2007/04/30

Precários de todo o mundo, rebelai-vos!


Amanhã, no Dia Mundial (excepto nos EUA) do Trabalhador, vamos ver os precários (bolseiros de investigação científica incluídos) a manifestarem-se em Lisboa. Eu estarei lá.

33 anos - Abril sempre


Bolo de comemoração dos 33 anos da Revolução dos Cravos, Arraial do 25 de Abril, Largo do Carmo, Lisboa, 2007

2007/04/28

Food in New York

Dois queridos amigos seguem esta semana para Nova Iorque e eu não quis deixar de lhes dar as minhas recomendações sobre os locais a visitar e os restaurantes onde comer.
Nova Iorque é a capital mundial da diversidade, e isso reflecte-se nos restaurantes. Dificilmente se encontram, no mesmo sítio, tantas cozinhas juntas de origens tão diferentes, reflectindo bem o que é a cidade. Mas a oferta é tanta que é difícil fazer as melhores escolhas, principalmente se não se conhece a cidade e se tem um número limitado de dias.
Para encontrar um bom restaurante em Nova Iorque eu seguia as recomendações da Time Out New York (da revista semanal, quando a lia, mas especialmente do guia de estudantes) e de uma página especializada, o Citysearch. Nunca me arrependi. Segue-se uma lista de alguns dos meus restaurantes preferidos na cidade. Relativamente baratos e bons, com ligações para o Citysearch.

Almoço

No coração de Chinatown, o meu restaurante chinês favorito no mundo inteiro: o New Chao Chow. às vezes pode demorar a conseguir uma mesa (por isso é melhor ao alomço), mas o mercado funciona. Tanta procura significa que o sítio é mesmo muito bom.

Na Amsterdam Avenue há diversos restaurantes hispânicos, ou latinos (da América do Sul) que vale a pena tentar (um deles é o Flor de Mayo mas há outros). Podem comer-se iguarias cubanas como Ropa Vieja e a autêntica banana frita, que deve ser confeccionada com bananas gigantes ("plátanos" em espanhol) às rodelas.

Perto da belíssima Universidade de Columbia, e da Catedral St. John The Divine, o mítico Tom's Restaurant, da série Seinfeld e da canção de Suzanne Vega. Um must para os amantes da cidade e da sua cultura popular. Comida americana caseira - um diner típico. Servem bom peixe grelhado (quando têm).

Jantar

Em Chelsea, um dos mais autênticos restaurantes italianos, o Pepe Giallo. Excelentes pastas e pratos de carne. No diet coke, no skimmed milk, only good food é o lema. É o único sítio nos EUA que eu conheço que serve café Segafredo.

Outra vez perto da Universidade de Columbia, o Symposium. Comida grega excelente. Decoração magnífica, com um pátio nas traseiras com um jardim (algo que nem todos os clientes conhecem, mas que eu recomendo para tomar a refeição).

Perto da Union Square, o Chat 'n' Chew. Comida americana do sul (autêntica, muito boa - recomendo vivamente a jambalaya e o honey roasted chicken).

Bom apetite, e espero que não se queixem da comida americana!

2007/04/27

A Dia D e o pluralismo da imprensa

Em Agosto do ano passado, publiquei aqui dois textos (que deram muita polémica) onde denunciava o carácter parcial e propagandístico do então suplemento semanal do Público “DiaD”, pelo menos no que à opinião publicada dizia respeito. Esses textos deram azo às mais indignadas reacções, mas nunca ninguém desmentiu as minhas afirmações. Nem podiam.
Um dos principais animadores da revista veio agora finalmente confirmar o que já sabíamos: a Dia D não era politicamente independente. Mesmo que indirectamente, e tantos meses depois (até a revista já acabou...), é bom vê-lo a reconhecer tal facto.

Problemas informáticos

Problemas com o computador com que geralmente trabalho têm-me impedido de actualizar o blogue. Espero ter o problema resolvido ainda hoje.

2007/04/25

Salazar e as eleições

Aproveito o dia de hoje para recordar um pouco de História que tem andado muito esquecida (ou não foi bem aprendida), com um texto de há um mês atrás, publicado na imprensa e em alguns blogues.

Agora que Salazar parece em vias de ganhar pela primeira vez uma "eleição", e logo contra o Afonso Henriques, convém lembrar como eram as votações quando ele era vivo.

No que diz respeito à aprovação da Constituição de 1933, foi simples. As abstenções contaram a favor. A maioria foi esmagadora. Os portugueses nem precisaram de sair de suas casas para exprimir a sua "vontade".

