teórico. Os volumes 1 (Mecânica Clássica) e 3 (Mecânica Quântica) são absolutamente indispensáveis, se não mesmo os melhores livros para um estudante de física aprender estes assuntos.
Quando entrei para o Instituto Superior Técnico ainda se encontravam nas livrarias os três primeiros volumes do curso, traduzidos para português e editados pela Editora Mir, de Moscovo. A União Soviética acabara há um ano, e pouco depois acabaria a Mir. Com os cérebros a escaparem todos, não houve tempo para acabar a tradução do curso para português. Havia ainda assim alguns dos volumes seguintes (o 5, o primeiro de Física Estatística, e o 8, Electrodinâmica dos Meios Contínuos) nas livrarias, nomeadamente na loja da antiga Central Distribuidora Livreira (que distribuía também as Edições Avante!), em Lisboa, na Avenida Santos Dumont. Comprei-os, e desde então o meu principal objectivo na vida passou a ser comprar todos os outros volumes, em francês, na edição da Mir. Tinha a esperança de que pudessem existir, à minha espera, esquecidos nalguma livraria. Cada vez que eu ia a uma cidade diferente, ia às principais livrarias à procura do Landau. A única vez que entrei na bela Lello na vida foi... à procura do Landau. E assim corri outras livrarias mais académicas de Portugal.
A salvação poderia vir do estrangeiro. Um grupo de amigos foi à Rússia, a São Petersburgo. Pedi-lhes para me arranjarem o que pudessem do Landau. A única coisa que me conseguiram foi um exemplar, que eu conservo com carinho, da Electrodinâmica dos Meios Contínuos... em russo! Dá para entender as fórmulas – a linguagem matemática é universal!
Dado que os livros eram em francês (as minhas grandes motivações para saber francês eram poder ouvir o Jacques Brel e ler os livros do Landau), experimentei a hoje extinta livraria do Instituto Franco-Português em Lisboa. Sem sucesso. Mas ao menos consegui a morada de uma livraria distribuidora em Paris (o equivalente à CDL portuguesa) que os poderia ter. Não sabia nada de Paris, e ignorava completamente o que fosse um arrondissement, mas guardei essa morada. Assim que soube que um outro colega ia a Paris, pedi-lhe que fosse à tal livraria procurar os “Landaus”. Sem sucesso mais uma vez.
Depois de uma procura tão demorada (cerca de dois anos), sempre sem encontrar a mínima pista dos livros que eu tanto desejava, eles “caíram-me ao colo”, vindos do céu (ou não sei de onde). Um dia muito tranquilo, vinha eu a passar à frente do Pavilhão Central do Técnico, e estava lá um vendedor ambulante com uma carrinha cheia de caixotes de livros da Mir, que expunha numa bancada improvisada. Entre os livros expostos estavam os “meus Landaus”; escusado será dizer que comprei os que me faltavam imediatamente. O vendedor era um ex-estudante da ex-União Soviética que andava a dar a volta às faculdades de ciências e engenharia do sul da Europa, a vender o stock que restava dos livros da Mir em francês, espanhol e português. Ainda hoje estou para perceber como é que aquilo sucedeu. Foi um autêntico milagre. Por ter conseguido o objectivo que tanto queria, esse dia de Janeiro de 1996 em que o mascate (não faço ideia de qual era a sua nacionalidade) apareceu no Técnico foi sem dúvida um dos mais felizes da minha vida.
Os livros da Mir eram excelentes e baratíssimos; para além disso, tinham sido fabricados na extinta União Soviética. O papel onde eram impressos era soviético; o pó que largavam, acumulado nos caixotes onde estiveram arrumados e esquecidos sabe-se lá por quantos anos, era soviético; a encadernação, excelente, era soviética; a contracapa, com um resumo do livro e das biografias dos autores, era soviética. No caso do curso de Física Teórica de Landau e Lifshitz, não faltava uma referência ao Prémio Lenine, atribuído àquele mesmo curso em 1962.
Quando comecei o meu doutoramento, nos EUA, tive de levar comigo alguns volumes do curso, que nunca tinha estudado durante a licenciatura, e escolhi cadeiras (nomeadamente de física estatística e física da matéria condensada) que me permitiam estudar o seu conteúdo. Tinha – e tenho – a opinião que um físico teórico deve, se não dominar perfeitamente, pelo menos ter tomado um contacto sério, ao nível de investigação, com todos os volumes do curso. Levei assim alguns dos meus “Landaus”, em francês e português, para espalhar e difundir por Nova Iorque o cheiro do seu pó soviético (não deveriam faltar certos candidatos a Dr. Estranhoamor que levariam a sério isto que eu estou a dizer como uma ameaça de conspiração qualquer). Qual não foi a minha surpresa ao verificar que em muitas das cadeiras de doutoramento os volumes correspondentes do Curso de Física Teórica de Landau e Lifshitz, o melhor que se tinha feito em física na extinta União Soviética, eram os livros de texto recomendados. A vantagem das universidades americanas, e no fundo a vantagem dos EUA enquanto país, resulta daqui: saber sempre reconhecer o que é bom. Os dez volumes do “Curso de Física Teórica”, aliás, “Course of Theoretical Physics”, existiam em várias cópias em várias bibliotecas de diferentes departamentos da Universidade, e podiam comprar-se em qualquer livraria como a Amazon ou Barnes and Noble. Publicados em inglês por uma editora capitalista. Quatro ou cinco vezes mais caros. E sem nenhuma referência ao Prémio Lenine.

2008/01/21

String theory is alive and kicking

Caro Luís, vais ter que esperar pelo próximo volume da Gazeta de Física... Entretanto, fica com alguns comentários já disponíveis na blogosfera: Sean Carroll, Lubos Motl e o melhor, Jacques Distler. Mas desde já te adianto que fazer capas como a da última Science et Vie (“Enfim uma teoria de tudo”) é totalmente irresponsável. A pressão mediática sobre a teoria das supercordas tornou-se enorme desde que ela foi anunciada (também irresponsavelmente) como a "teoria final", e os jornalistas adoram tudo o que a possa pôr em causa, mesmo que não tenha o menor fundamento. E principalmente se o autor for um surfista fora do meio académico (e com dois artigos publicados na vida). É notícia, compreendo. Vamos ver se fica na história. Por agora a atenção é muito mais por parte dos media do que dos cientistas.

Entrevistas de Luís Pacheco

A última entrevista de Luís Pacheco, dada ao Sol, a que cheguei via Glória Fácil. A não perder. Numa altura em que aparecem supostos biógrafos "oficiais" do desaparecido escritor e editor, vale a pena ler a opinião de Pacheco sobre os seus supostos "biógrafos".
Algumas passagens da referida entrevista a Anabela Mota Ribeiro, no DNa, transcritas pelo (quem mais?) José Mário Silva.

2008/01/18

Luís Pacheco - alguns textos


Encontrei no Diário de Notícias de 7 de Janeiro alguns extractos da referida entrevista a Anabela Mota Ribeiro, que a seguir transcrevo Mais textos podem ser vistos aqui e no auto-falante.
[Sobre por que se filiou no PCP] Agora que estou no fim, quero é que me arranjem onde cair morto... Sabe, eu gosto muito daquela bandeira e os gajos prometeram que me levam o caixão com a bandeira! Tenho uma militância contemplativa! Fui para ali como para um porto de abrigo.

Nunca fui um tipo muito sexuado. Desde o dia 31 de Dezembro de 1974 que não dou uma...

Ninguém vai chorar por mim, para que é que haviam de chorar? Um homem chora não é? Com toda a franqueza eu ainda fico chocado, magoado, mas chorar não me é muito fácil. As pessoas têm pena quando alguém morre? Por que é que se deve ter pena de uma pessoa que está aqui, que não fala, que não sae onde está, que se borra e mija e que já não dá por isso? Isso é que me faz impressão. Eu, por enquanto, ainda não cheiro a mijo. Mas arriscar-me a sair daqui?

2008/01/17

Luís Pacheco (1925-2008)

Andei este tempo todo à procura da entrevista de Pacheco a Anabela Mota Ribeiro, no DNa de há uns anos. Não a encontrei e, se não está aqui, é porque não está na web. Recomendo vivamente as outras entrevistas e depoimentos lá disponíveis. Luís Pacheco, o grande provocador, era o tal que aderiu ao PCP para, um dia quando morresse, ter uma bandeira do partido a cobrir o seu caixão no funeral. Foi feita a sua vontade.