Nas eleições legislativas o método também era infalivel. Nas eleições de 1957, por exemplo, em Lisboa, na véspera da eleição, os responsáveis pelas mesas eleitorais foram chamados ao Governo Civil onde receberam a indicação do resultado da votação do dia seguinte com uma margem de erro de 2 %. Assim, na freguesia de São João da Pedreira o resultado devia ser 56 ou 57%.

No dia seguinte houve guarda republicanos que andaram pelas mesas de voto a levar pacotes de votos de "guardas que estavam de piquete", que foram metidos nas urnas pelos presidentes das mesas. Mas isto teve uma relativa pouca importância.

Perto do fim, depois de assegurada a ausência de testemunhas inconvenientes, os elementos das mesas multiplicaram o número total de eleitores por 0,57 e dividiram o resultado pelo número de páginas dos cadernos eleitorais. Tiveram, assim, o número de eleitores de cada página que "deviam votar".

Procederam, então, sem se preocupar em lançar votos nas urnas, à operação de "compor os cadernos eleitorais", descarregando conscenciosamente nos dois cadernos o conveniente número de eleitores que "tinham" votado. A operação foi acompanhada de comentários do tipo: " Este é comunista, mas desta vez vai votar no governo".

Depois, enviaram para o Governo Civil um documento a dizer: "Percentagem de eleitores: 57%." Mas não se ficaram por aqui: abriram as urnas, contaram os votos, e enviaram para o Governo Civil um outro documento a dizer." Percentagem real de eleitores, tantos por cento" .

No caso concreto de uma mesa, a percentagem real de eleitores, incluindo os votos dos "guardas de piquete" e 50 votos riscados foi de 28 %, mas os elementos da mesa enviaram um documento a dizer que a "percentagem real", era de 30 %. É provavel que, quando chegasse ao Salazar, esta percentagem já fosse um bocadito mais alta.

Fui testemunha parcial destes factos em 1957. Uma outra testemunha foi o escritor Luis Pacheco a quem envio, 50 anos depois, as minhas saudações e que devia ser agora ouvido. Como comentador da "eleição de Salazar" e porque pode confirmar factos importantes para esclarecer um país que, 30 anos depois do 25 de Abril, ainda está muito mal informado.

Que, ao falar nas eleições do "antigamente", ainda fala em chapeladas, como se a fraude "dos guardas que estavam de piquete" e de uns tantos legionários fosse a mais importante. Salazar era muito mais subtil. Quarenta anos depois de morto, ainda engana o país.

E não só. Quando em Novembro de 1957 cheguei a França vi que os jornais franceses analisavam a situação portuguesa a partir do resultado de 57% de votos obtidos pelo governo nas últimas eleições legislativas.

(António Brotas, 21/03/2007)

2007/04/24

Diz que é uma espécie de manifesto de esquerda

Correu a blogosfera um “manifesto das esquerdas por Israel”, tendo sido divulgado pelo meu muito prezado Tiago Barbosa Ribeiro. Fosse só mais um “manifesto por Israel”, e eu nem lhe prestaria atenção nenhuma. Mas sendo um manifesto “das esquerdas”, julgo que merece a nossa atenção.
Na origem do manifesto está a expulsão de um militante do Bloco Nacionalista Galego. O episódio foi-nos explicado pelo Tiago (sempre atento a estas questões) em termos algo vagos: a expulsão deveu-se a o ex-militante ser dirigente da Associação Galega de Amizade com Israel e “defender o estado de Israel” (defender como?). O que não explica muito, mas (sem querer julgar em definitivo um caso que não conheço) parece-me suficiente para eu não concordar com a sua expulsão, se pertencesse ao referido partido. É possível (e desejável) ser de esquerda e procurar a cooperação com sectores moderados de Israel, que existem, embora sejam escassos.
Mesmo assim, o referido manifesto não pode merecer a minha concordância. E porquê? Porque objectivamente é um manifesto de apoio a Israel e à sua política expansionista e colonialista. Um manifesto de esquerda em apoio a Israel poderia ter feito sentido noutras ocasiões, quando Israel era atacado e teve de se defender. Mas, na sequência da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou (e ocupa, até hoje) ilegalmente territórios que não são seus. Para além disso Israel controla todas as actividades económicas dos territórios palestinianos, cobrando impostos, comissões e portagens e mantendo monopólios no abastecimento. Israel não é um estado laico, não concedendo direitos de cidadania plena aos seus cidadãos não judeus. Israel é um estado colonialista, e é o estado que mais sistematicamente viola as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por isso, não creio que um estado como Israel possa merecer mais apoio de quem se diz de esquerda que não seja simplesmente ao direito a defender-se dos ataques que recebe. É este, e só este, o apoio que eu dou a Israel. Mas não é essa a política externa de Israel, que está muito longe de ser uma mera política de defesa.
Tal como no manifesto, também eu defendo um reposicionamento da esquerda relativamente a Israel, só apoiando este estado na situação que referi (o que equivale a não apoiar a sua política externa e mesmo interna). Também julgo que o que aqui afirmo deve ser dito com “clareza” a Israel. A esquerda não tem (nem deve) de fazer nenhum tipo de cedência relativamente a Israel. É Israel que tem de vir ao encontro da esquerda, se quiser efectivamente o seu apoio.
O Tiago enumerou ontem as pessoas que apoiaram na blogosfera portuguesa o manifesto que ele lançou. É curioso que entre os apoiantes (de um manifesto “das esquerdas”) se contem mais pessoas de direita do que de esquerda, sendo que entre as primeiras está André Azevedo Alves, que recentemente se destacou como o maior defensor na blogosfera portuguesa de Salazar para o “maior português de sempre”. Já todos sabíamos que Israel era apoiado pela direita belicista, religiosa e fundamentalista. O que é curioso é que, em Portugal, essa direita é descendente da Inquisição e de quem expulsou do nosso país os judeus (a começar justamente pelo ultracatólico Azevedo Alves)! Servir como arma de arremesso e instrumento de chantagem da direita e da extrema direita, como este texto tão bem ilustra: é a isso que Israel chegou.