2008/01/16

É o que dá ver Braga por um canudo

Era de esperar – e é compreensível, ainda mais tratando-se de futebol – um certo sentimento de desforra por parte dos adeptos do Gil Vicente, tendo em conta a forma como a equipa de Barcelos desceu de divisão em 2006, depois de no campeonato tertido mais pontos que o Belenenses. Também não surpreende que a principal aglutinação de minhotos em toda a blogosfera tome posição contra o Belenenses neste caso. O autor, Pedro Morgado, só vê o Minho à frente, e fará tudo o que puder pelo Minho e só pelo Minho. O que eu não esperava – e sinceramente me surpreende pela negativa – é que o autor desse largas ao seu populismo e transformasse este caso em mais uma (suposta, na cabeça dele) guerra da “província” contra “Lisboa”, que como sempre tem as costas muito largas. A agressão demonstra o suposto “provincianismo” dos adeptos do Belenenses (vejam bem o que ele vai buscar!).
Demos de barato que Belém é quase um “enclave” do concelho de Lisboa em Oeiras; de certas zonas da cidade é mais rápido e fácil chegar a Sintra que a Belém, e os moradores de Belém, quando vêm ao centro da cidade, dizem que vão a “Lisboa”. Mas é claro que Belém é Lisboa, e a questão não é essa.
A ver se a gente se entende: há uns meses atrás eu afirmei que quem pratica a praxe académica é provinciano, e que todas as pessoas que eu conhecia e que praticavam a praxe eram de fora de Lisboa (por muito que isso custe ao Pedro). Nada do que eu escrevi permite concluir que todas as pessoas de fora de Lisboa apoiam a praxe, e muito menos que são provincianas! Não é isso que eu penso e tal seria um grande disparate. Mas pelos vistos, para o Pedro, o comportamento vândalo de alguns adeptos do Belenenses demonstra o “provincianismo (!)” de Lisboa! Como se o guarda Abel fosse representativo de todos os adeptos do FC Porto... A questão é que o populismo regionalista do Pedro Morgado fá-lo tomar sempre a parte (pequena) pelo todo. Já tínhamos percebido. O que era escusado era mais esta demonstração cabal de rancor antilisboeta.

O (auto-denominado) "muito competente"

Deste senhor recordo uma entrevista, quando era director de futebol do Sporting, no final da década de 90, na desorientação que antecedeu a entrada de Augusto Inácio e Luís Duque, em que se auto-denominava “muito competente”. Assim, à Mourinho. Numa altura em que este ainda era adjunto no Barcelona. Só que Mourinho teria muitos títulos a atestarem a sua competência. Este senhor não tem nem um para a amostra.
Refiro-me a Carlos Janela, entretanto director de futebol do Belenenses afastado ontem. Não sei de todo se o Belenenses tem razão no seu despedimento; sei que a sua “competência” já era discutível e que, se o Belenenses tiver razão, fica extremamente difícil de demonstrar.

2008/01/15

A lei do tabaco e o "liberalismo de pacotilha"

Não tenho escrito sobre a nova Lei do Tabaco. Sobre este assunto já aqui afirmei que me incomodam os fundamentalismos de ambos os lados. Mas desde que a lei entrou em vigor tem-se assistido a uma sucessão de dislates por parte dos seus oponentes. Em alguns os dislates são novidade e demonstram uma dependência aguda da nicotina (Miguel Sousa Tavares). Outros já andam a escrever rabugices há anos – há muitos anos que estão totalmente ultrapassados, não compreendendo os dias de hoje -, mas estranhamente parece que muita gente só agora reparou – é o caso de António Barreto.
O melhor artigo que li sobre esta questão foi publicado há uma semana no Público e é da autoria de Pedro Magalhães: Liberalismo de pacotilha. Há partes inteiramente dedicadas a Barreto e a Vasco Pulido Valente (que trabalham no mesmo instituto do autor, é preciso ver). Atentem nesta passagem:
Resta um terceiro argumento, o dos fatalistas. Estes até desejariam que os portugueses fossem mais ou menos civilizados e capazes de imaginar que as regras não são apenas para os outros. Contudo, julgam ser tal objectivo impossível, e muito menos por decreto. O que seria bom, afinal, era que fôssemos como os "anglo-saxónicos", que se regem por normas implícitas de comportamento e convivência e que partilham uma cultura cívica, em vez de estarem sujeitos a violentas e potencialmente ineficazes sanções legais. Mas suponho que estes fatalistas nunca terão tentado entrar com um carro no centro de Londres, estacioná-lo em segunda fila em Frankfurt ou deixá-lo parado em frente a um terminal em JFK "só um bocadinho que estou à espera de uma pessoa". Se o tivessem feito, teriam talvez ficado com dúvidas sobre aquilo que realmente causa o comportamento "civilizado": a cultura cívica, ou, pelo contrário, instituições, regras e um aparelho coercivo disposto a aplicá-las sem contemplações. Quem tenha vivido algum tempo nestas sociedades terá certamente verificado como pessoas de todas as culturas, "cívicas" ou não "cívicas", se civilizam com uma rapidez surpreendente.
É isso mesmo, caro Pedro Magalhães. Esta passagem é muito mais geral...