Publicado também no Cinco Dias.

2007/04/23

Eusébio em muito boas mãos

Lembro-me da história de Ronald Reagan, que quando foi vítima de um atentado e teve de ser operado de urgência, quis saber se os seus médicos eram republicanos ou democratas. Será que Eusébio quis saber se os seus médicos eram benfiquistas? O médico que o atendeu na urgência (e o acompanhou ontem) chamava-se, nem mais nem menos, José Roquette, pelo que a probabilidade de decepção era alta!

Desejo as melhoras e uma rápida recuperação ao Pantera Negra.

É da cor das cadeiras, seus cagaréus desconfiados!

Quis o destino que os meus dois clubes favoritos tivessem os estádios, construídos para o Euro 2004, desenhados pelo mesmo arquitecto, Tomás Taveira. Que é como quem diz: quis o destino que os meus dois clubes favoritos tivessem os estádios mais feios. O do Sporting, como é bem sabido, de fora parece uma casa de banho. O do Beira Mar consegue não ser tão mau, mas (como era de se esperar) tem uma combinação de cores berrantíssimas.
O Sporting, entretanto, lá chegou à final da Taça, como era a sua obrigação. No rescaldo desse jogo, o Beira Mar quer conferir o número de espectadores pagantes da partida de Alvalade, uma vez que no estádio lhes parecia estarem muito mais pessoas. Mas será que eles não sabem que um dos taveirismos mais característicos destes estádios é terem uma cadeira de cada cor (aleatoriamente distribuídas, de muitas cores diferentes)? Será que não sabem que um dos efeitos que tal taveirismo causa é, para quem está no campo, a ilusão de a assistência ser maior? Deveriam saber, pois têm o mesmo no estádio deles (que por sinal costuma estar bem vazio).
Vejam é se ganham à Académica!

2007/04/21

Eleições em França: ando com uma cara!

A escolha é difícil. Tal como o Rui Curado Silva, e precisamente pelos mesmos motivos, penso que o melhor candidato a estas eleições (visto de fora, pelo menos) é a ecologista Dominique Voynet, pelos motivos que o Rui aponta. Não é propriamente uma novidade, mas as novidades desta campanha são poucas e más.
Só que estas não são eleições legislativas. Só uma pessoa será escolhida, o Presidente da República. A esquerda francesa não pode cometer o mesmo erro de 2002 (apesar de o número de candidatos não ser muito inferior). Para evitar ter, pela segunda vez consecutiva, na segunda volta um candidato de direita e um de extrema direita (ou, pior ainda, dois candidatos de extrema direita), acho que se fosse francês acabaria por votar, muito a contragosto, em Ségolène Royal. Só que nunca, em nenhuma outra eleição, me sentiria tanto como o pai da Liberdade (da clássica tira de Quino) como nesta. Isto partindo do pressuposto que Ségolène ganha, o que está longe de ser adquirido!

2007/04/20

Cara Fernanda Câncio:

Não se preocupe com textos escritos com os pés. Responda-me antes a uma questão, sff. Isso da esquerda por israel (eu, por exemplo, às vezes) o que quer exactamente dizer? A Fernanda é às vezes por Israel? Ou é às vezes de esquerda? Ou é às vezes uma coisa, às vezes a outra?
(E continue a chatear. Chateie sempre. Não chateia nada.)

2007/04/19

Mais um massacre na terra das oportunidades (III)

Respondo agora a dois blogues que me interpelaram sobre o primeiro texto desta série.

Caro André, não desmentiste que o controlo do porte de armas diminui (não vou ao ponto de dizer que resolve) a violência, pois não? Para já é só isso que se quer: diminuir a violência num país que tem tudo para ser seguro, mas não é mais graças a incidentes como este.

Caro Pedro, existem muitas tensões entre a liberdade individual e outros valores importantes, como a igualdade (não é só a segurança). Eu não sou liberal e nem libertário, pelo que para mim a liberdade individual não é o valor supremo.

Partilho o interesse do Pedro pelas pessoas “que estão permanentemente a apelar ao respeito pelas formas organizacionais societárias árabes e outras" mas que, "sempre que estas desgraças acontecem", põem "em causa os princípios básicos da organização social norte-americana”. Mas certamente não sou eu que apelo ao respeito incondicional pela organização tradicional das sociedades árabes, como pode certamente ser confirmado por alguns dos meus textos, neste e noutros blogues.
Deduzir que, por eu ser de esquerda, sou necessariamente um defendor dessa organização, nessa e noutras sociedades, é assim como deduzir que, lá por se escrever na “Atlântico”, é-se necessariamente contra a despenalização do aborto. Não é, Pedro?

Sei perfeitamente que o porte livre de armas é (infelizmente) um princípio fundador da sociedade americana. Conheço eleitores de Ralph Nader que não são a favor do controlo de tal porte. Mas não é isso que me impede de defender que uma sociedade com livre porte de armas de fogo é, tal como uma sociedade onde as mulheres são obrigadas a usar um véu independentemente da sua vontade, contra os meus princípios. Contra ambos lutarei, pouco me importando em ambos os casos com a “liberdade individual” que (como em todas as sociedades liberais) acaba por ser só a liberdade do mais forte.

Finalmente, no meu anterior texto sobre este assunto eu afirmei que o livre porte de armas numa sociedade implica (por razões de segurança) que esta se torne numa sociedade policial (é o caso da sociedade americana). Eu afirmei que, sem descurar a importância do policiamento, prefiro uma sociedade menos policial e com o porte de armas controlado. Fiquei sem perceber qual é que os meus prezados interlocutores preferem.

Mais um massacre na terra das oportunidades (II)

Editorial do The New York Times de ontem:
Our hearts and the hearts of all Americans go out to the victims and their families. Sympathy was not enough at the time of Columbine, and eight years later it is not enough. What is needed, urgently, is stronger controls over the lethal weapons that cause such wasteful carnage and such unbearable loss.
No blogue Cosmic Variance: It is good to see some outrage
The number of children under the age of 17 shot by guns in America every year is greater than the gun-related deaths of children in all the industrialized nations of the world COMBINED.

2007/04/18

Cair na real

Cheguei a alinhavar um texto sobre Sócrates e a Universidade Independente, mas depois dos mais recentes desenvolvimentos, confesso que decidi não publicar nada por agora. Mas com isto fico com uma sensação duplamente desagradável de ter perdido tempo e de não me restar nada para dizer. Nem do futebol me apetece falar (e razões para isso não faltavam - desde gozar com os benfiquistas até à meia-final da Taça de Portugal que hoje se joga entre os meus dois clubes favoritos). Enfim, numa derradeira homenagem ao Euler (e uma vez mais graças ao Nélson), deixo-vos um cartoon com dois bons conselhos.

2007/04/17

Mais um massacre na terra das oportunidades

Que posso dizer sobre o massacre da Universidade da Virginia? Recomendar a todos (uma vez mais) que vejam o Bowling for Columbine e, de uma forma algo egoísta, agradecer aos alunos da State University of New York onde estudei serem gente tão tranquila e permitirem-me estar aqui a escrever-vos.
É nestas alturas que a omnipresença da polícia na sociedade americana (em particular, neste caso, nas universidades) parece justificada. É evidente que o policiamento é importante (em particular, deveria ser maior em Portugal em geral), mas - como mais este triste caso demonstra - não resolve tudo. O grande problema da sociedade americana, a causa da insegurança, está no livre porte de armas. A solução está no controle do porte de armas, que é preferível à manutenção do estado actual, que é uma sociedade policial e securitária. Se há quem veja nesse controle uma restrição das liberdades pessoais (e daí?), pergunto-me: e o que verão numa sociedade policial e armada até aos dentes?