2008/01/11

“Ota jamé!”

Entretanto era bom, como já aqui afirmei, que se percebesse que a nova travessia sobre o Tejo é uma estrutura necessária, independentemente da localização do novo aeroporto, pelo que os seus custos não devem ser a este imputados.
Por outro lado, não é a melhor escolha fazer depender as acessibilidades ao novo aeroporto da principal linha férrea e da principal autoestrada do país. Será que se imaginou o que era querer apanhar um avião e ficar encalhado no meio do trânsito de fim de semana? Ou não arranjar bilhetes para o comboio? Depender da A1/A8 (estradas movimentadas) e da Linha do Norte/TGV era uma grande desvantagem da Ota (a somar às outras todas, a começar pela nula expansibilidade e dificuldades de contrução). Por muito que isto custe aos meus amigos de Coimbra, o aeroporto deve mesmo ser “no meio do deserto”.

2008/01/10

A ratificação do Tratado

Sócrates, por si só, não tem “culpa” de que não haja um referendo ao Tratado de Lisboa em Portugal. Se tal foi acordado entre os líderes dos 27 países, a culpa é de todos eles, repartida. Esta terá de ser a opinião de um europeísta.
Do que Sócrates tem culpa é de ter criado esta expectativa. Em Dezembro do ano passado, quando o tratado foi assinado, era de esperar que a aprovação fosse parlamentar. Tal decisão teria sido melhor aceite se tivesse sido comunicada na altura. Não tanto depois de ter passado a público a ideia de que a possibilidade de referendo era real.
Não há referendo. Compreendo os motivos que levaram a esta decisão (uma decisão contrária, anunciada nesta altura, seria compreensivelmente mal vista). Acredito que Sócrates quisesse fazer um referendo (em termos de política interna, só tinha vantagens). Se era esse o caso deveria ter acautelado essa possibilidade em Dezembro, enquanto era presidente em exercício da União, antes da assinatura do tratado. Haveria dois bons argumentos para sustentar a especificidade portuguesa relativamente ao referendo: era uma promessa eleitoral, e nunca os portugueses se pronunciaram sobre a União Europeia. Assim, a ideia que fica é que houve pressão dos restantes países para não haver um referendo em Portugal. Se é assim, a culpa é de Sócrates, por não ter sabido gerir os tempos. E quem fica a ganhar são os antieuropeístas.

Nota: Um referendo tem de ter sempre consequências; eu defendo que o tratado deveria ser objecto de um referendo à escala europeia, e não deveria ser reprovado só por ser chumbado em alguns países. Para o contexto português estou de acordo com Ana Gomes: que venha o referendo sobre Portugal na UE.

2008/01/09

Clientes do Carrefour lamentam saída da empresa de Portugal


Notícia do DN de 5 de Janeiro:

"Consumidores gostavam dos produtos franceses e da diferenciação da loja

(...)Preferia o Carrefour, porque tinha produtos mais diversificados e preços mais baixos. Havia artigos franceses bons que não se vendem noutros locais". A opinião de Edmundo Mendes, 60 anos, é partilhada por Isabel Pinheiro, 53 anos. "O Carrefour tinha coisas mais especiais." (...)
Nas prateleiras ainda podem encontrar-se muitos produtos da marca Carrefour, que estarão à venda até serem escoados os stocks existentes.
No carrinho de compras, Inácio Domingos leva vários produtos da marca francesa, como iogurtes. Quer aproveitar os últimos artigos disponíveis da marca própria. "Lamento que os preços estejam mais caros. Os iogurtes e a água, por exemplo, custam mais. A qualidade do Carrefour era superior". Apesar disso, Inácio vai tornar-se cliente do Continente, até porque "moro perto, mas não tenciono comprar tudo aqui, vou passar a ir mais vezes ao Jumbo de Alfragide".
Da mesma forma, Rosa Maria Madeira, 47 anos, tenciona visitar com mais frequência as lojas do grupo Auchan. "Fiquei furiosa quando soube que o Carrefour ia desaparecer. O Continente tem um estilo mais de feira, com música alta, mas com preços mais caros. Vou passar a ir mais ao Pingo Doce e ao Jumbo"."