2007/04/16

Euler na blogosfera

"Geralmente um grande cientista fica imortalizado por uma contribuição central na sua carreira: a Gravitação de Newton, a Lei de Gauss, a Hipótese de Riemann, a Relatividade de Einstein. Mas, se um matemático referir no abstracto o “Teorema de Euler”, ninguém poderá sequer saber de que ramo da Matemática está ele a falar, tal a abrangência do seu legado científico." (Jorge Buescu, De Rerum Natura.)

"Leonhard Euler: 300th anniversary
Written three centuries after the birth of a famous 18th century string theorist
(...)
As you can see, Euler was quite an impressive mathematically-inclined string theorist who was ahead of his time. He counts as the most prolific mathematician of all time and a guy who wasn't stopped by blindness. I wonder whether back in the 18th century, aggressive crackpots were attacking Euler for not being sufficiently scientific just like they do today."
(Lubos Motl, The Reference Frame.)

O Insurgente no buraco negro

Quando os soviéticos colocaram o primeiro satélite em órbita, o Sputnik, a reacção de um responsável do regime salazarista foi de incredulidade: tudo não passava de “propaganda comunista”. Colocar um satélite em órbita implicava vencer a gravidade (neste caso da Terra), e tal não era possível (pelo menos por parte dos soviéticos). O regime salazarista vivia assim num buraco negro (de cuja gravidade não se pode efectivamente escapar), sem nenhuma comunicação com o exterior, e queria puxar Portugal para lá. É natural que o mesmo se passe com o mais salazarista dos blogues, e com alguns dos seus elementos, salazaristas ou não. Refiro-me, é claro, ao Insurgente e a este texto de Bruno Alves onde, no meio de uma série de delírios, o autor garante que “a gravidade vence sempre", isto é, não se pode escapar à gravidade. A total falta de contacto com a realidade exterior que o texto evidencia só o confirma: o autor escreve, pelos vistos, do interior de um buraco negro.

2007/04/15

Leonhard Euler



A mais bela equação da Matemática, que relaciona os cinco principais números, deve-se a este matemático nascido há 300 anos em Basileia. De entre as suas inúmeras contribuições para a Matemática, destaco as mais simples (não requerem conhecimentos técnicos para serem entendidas) e, por isso mesmo, mais poderosas. Outro exemplo, que ninguém antes tinha provado: num poliedro, o número de faces mais o de vértices é igual ao de arestas mais dois (f+v=a+2). E muito mais. Euler é seguramente das pessoas a quem a Matemática mais deve. A imagem da mais bela equação acima é extraída do Público, que publica hoje uma excelente evocação do cientista, por Ana Gerschenfeld.

2007/04/14

2007/04/13

Esta é a razão do meu desconsolo

Do Público de hoje. Da entrevista de José Sócrates:

O fax do "desconsolo"

"Foi mandado em Novembro de 1996. O professor Luís Arouca convidou-me para dar aulas na universidade, depois de eu me licenciar. E eu estava tentado a aceitar, achava até honroso o convite. Depois descobri que não podia dar aulas porque estava impedido por lei. E mandei as duas leis, fundamentalmente a de 95 como digo no fax, em que é referido a expressa incompatibilidade de funções entre membros do Governo e qualquer actividade regular de dar aulas. O desconsolo é por isso, é por não ter podido aceitar"
É assim que se contratam docentes do ensino superior em Portugal. Nas "universidades" privadas de vão de escada, tipo "Independente", é o pão-nosso de cada dia. Ele é Sócrates, ele é Marques Mendes, ele é Santana, ele é Alberto João... Tudo grandes académicos.
Sr. ministro do Ensino Superior, caro prof. Mariano Gago, e se pensasse nisto? Se se certificasse de que as universidades contratavam gente competente, já viu quantos mais bolseiros poderiam estar empregados? Ficava bem para as estatísticas de que o prof. tanto gosta...

A gente vê-se por aí, Odete

2007/04/12

A notícia do "Público" não é verdadeira

Refiro-me a este caso, sobre o qual tanta asneira se tem escrito na última semana. Imaginem se fosse com o Benfica...

"Yours": deve fazer parte da cadeira de inglês técnico

«O primeiro-ministro salientou que fazia parte de uma turma "especial", criada por alunos oriundos de outras instituições, para explicar a razão pela qual o seu professor de Inglês Técnico, o reitor Luís Arouca, não terá sido o regente dessa cadeira do curso de Engenharia Civil. (...) E, sobre o facto de ter usado como forma de se despedir, numa carta ao reitor Luís Arouca, antes de ter aulas na Independente, a expressão "do seu José Sócrates" garantiu que "costuma sempre terminar as cartas desta forma".» (Do Público de hoje.)

2007/04/11

O engenheiro da discórdia

Nunca concluiu nenhuma licenciatura. Tem um bacharelato. É engenheiro técnico. Mas toda a gente o trata por "engenheiro". Todos lhe reconhecem uma honestidade e uma firmeza de carácter a toda a prova. Estará este homem a enganar toda a gente? Ou será Portugal simplesmente um país mais obcecado por títulos do que por competência?

2007/04/10

Sobre o novo aeroporto

A minha opinião não está ainda muito bem definida, mas creio que estou a ficar mais bem informado, devido à discussão (finalmente) séria que começou nos últimos dias.
Como é lógico, antes de se discutir a localização de um novo aeroporto, o(s) governo(s) deveria(m) convencer-nos de que este novo aeroporto era mesmo necessário, algo que ninguém fez convincentemente.
À partida inclinava-me para uma solução “Portela + 1”, como o Daniel Oliveira. Expandir-se-ia a Portela a Figo Maduro, e construia-se outro aeroporto para “low-costs”. Só que, ao contrário do que o Daniel Oliveira sugere como possibilidade, um segundo aeroporto pequeno não pode ser na Ota. Devido à natureza do terreno e às terraplanagens, um aeroporto na Ota só se torna viável se tiver as dimensões sugeridas pelo projecto do governo. Não pode ser mais pequeno (a construção não é economicamente viável). Não pode ser maior (o aeroporto da Ota não pode ser expandido, o que é um dos seus maiores handicaps). Não pode haver uma “Otinha”. Tem de ser daquele tamanho e só daquele tamanho. Isto é uma questão técnica e não política.
Dito isto, o comentário que mais me convenceu da necessidade de um novo (grande) aeroporto surge no mesmo texto do Daniel Oliveira, foi colocado às 0:38 de 28 de Março e é da autoria de uma leitora, identificada simplesmente como “nanda” mas que parece saber muito bem o que diz. Sugiro a todos que o leiam. Quem acha que não é preciso um novo grande aeroporto deve rebater aqueles argumentos.
A partir daqui, há que discutir finalmente a localização do novo aeroporto. Por motivos ecológicos e ambientais, Rio Frio deve ficar fora de questão. Mas ainda assim parece-me preferível uma localização a sul do Tejo. Porque existe uma fracção muito significativa da população portuguesa que vive na margem sul do Tejo, e para quem a localização do aeroporto na Ota não é muito conveniente. Um aeroporto a sul do Tejo estaria próximo de mais pessoas do que na Ota. Ao mesmo tempo, estaria mais próximo de uma ligação de TGV a Badajoz, e mais longe do Porto. De forma a não subalternizar o aeroporto do Porto e o norte do país, parece-me preferível que o novo aeroporto se situe fora do eixo Lisboa-Porto, que ao que parece já vai ser servido pelo TGV.
A isto há que acrescentar os inconvenientes da Ota que já referi: a necessidade das terraplanagens e a pouca ou nenhuma flexibilidade quanto à área.
Espero que, uma vez confirmada a sua indispensabilidade, o projecto do novo aeroporto vá para diante, mas antes espero que se leve a cabo uma discussão aprofundada. Aguardo por mais esclarecimentos.

Publicado também no Cinco Dias.

2007/04/09

Para quem quer ver a Fórmula 1

...e não tem SportTV ou outro canal de acesso pago: existe sempre o YouTube. Para um resumo, um link útil é Historias del motor.

2007/04/08

Carinhoso

Passaram a semana passada cem anos sobre o nascimento de Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha (também conhecido por João do Barro), exímio compositor de sambas falecido no final de 2006. Uma das suas obras mais conhecidas é a letra um choro composto por Pixinguinha, Carinhoso. Para evocar o seu centenário, fiquemos com Carinhoso, interpretada pelo genialmente desafinado João Gilberto. O que é que eu estou a dizer? O João nunca desafina; os instrumentos é que não o acompanham a cantar. Espero que apreciem. Ouvir o João Gilberto é para mim uma tarde bem passada.

2007/04/07

Ferrari

A histórica marca de Maranello completou 60 anos esta semana. Um dos meus poucos desvios burgueses que ue tenho que admitir é gostar da Ferrari. Mas para gostar de Fórmula 1 sendo de esquerda há a Ferrari que, afinal, é um símbolo de Modena (daí o escudo amarelo no símbolo) e da Emilia-Romagna, a região historicamente mais à esquerda da Itália. Talvez por isso os carros sejam sempre vermelhos. Na véspera de mais um grande prémio, forza Ferrari!