2008/01/08

Para arrumar de vez com os antieuropeísmos (e este PSD, já agora)

Antes de a decisão ser anunciada, comunico publicamente que ficarei satisfeito se o Tratado de Lisboa for a referendo.

Google castiga a blasfémia

Considerei seriamente mudar a plataforma onde o Avesso do Avesso está alojado, mas acabei por mudar somente a "decoração". Afinal, nunca tive nenhum problema com o Google. Mas considerando o que se está a passar com o Blasfémias, interrogo-me se fiz a melhor opção. Para já, ficamos por aqui, com este grafismo. Esperemos que o Blasfémias regresse depressa.

2008/01/07

Blasfémias com referencial

A direita blogosférica portuguesa parece ter descoberto o Lubos Motl. Em sensacionalismo não lhe devem nada (se um fala no ano mais frio do século, outro fala no milénio). Em climatologia, estão bem uns para os outros. Mas os textos imperdíveis do Lubos (checo, como o meu orientador) são sobre física.

2008/01/04

A árvore de Natal no Porto

Tripeiragem amiga, deixai que vos diga: a vossa árvore mais bonita não foi oferecida por nenhum banco. Nunca esteve em Lisboa. É vossa, desde sempre.

Vantagens da tripeiragem vistas por um lisboeta (2)

Em que cidade é que se compram (em pleno centro) uns sapatos de pele e sola de couro, de fabrico artesanal, português, por 20 euros? Em Lisboa é que não é de certeza!

(E a culpa neste caso não será de Lisboa. Da próxima vez que se queixarem de Lisboa lembrem-se de como é mais barata a vida no Norte.)

Vantagens da tripeiragem vistas por um lisboeta (1)

O Metro do Porto funcionou, ininterruptamente, na noite de fim de ano. Isto, sim, é noção de serviço público (e convidar as pessoas a não trazerem o carro nestas noites de grande confusão). Em Lisboa fechou à uma da manhã de 1 de Janeiro, após grandes enchentes.

2008/01/03

Chico Buarque em Lisboa - "Uma palavra"

Verdadeiramente notável a série documental que a RTP2 transmitiu a semana passada, para "buarqueanos" e não só. O último episódio, Uma Palavra, foi gravado em Lisboa. Como distinguir que se estava em Lisboa? De duas maneiras: pelos transeuntes, que reconheciam o cantor e com ele interagiam de uma forma diferente da de Paris (pelo menos a avaliar pelas imagens mostradas nos documentários); e... pelo ruído dos aviões, que sobrevoavam Chico enquanto ele nos contava as suas histórias em Belém, à beira-Tejo.

Novo ano, novo design

Novas funcionalidades, nomeadamente uma melhor pesquisa nos arquivos. A linha editorial é a mesma de sempre: procurar entender o mundo e torná-lo um ligar melhor. Alheio a algumas das "grandes questões" do momento, tenho outras, que me são muito caras, nomeadamente o cumprimento dos horários por parte das televisões.

A lista de ligações segue dentro de momentos.

2008/01/02

Abriu a "caça aos clientes do Carrefour"

Já não há pachorra para o bombardeamento constante de anúncios do Continente e do Modelo (ainda por cima quando ninguém percebe o slogan deste último) a qualquer hora do dia em qualquer canal de televisão. E o Feira Nova também vai pelo mesmo caminho. Por este andar, julgo que me vou converter ao comércio de proximidade (por "comércio de proximidade" entenda-se o Minipreço, o Pingo Doce, o LiDL...).

"Diz que é uma espécie de réveillon"

Aquela apresentadora inicial da passagem de ano da RTP, antes da ligação ao Pavilhão Atlântico, era assim um bocadinho para o tesourinho deprimente, não?