2007/04/05

“Those people can be so touchy!”


É claro que não se pode criticar a Bomba Inteligente sem aparecerem logo os fãs. E é mais claro ainda que não se pode associar a palavra “judeu” a um adjectivo depreciativo sem aparecerem logo acusações de “anti-semita”. Há três anos que ninguém me chamava “anti-semita”. Já tinha saudades. Devo este insulto, desta vez, ao leitor Júlio Silva Cunha, nos comentários, que aparentemente se incomodou por eu ter explicitado a religião de Sarah Silverman quando lhe chamei racista.
Há uns meses a actriz Daniela Ruah era a capa da revista Notícias Sábado. Daniela, para quem não a conhece, é protagonista de uma telenovela actualmente em exibição na TVI. O título de capa da revista era “a bela judia”. E, de facto, correspondia à verdade: Daniela é bela e consta que é judia. Mas também corresponderia totalmente à verdade um título como “a judia da voz esganiçada”. Eu que o diga, que todas as quintas feiras (como hoje) apanho uma bem sefardita dor de cabeça graças aos gritos daquela actriz na referida novela, que tenho que ver (e mais a ligação diária ao programa As Bombas e os Inteligentes. O que um tipo tem que aturar se quer ver do princípio o Dr. House!
Não vi Júlio Silva Cunha nem nenhum leitor da revista chamar “anti-semita” àquela capa, apesar de o “judia” ser bem explícito. Porquê? Porque vinha acompanhado de um elogio. Já um título como “a judia da voz esganiçada” seria rapidamente considerado ofensivo para toda a comunidade judaica. Indignações selectivas... que nem têm a ver com tratar-se de judeus. Se se substituísse “judia” por “negra”, ou “católica” ou “portuguesa” a indignação seria a mesma. E porquê? Porque a etnia (neste caso, “judia”) não tem nada a ver com a voz esganiçada. Mas também não tem nada a ver com a beleza...
No caso de Sarah Silverman incluí uma referência à sua etnia, associada ao seu racismo. Não porque, evidentemente, o racismo seja associável aos judeus. Bem pelo contrário: devido ao racismo de que sempre forma vítimas, parece-me ainda mais chocante encontrar um judeu (ou um negro) racista. Daí a minha referência.
Sarah Silverman é uma boa representante daquilo a que se chama uma “princesa judia”, um conceito bem definido nos EUA e com direito a entrada na wikipédia (será que Júlio Silva Cunha também vê anti-semitismo na wikipédia?). O melhor exemplo de uma “princesa judia” na blogosfera portuguesa é, justamente, a bomba inteligente Carla Quevedo (demonstra-o quotidianamente no seu blogue). Bem mais do que a saudosa Ana Albergaria, com quem eu tive algumas altercações (mas de quem tenho sinceras saudades). A Ana Albergaria manifestava alguma preocupação com o mundo que a rodeava (mesmo que eu nunca concordasse com ela), nunca escondia o que era e tinha um grande sentido de humor (até ensinava a malta a fazer croquetes!). A aburguesada blogosfera portuguesa (de esquerda e de direita) gosta muito da escrita da “princesa judia” portuguesa. Eu, que sou culturalmente proletário, não gosto de príncipes nem de princesas, judeus ou de qualquer outra etnia. Mas desejo a todos (de qualquer crença ou não-crença) uma Páscoa feliz e cheia de coisas boas.

2007/04/04

James Watson

Vale a pena ler a entrevista de Teresa Firmino ao descobridor da estrutura do ADN, director do laboratório de Cold Spring Harbor e Prémio Nobel da Medicina, no Público de sábado. O Tiago Barbosa Ribeiro reproduz algumas partes.















Falando de genética: estou de acordo com o biólogo quanto às suas opiniões sobre transgénicos. Estou de acordo com o lamentar o medo que a esquerda muitas vezes tem da ciência (em particular da genética). Estou de acordo em que esse medo não deve parar a investigação. Estou de acordo que, em questões científicas, a política não deve ser mais forte do que a ciência (será que o Tiago concorda com este ponto?).
Não posso estar de acordo com a redução do ambientalismo social a uma simples luta contra as grandes empresas. E fico aterrorizado com a ideia algo hitleriana de "pagar às pessoas com sucesso para terem filhos" (complementada com a sugestão de "pagar aos pobres para não terem filhos"!). Pode ser verdade que as pessoas com sucesso não estejam a ter filhos e que a taxa de natalidade dos países desenvolvidos esteja a cair. Pode ser verdade que a inteligência e a ambição (importantes para o sucesso) sejam genéticas. Mas podem ser estimuladas ao longo da vida. E enquanto a inteligência é absoluta, o sucesso é relativo.
Não me incomoda nada que se utilize a genética para produzir mais e melhores alimentos para toda a humanidade. Não recuso de todo a ideia de se utilizar a genética na cura de certas doenças. Mas recuso que a genética tenha o papel que só a evolução natural da espécie humana deve ter.

2007/04/03

As bombas e os inteligentes

Está a dar grande polémica o mais recente reality show da TVI, A Bela e o Mestre, por reforçar o estereótipo das mulheres belas e fúteis e dos homens feios e inteligentes. Fui obrigado a ir assistindo a algumas partes na semana passada, ao mesmo tempo que ia lendo qualquer coisa, no domingo (no intervalo do programa desportivo) e na segunda, enquanto aguardava por um filme que à última hora não deu. Estes directos não estavam programados nem anunciados e apanhavam de surpresa o telespectador incauto que esperava ver outro programa, mas são permitidos pela Lei de Televisão que (ainda) vamos tendo. Por pouco tempo, espero.
O Daniel Oliveira espanta-se por não perceber o que fazem no júri Rui Zink e Clara Pinto Correia. Eu vejo Carlos Quevedo e percebo tudo. Num instante tudo faz sentido. Se as participantes no referido programa querem causar boa impressão ao Carlos Quevedo, mostrem-lhe que são capazes do que ele aparentemente mais gosta. Digam-lhe que “hoje acordaram assim...” Não vale a pena (e nem convém) saberem quem é Fidel Castro ou Mikhail Gorbatchov; é preferível afirmarem publicamente que “não respeitam o Islão” ao som da racista judia Sarah Silverman. A mais completa tradução deste programa já existe, na blogosfera portuguesa, há uns bons anos. Admiro-me como as feministas portuguesas não percebem (ou fingem não perceber) isso.

2007/04/02

O primeiro de Abril do "Ciência Hoje"

O caso foi contado no De Rerum Natura (aqui vai em latim) e no Esquerda Republicana. Gostaria de saudar Jorge Buescu pela atitude que tomou e pelos princípios que defende para uma página como o Ciência Hoje. É que já não é a primeira vez que a pseudociência tem voz (infelizmente) naquela página (que, como refere o Ricardo Alves, é meritória e bem intencionada). Refiro-me concretamente a textos como este, cujo autor se apresenta como responsável por um blogue, sem mostrar nenhumas outras credenciais... que não podia. De facto o autor é engenheiro, o seu grau académico mais elevado é um mestrado (não sei por que universidade) e é professor numa universidade privada portuguesa (não sei em qual, nem de quê). Não sabemos que contribuições deu para a investigação neste assunto, que artigos publicou, em que revistas... Para enriquecer o currículo, poderia acrescentar ser referido frequentemente em tons elogiosos pelo insurgente André Azevedo Alves, que como se sabe é reconhecido pela sua isenção, independência e amor pela ciência... E é com estas credenciais que escreve no Ciência Hoje, onde põe em causa uma explicação de um facto aceite por 90% dos melhores especialistas mundiais. Felizmente o seu texto é bem refutado (logo) nos comentários, mas nem sempre se pode esperar que isso aconteça. Para o futuro, e para evitar mais casos como o que deu origem à saída de Jorge Buescu, sugiro assim ao Ciência Hoje mais cuidado com os textos de “opinião” que aceita, pois embora seja desejável e necessária a discussão em ciência, tal não se reduz à “opinião” e nem a torna democrática... Caso contrário, vemo-nos reduzidos às famosas teses de Boaventura de Sousa Santos.

Novos blogues

O do camarada Francisco Frazão, Fábrica Sombria. A pouco e pouco o velho Blogue de Esquerda está todo de volta.
O Sobre a Natureza das Coisas, já bastante conhecido e com uma constelação de autores, dos quais desejo destacar (a título pessoal) os bem conhecidos Carlos Fiolhais e Jorge Buescu (da divulgação científica) e Palmira Silva (da blogosfera).
Este blogue tem um título qualquer em latim, mas designo-o neste texto pelo seu título em português pois, para mim, o latim é uma língua de fachos e padres.
A ambos os blogues quero endereçar os meus mais calorosos cumprimentos (apesar de atrasados) e votos de boas vindas.

2007/04/01

Dia de Costanza

Era assim que, em homenagem ao maior de todos, o dia dos mentirosos deveria ser renomeado.